Capítulo 1 - O Peso da Gravidade

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A chuva de Manchester não caía em gotas normais; ela parecia flutuar em uma névoa fina e congelante que se impregnava na roupa antes mesmo de você atravessar o estacionamento.
Maya ajustou o jaleco escuro sobre o casaco térmico e olhou no espelho da sala de recuperação muscular do City Football Academy. O relógio na parede marcava quase sete da noite. A maioria dos jogadores já tinha ido embora em seus carros luxuosos, ansiosos para fugir do vento britânico.
Para Maya, aquele silêncio pós-treino era a melhor parte do dia. Sem câmeras, sem empresários no corredor, sem a música alta do vestiário. Apenas o cheiro característico de pomada de arnica, mentol e o zumbido baixo das máquinas de crioterapia.
A porta da sala correu suavemente nos trilhos de alumínio.
Ela não se virou de imediato, organizando as faixas elásticas sobre a bancada de inox.
- Ficou faltando assinar a ficha do treino de força de hoje, Pep - Maya disse, imaginando ser o técnico ajustando os últimos detalhes da comissão. - Já deixei a planilha de carga atuali...
- Não sou o Pep - a voz ecoou, vindo de uma altura considerável. Era grave, arrastada, com aquele sotaque nórdico inconfundível.
Maya virou-se devagar.
Parado sob o batente da porta estava Erling Haaland. Ele vestia o uniforme de treino molhado de suor, uma toalha cinza pendurada no pescoço largo e os cabelos loiros presos num coque meio frouxo, com alguns fios caindo no rosto. Ele era... desproporcionalmente grande para o espaço pequeno da sala.
- Ah. Haaland - Maya manteve o tom calmo, a voz neutra de quem lê uma lista de compras. - Achei que já estivesse em casa. Sua sessão de liberação miofascial era às cinco.
Erling deu dois passos para dentro, fazendo a sala parecer subitamente menor. Ele franziu o cenho, surpreso com a falta de reação da nova fisioterapeuta. A maioria das pessoas - fossem estagiários, jornalistas ou até funcionários novos do clube - gaguejava um pouco ou tentava puxar assunto sobre o jogo do fim de semana. Maya nem sequer piscou.
- A coletiva demorou - ele respondeu, dando de ombros com uma simplicidade quase infantil. - E o quadríceps esquerdo tá travado. O Pep disse que a fiso nova era durona, mas que entendia do assunto. É você?
- É o que diz o meu contrato - Maya pegou a prancha com o prontuário do day, apontando com a caneta para a maca estofada de couro preto. - Tira a chuteira e deita de barriga para cima. Vamos ver o que você aprontou no treino.
Ele obedeceu em silêncio. Tirou as chuteiras pesadas de trava, deixando-as num canto, e se deitou na maca. A cena era quase cômica: os pés dele quase ultrapassavam o limite da estrutura ajustável.
Maya puxou o mocho rodízio e sentou-se ao lado dele. Ela aplicou um pouco de óleo neutro nas mãos, esfregando-as rapidamente para aquê-las antes de encostar na pele dele.
- Vai gelar - ela avisou, antes de pressionar a palma da mão na parte inferior da coxa direita dele.
Erling soltou uma respiração funda, os músculos da coxa tencionando instantaneamente ao toque gelado.
- Eu disse o esquerdo - ele pontuou, a voz saindo um pouco mais baixa, olhando fixamente para o teto.
- Eu sei - Maya respondeu, sem desviar a atenção, usando os polegares para mapear a cadeia muscular da perna sadia primeiro. - Mas eu preciso de uma base de comparação do seu tônus normal antes de mexer na perna que tá doendo. A não ser que você prefira dar as instruções da fisioterapia?
Erling virou o rosto para o lado, encarando-a de baixo. Pela primeira vez na noite, os olhos azuis dele pareciam realmente atentos, analisando o rosto focado de Maya, os fios esparsos de cabelo que escapavam do coque dela e a postura rígida de quem não estava ali para ser fã de ninguém.
Um sorriso de canto, quase imperceptível, surgiu nos lábios dele.
- Não - ele murmurou, voltando a olhar para o teto e relaxando os ombros contra o estofado. - Você é quem manda, fiso.
Maya deslizou as mãos para a perna esquerda dele. O músculo ali era denso, tenso como um cabo de aço sob pressão. Quando a ponta dos dedos dela encontrou o nó de tensão na parte lateral da coxa, Erling soltou um palavrão em norueguês e seus dedos das mãos se fecharam com força no tecido da maca.
- Respira - Maya pediu, a voz caindo meio tom, suave, mas firme. Ela não recuou a pressão. Em vez disso, inclinou o corpo ligeiramente para a frente para aplicar a força correta do antebraço, o perfume leve de baunilha e algodão do pescoço dela invadindo o espaço entre os dois. - Se você prender o ar, o músculo não cede. Solta devagar pela boca.
Erling obedeceu. O peito largo subiu e desceu num ritmo pesado. Ele podia sentir o calor exalando das mãos dela contra a pele fria dele, o contraste absoluto entre a força clínica daquele toque e a delicadeza dos gestos dela.
Quando Maya pressionou um ponto específico perto do quadril, a perna dele deu um pequeno espasmo involuntário, e a mão gigante de Erling instintivamente voou para o pulso dela, parando a força do movimento.
O contato da pele quente dele contra o pulso descoberto de Maya fez o ar da sala parecer subitamente mais denso.
- Doeu - ele disse, com a voz rouca, o olhar fixo no dela.
Maya não puxou o braço. Ela sustentou o olhar azul profundo de Erling por três segundos inteiros, sentindo a pulsação rápida no ponto onde os dedos dele a seguravam.
- Eu sei que doeu, Erling - ela disse calmamente, baixando os olhos para a mão dele que apertava seu pulso. - É o ponto de gatilho. Agora, se você me deixar trabalhar sem se mexer, amanhã você joga sem dor.
Erling piscou, encarando a própria mão no pulso dela como se tivesse acabado de perceber o que fez. Ele soltou o braço dela devagar, os dedos roçando suavemente pela pele dela antes de caírem ao lado do corpo.
- Desculpa - ele resmungou, virando o rosto para a parede.
- Sem problemas - Maya ajeitou o jaleco e voltou a apoiar as mãos na coxa dele, ignorando a leve descarga de adrenalina que subiu por sua espinha. - De novo. Solta o ar... isso. Exatamente assim.
O silêncio voltou a se instalar na sala, mas não era mais um silêncio desconfortável. Tinha o peso denso de algo que tinha acabado de mudar entre eles.
Maya continuou o trabalho nos dez minutos seguintes em ritmo profissional, sentindo o músculo dele relaxar aos poucos sob suas mãos. Quando terminou, ela se levantou, limpou o excesso de óleo com uma toalha limpa e indicou a saída.
- Pronto. Está liberado. Beba bastante água antes de dormir e me avise se sentir qualquer fisgada no aquecimento de amanhã.
Erling sentou-se na maca devagar. Ele passou as mãos pelo rosto, ajeitando o coque loiro que já se desfazia, e se colocou de pé. Toda aquela estrutura de quase dois metros pareceu engolir a sala de novo. Ele calçou os sapatos sem pressa e caminhou até a porta.
Antes de empurrar o painel de vidro, ele parou e olhou para trás por cima do ombro.
- Você não me pediu nenhum autógrafo. Nem foto para o seu Instagram - ele comentou, com um traço de curiosidade genuína no olhar.
Maya deu um sorriso calmo, arrumando a prancha de relatórios sobre a mesa.
- Eu estou aqui para garantir que você continue fazendo gols, Haaland, não para tirar foto com você. Agora vai descansar.
Um sorriso de canto de boca cortou o rosto dele - o primeiro sorriso real da noite.
- Até amanhã, Maya.
Quando a porta se fechou, Maya soltou o ar que nem percebera que estava segurando. O pulso onde ele a havia segurado ainda parecia formigar.

Notas da Autora:

Olá, pessoal! Aqui é a Clara Novero e sejam muito bem-vindos ao lançamento de Além da Linha! ✨

O que acharam dessa primeira faísca entre o Erling e a Maya? Ela está certa em manter a postura ou o Haaland vai conseguir dobrar essa fisioterapeuta rápido?

Se você gostou da leitura, não esqueça de deixar o seu voto (a estrelinha ⭐) e comentar o que achou! O apoio de vocês é fundamental para a história continuar.

Nos vemos no Capítulo 2! 🖤

Além da Linha | Erling HaalandHistórias para pegar e não largar. Descubra agora