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Guillermo Varela sabia exatamente onde se enfiou quando aceitou a trabalhar a alguns anos atrás. Talvez por que foi um desespero que bateu, talvez seja por que ele era um ômega carregando um sonho de trabalhar nesse mundo misturados entre betas e alfas, ômegas sendo claramente o menor dos contratados entre todos ali.
Talvez por que, mesmo sabendo como as pessoas reagiam toda vez que dizia que trabalhava no Magic show como um dos dançarinos, as pessoas criticavam, elogiavam e bom, pediam as vezes até para o ômega pagar-lhes o ingresso para observar o show. Varela era um poucos dos latinos que residiam ali, existiam apenas ele, Matias, Samuel, Danilo e o insuportável do arrascaeta. O alfa arrogante que o santo de Guillermo nunca se bateu desde o primeiro santo dia.
Casos a parte, Guillermo estava ali, observando Mattheus gritar mais uma vez com ele, o namorado alfa era um completo narcisista babaca que namora com o ômega faziam um ano e alguns meses, os dois se conheceram dentro do teatro durante uma apresentação que terminou nos dois trocando números e consequentemente meses depois, entrando num relacionamento sério, que agora virou isso.
Gritos.
Ofensas.
Babaquice sendo distribuída desenfreadamente.
Com Guillermo quieto, engolindo tudo calado, por que ele tinha uma minúscula parte esperançosa de que o namorado iria voltar a ser aquele namorado fofo. Não é como se não acontecesse, quando o homem se acalmava depois de surtar, quebrar alguma coisa, rebaixar varela ao lixo, o alfa fazia carinho, beijava, dizia que amava. Mas por enquanto o ômega teria que aguentar os gritos.
A sala dos fundos do teatro tinha cheiro de poeira e verniz, e as luzes fluorescentes piscavam numa frequência irritante, como se estivessem tão cansadas quanto Guillermo se sentia. Ele mantinha os olhos fixos num ponto qualquer do chão, os braços cruzados sobre o peito num gesto instintivo de proteção, enquanto Mattheus andava de um lado para o outro, gesticulando com violência.
Mattheus_Eu não acredito que você aceitou a porra daquela coreografia! - a voz do alfa reverberava nas paredes. - Você se esfregando naquele outro dançarino como uma puta no cio, na frente de todo mundo, e ainda tem coragem de me dizer que é profissional?
Guillermo engoliu seco. A vontade de responder era uma queimação no fundo da garganta, mas ele já tinha aprendido que rebater só piorava. Quando ficava quieto, o namorado eventualmente cansava. Quando respondia, virava um furacão. Então ele mordeu a parte de dentro da bochecha e deixou as palavras morrerem na língua.
Mattheus parou de repente, inclinando a cabeça como se esperasse uma reação. O silêncio de Guillermo sempre o irritava mais.
Mattheus_Olha para mim quando eu falo com você.
O ômega obedeceu, levantando o olhar. Os olhos do alfa estavam injetados, o maxilar travado. Bonito, sim. Sempre foi bonito. Mas havia uma frieza ali que Guillermo ainda não conseguia aceitar de todo, como um quadro bonito pendurado numa parede mofada.
Guillermo_ Desculpa - murmurou, sem saber exatamente pelo quê.
Mattheus bufou, passando a mão pelos cabelos castanhos, a respiração pesada. Por um instante, Guillermo achou que ele fosse se acalmar. Mas então o alfa chutou uma cadeira, e o estrondo fez o corpo do ômega dar um salto involuntário, o coração disparando.
Mattheus_ Você me faz perder a cabeça, sabia? - a voz agora saía mais baixa, quase rouca. Ele se aproximou. - Eu só quero o seu melhor, Gui. Você sabe disso, né?
Os passos eram lentos, calculados. Quando Mattheus parou na frente dele e ergueu a mão, Guillermo fechou os olhos por reflexo. Mas o toque veio suave - dedos roçando sua mandíbula, depois se aninhando em seu cabelo escuro.
Mattheus_Olha pra mim.
Ele abriu os olhos devagar, o peito subindo e descendo num ritmo tenso.
Mattheus_ Eu te amo. - Mattheus sorriu, aquele sorriso torto e charmoso que um dia o desarmou por completo. - Eu só odeio quando você se expõe assim. Qualquer alfa naquela plateia tava te comendo com os olhos. E você ali, rebolando...
Guillermo desviou o olhar de novo, sentindo o estômago revirar. A humilhação era um gosto metálico na boca.
Guillermo_Era o meu trabalho - disse, finalmente, num fio de voz.
Mattheus_ Trabalho, é? - Mattheus apertou levemente o punho no cabelo dele, não o bastante para doer de verdade, mas o suficiente para lembrá-lo de quem mandava. - Então talvez a gente precise repensar esse trabalho.
O pânico subiu rápido pela espinha de Guillermo.
Guillermo_Não...
Mattheus_ Calma. - O alfa relaxou a mão, alisando o couro cabeludo dele com uma ternura quase doentia. - Eu não vou fazer nada, gatinho. Só tô dizendo que a gente precisa conversar. Certo?
Guillermo assentiu devagar, automático, sem acreditar numa palavra.
Porque ele sabia que aquilo não era uma conversa. Era um aviso.
E o pior: ele sabia que, quando saísse dali, ainda daria um jeito de arrumar a desculpa perfeita para justificar o chute na cadeira, o tom de voz, a ameaça velada. Porque era exatamente isso que fazia há meses. Modelava o próprio silêncio em forma de perdão, e chamava aquilo de amor.
A porta dos fundos rangeu ao abrir, e uma cabeça surgiu no vão, interrompendo a cena.
Matias_ Varela, cinco minutos pra entrada. O coreógrafo tá procurando você.
Era Matias, colega de palco e um dos poucos que não o tratava como peça descartável. O olhar do amigo varreu o ambiente rapidamente - a cadeira caída, a postura rígida de Guillermo, a proximidade de Mattheus - e algo endureceu em sua expressão. Mas ele não disse nada. Só assentiu e sumiu de novo, deixando a porta entreaberta.
Mattheus soltou um riso baixo, sem humor.
Mattheus_Sempre tem alguém pra te salvar, né?
Guillermo não respondeu. Sentia as pernas moles, o cheiro do alfa entranhado em suas roupas, na sua pele, como uma marca invisível.
Mattheus_ Vai. - Mattheus deu um tapa leve em seu traseiro, possessivo. - Não quero que se atrase. Depois a gente termina essa conversa.
O ômega passou por ele com passos contidos, mas o alfa o segurou pelo pulso antes que alcançasse a porta.
Mattheus_ E Gui?
Ele parou, o coração martelando.
Mattheus_ Volta pra casa logo depois do show. Direto. Sem barzinho com o pessoal, sem conversinha com ninguém. Entendido?
Guillermo assentiu de novo, sem olhar para trás.
E saiu.
O corredor tinha cheiro de maquiagem e tecido sintético. As luzes dos camarins vazavam pelas frestas das portas, e o burburinho do público chegava abafado, como um coração distante batendo atrás das cortinas. Guillermo encostou-se na parede por alguns segundos, fechando os olhos com força, tentando recuperar o ar.
Dentro de minutos, subiria ao palco. Colocaria o figurino, o sorriso, a máscara. Dançaria sob os holofotes como se o corpo não doesse, como se a mente não estivesse em frangalhos.
Porque era isso que ele fazia de melhor. Transformar dor em espetáculo.
E no escuro entre uma coxia e outra, enquanto ajustava o brilho no rosto diante do espelho, Guillermo se perguntava, não pela primeira vez, quanto tempo ainda aguentaria viver num número cujo final feliz nunca chegava.
