Prólogo

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A despedida no aeroporto de Guarulhos foi exatamente como Endrick imaginou: abraços apertados, lágrimas mal contidas e promessas de videochamada todos os dias.

— Filho, não esquece de comer direito, hein? — Cínthia disse, segurando o rosto dele entre as mãos, como se ainda fosse um menino — E me manda a localização desse apartamento assim que chegar.

— Já mandei, mãe. Tá no seu WhatsApp. — Ele sorriu, beijando a testa dela.

Douglas foi mais contido na despedida. O aperto de mão que começou firme se dissolveu num abraço que apertou os ombros do filho com força demais para ser casual.

— Você conseguiu isso sozinho — A voz do pai saiu rouca, como se as palavras estivessem presas em algum lugar entre o orgulho e a saudade — Trabalhe duro, mas não esquece de viver também, filho.

Noah, o caçula, ainda não tinha idade para entender que despedidas doem. Para ele, a Europa era um parque de diversões onde o irmão mais velho ia encontrar heróis.

— Mano, você vai ver os jogadores do Barça! E o Lamine Yamal! — Ele quase pulou para fora do próprio corpo de tanta emoção — Me manda uma foto! Ou um autógrafo! Ou os dois!

Endrick riu, bagunçando o cabelo do garoto.

— Vou ver o que posso fazer. Mas, se eu chegar lá e começar a babar igual fã, vão me demitir no primeiro dia.

O aviso de embarque soou. Mais um abraço coletivo, mais um aperto no coração, e Endrick atravessou o vidro que separava a família do resto do mundo. Quando sentou na poltrona da janela, viu os três acenando da sala de embarque. Acenou de volta até não conseguir mais distinguir os rostos.

E, então, o avião decolou.

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A chegada em Barcelona foi um choque térmico e sensorial. O ar europeu tinha um cheiro diferente, mais seco, mais fresco. Endrick puxou a mala com uma mão e o celular com a outra, confirmando o endereço do apartamento que alugara duas semanas antes.

O trajeto de táxi foi silencioso, os olhos grudados na paisagem que passava veloz. Fazia quase 8 anos que ele não pisava na Europa. A última vez tinha sido quando voltou para o Brasil, depois de passar anos trabalhando como babá para uma família catalã enquanto juntava dinheiro para pagar a própria faculdade.

Na época, ele tinha 16 anos, morava com a família na Espanha. Estava no fim do ensino médio e já pensando em como faria para conseguir dinheiro. Foi quando uma oportunidade de trabalhar como babá de um menino de 7 anos surgiu. O pequeno no começo parecia não gostar muito de sua presença, mas depois que se aproximaram, eles não se largaram mais. E o alfinha sempre queria estar junto dele.

Endrick se lembrava do sorriso com dentes de leite, das corridas no parque, das noites em que lia histórias em espanhol com sotaque brasileiro até o menino pegar no sono.

Tinham se apegado de um jeito que nem ele esperava. Mas sua formatura chegou e o contrato acabou, Endrick e a família voltaram para o Brasil, e a vida seguiu. Eles trocaram algumas mensagens no primeiro ano, depois o contato se perdeu. Endrick sempre soube que o menino era talentoso no futebol, até porque ele mesmo o levava em seus treinos e estava presente em competições. Mas nunca imaginou que o garotinho que ele cuidava se tornaria exatamente o que Yamal se tornou.

Agora, ele voltava para a Europa. Mas como fisioterapeuta contratado por um dos maiores clubes do mundo.

O apartamento era pequeno, funcional e tinha uma janela que dava para uma rua arborizada. Longe de ser luxuoso, mas era dele. Pelo menos pelos próximos anos. Jogou a mala num canto, tomou um banho rápido e se jogou na cama.

O cansaço da viagem falou mais alto. Antes de dormir, ele ficou olhando para o teto, pensativo sobre como seriam as coisas de agora em diante.

Até que o sono o venceu e ele apagou.

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O sol da manhã seguinte entrou pela fresta da cortina como um despertador natural. Endrick acordou com o coração acelerado, não de susto, mas de ansiedade. Primeiro dia de trabalho.

Vestiu uma calça social azul-marinho, camisa branca impecável que ele mesmo passara na noite anterior. Arrumou o cabelo, que agora tinha apenas alguns cachos ainda em crescimento, deu uma olhada no espelho e murmurou:

— Vai dar certo.

O CT do Barcelona era exatamente o que ele imaginava: moderno, imponente, com gramados perfeitos e corredores que cheiravam a limpeza. Na recepção, uma moça loira atendeu com um sorriso profissional.

— Bom dia! Meu nome é Endrick Felipe, fisioterapeuta. Estou com contratação confirmada para o departamento médico.

Ela verificou no sistema e confirmou com um aceno.

— Sim, o senhor Santiago está esperando você. Vou avisá-lo.

Minutos depois, um homem de meia-idade, cabelo grisalho e aperto de mão firme apareceu.

— Endrick! Bem-vindo. Sou Santiago, chefe do departamento médico. Li seu currículo duas vezes, impressionante para alguém tão jovem. Vamos fazer um tour?

Endrick agradeceu e seguiu o homem corredor adentro. Passaram pela sala de avaliação, pela área de hidroterapia, pela sala de equipamentos e pelo consultório que seria dele.

— Aqui é sua base — Santiago bateu na porta de vidro — Tem computador, maca, equipamento para ajudar nos tratamentos e crioterapia. Se precisar de algo mais, é só pedir.

Conheceu outros dois fisioterapeutas. Ambos foram simpáticos, curiosos sobre o brasileiro que falava espanhol com sotaque carregado.

— Hoje tem treino tático — avisou Santiago — Os jogadores estão no campo. Quer dar uma olhada? Aproveitar pra ver o ambiente de trabalho de perto?

Endrick concordou.

Saíram pela porta dos fundos e a imagem que se abriu era de puro cinema. O gramado impecável, os cones coloridos dispostos pelo campo, os coletes vermelhos e azuis se movendo de forma organizada. E os jogadores, alguns rostos famosos ele reconhecia de jogos que assistia com o pai e o irmão.

Mas foi um em específico que fez Endrick parar no meio do caminho.

Lamine Yamal.

Ele era irreconhecível e, ao mesmo tempo, exatamente o mesmo. Cresceu, e muito. O rosto que Endrick lembrava de bochechas infantis agora tinha traços mais definidos, maxilar forte, olhos que já não eram de criança. O cabelo crespo, que ele tanto secava e arrumava depois do banho, agora estava mais comprido, preso para trás por uma faixa fina. A postura em campo era de quem já se tornava dono do jogo.

Endrick sentiu o ar escapar dos pulmões.

Lamine Yamal, a estrela do Barcelona, a joia da Espanha, era o mesmo garoto que ele colocava para dormir, que segurava a mão no parque, que ensinou a amarrar o cadarço do tênis.

O garoto que chamava ele de "Lipe" porque dizia que soava de um jeito muito maneiro.

O garoto que, na última noite de Endrick em Barcelona, chorou abraçado na perna dele e gritou "não vai embora" até a mãe ter que puxá-lo à força.

E que agora, ali, estava a poucos metros de distância, sem saber que Endrick estava observando.

Santiago falava alguma coisa sobre a estrutura do campo, mas Endrick não ouvia. Seus olhos estavam fixos no número 19, que se movia entre os cones com a leveza de quem nunca tinha sido aquele menino que sempre pedia para que ficasse com ele na cama até cair no sono.

E, de repente, como se sentisse o peso daquele olhar, Lamine Yamal parou. Virou a cabeça lentamente. Seus olhos encontraram os de Endrick.

O choque foi visível até de longe.

Lamine congelou. A bola que vinha em sua direção passou reto, e ele nem se moveu para pegá-la.

Endrick engoliu em seco.

Dali em diante, tinha certeza que a vida ainda tinha muitas surpresas para ele.

Conquistando o babáStories to obsess over. Discover now