Após o jantar, Morticia tomou um banho e se trancou em seu quarto. O entardecer pintava o céu de laranja e roxo, iluminando cada vez mais debilmente as paredes do cômodo enquanto a garota escovava os cabelos na frente da penteadeira.
A adolescente havia passado o dia em uma aventura com Rick e só voltou a tempo para a refeição porque brigou com seu avô para trazê-la. Já fazia bastante tempo desde que ela se sentia mais confiante para impor limites e tomar o controle - às vezes parecendo até desprezar o idoso, que hesitava por nanosegundos em algo que não sabia nomear antes de explodir em sarcasmo e grosseria.
Morty se admirava no espelho ao terminar de arrumar suas madeixas; sua expressão parecia plena, mesmo que um pouco cansada.
Enquanto isso, o som da solda e metais caindo abafavam o resmungar cada vez mais bêbado de Rick na garagem. Há algum tempo sua neta estava diferente, e perder o controle daquela maneira o irritava mais do que a hipótese de ter sido vulnerável sem querer.
Morticia abriu a gaveta para guardar a escova e viu seu antigo diário. Faziam semanas que não escrevia sobre seu dia; o caderno agora era dedicado a desenhos, poemas e, às vezes, histórias da escola.
A garota pegou o caderno e começou a folhear as primeiras páginas. Ele havia sido um presente de seu pai por seu aniversário e, no mesmo dia, ela começara a anotar seus pensamentos. Naquele período, ela tinha implorado a Rick por algo que fizesse as pessoas gostarem dela. No fim, a invenção só fazia as pessoas se aproximarem fisicamente. A menina riu ao lembrar.
Várias páginas depois, havia um dia fatídico detalhado com uma caneta cor-de-rosa - a primeira que encontrou para escrever o mais rápido possível o que tinha acontecido.
Os olhos de Morticia percorreram as linhas que descreviam aquela madrugada:
Às 04:00 da manhã, o portal verde cuspiu um Rick atordoado e confuso. O homem tropeçou no que parecia ser uma garrafa na escuridão da garagem e se segurou na bancada, encarando a penumbra com os olhos cerrados.
O mundo parecia girar e tudo era engraçado e estranho.
- Mourrtyyyy! - o grito ecoou pela casa.
A menina acordou num susto e coçou os olhos antes de se levantar e calmamente descer as escadas. Já estava acostumada com as bebedeiras do avô.
A luz da cozinha entrou pela fresta da porta se abrindo e logo iluminou o idoso jogado no chão, com uma expressão angustiada.
- Rick?
- Não tô legal, Morty... - sua voz estava rouca e arrastada.
- Me disseram que ia ser legal...
- Ai, caramba! - a menina se adiantou para ajudá-lo a se levantar.
Os olhos dele estavam lilás e sua roupa tinha um cheiro forte de álcool misturado a algo mais sutil e estranho, que Morticia jurou ser uma mistura de gasolina, areia e melão.
- O que você usou dessa vez, Rick?
O homem apenas chorava silenciosamente enquanto era guiado pelos cômodos. Eles subiram as escadas com dificuldade e, ao entrar no banheiro, o idoso se jogou no chão e vomitou no vaso sanitário. Morty acariciou suas costas, com pena.
- Você devia parar com isso.
- Desculpa, Morty... - lágrimas escorriam por suas bochechas.
Rick sustentou o olhar dela com dificuldade e tocou sua bochecha, acariciando com o polegar. Ela franziu a testa.
- Para de palhaçada, Rick! - ela deu um tapinha na mão dele e se levantou, puxando-o com certa indelicadeza.
O homem foi jogado contra a parede do box e golpeado pela água gelada do chuveiro, que escorria pelo seu corpo molhando a roupa.
