A chegada

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O outono tinha finalmente chegado.

Do lado de fora, as folhas alaranjadas das árvores cobriam o jardim, balançando lentamente com o vento frio que entrava pela janela entreaberta.

Lia estava deitada em sua cama, com as pernas cobertas por uma manta e um livro aberto entre as mãos. Era exatamente onde ela queria estar.

No quarto ao lado, porém, o silêncio estava longe de existir.

— Maya, você pode diminuir isso um pouco? — Lia gritou.

— Não!

A guitarra continuou.

Lia revirou os olhos e voltou para o livro.

Maya estava sentada no chão do próprio quarto, tentando aprender uma música nova na guitarra. O cabelo estava preso de qualquer jeito e havia uma quantidade considerável de roupas espalhadas pela cama.

As duas eram gêmeas.

E, apesar de terem o mesmo rosto, parecia que alguém tinha decidido colocar duas pessoas completamente diferentes dentro dele.

Lia gostava de silêncio, livros e de passar horas sozinha.

Maya gostava de música, festas, sair com os amigos e, principalmente, fazer exatamente aquilo que seus pais diziam para ela não fazer.

— LIA! MAYA!

As duas pararam ao mesmo tempo.

A voz da mãe veio do andar de baixo.

— Venham para a sala. Precisamos conversar com vocês.

Lia fechou o livro imediatamente.

Aquela frase nunca significava coisa boa.

Ela saiu do quarto e encontrou Maya no corredor.

— Você sabe o que é? — Lia perguntou.

— Se eu soubesse, não estaria perguntando.

— Você fez alguma coisa?

— Por que sempre acham que fui eu?

Lia apenas olhou para ela.

— Tá. Talvez eu tenha feito alguma coisa.

As duas desceram juntas.

Os pais estavam sentados no sofá da sala. O pai segurava as mãos juntas, enquanto a mãe parecia estar escolhendo cuidadosamente as palavras que iria usar.

— Sentem-se — ela pediu.

Lia sentou na ponta do sofá.

Maya se jogou ao lado dela.

— A gente queria conversar sobre vocês duas — o pai começou.

Maya soltou um suspiro.

— Lá vem.

— Maya...

— Tá bom, desculpa.

A mãe respirou fundo.

— Nós amamos vocês. E justamente por isso queremos ver vocês bem.

Lia abaixou os olhos.

— Eu estou bem.

— Lia, nós sabemos que você gosta de ficar no seu quarto, ler e ter o seu próprio espaço. Mas você quase não sai de casa. Você não tem muitos amigos e passa a maior parte do tempo sozinha.

— Eu gosto de ficar sozinha.

— Nós sabemos. Mas queremos que você tenha experiências novas. Que conheça pessoas. Que faça amizades. Que seja um pouco mais aberta.

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