Os Sons da Praga

33 4 4
                                        


Fétido.
Sujo.
Vivo.

Era apenas isso o que Ramree conseguia pensar.
O local estava escuro e viscoso, com pequenas criaturas indistintas rastejando por suas pernas, escondendo-se debaixo das roupas, escalando-o e desaparecendo sob sua pele com uma trilha gosmenta que quase fez Ramree vomitar.
- Nojo.
A palavra soou como um estrondo.
A água pulsou em ondas, removendo as criaturinhas das pernas do homem. – É o que sempre nutriram de você.
Ramree sentiu o corpo convulsionar.
A sensação agonizante apenas crescia.

Algo se movia dentro dele, indo das entranhas para a garganta.
- Posso lhe ajudar. – Algo começou a borbulhar ao seu redor, agitando os vermes. – Acabar com seu sofrimento.
Uma nuvem verde doentia surgiu do nada, irritando os olhos de Ramree até começar a chorar. – Mas tudo tem seu preço.
Ramree tossia como um doente.
Ergueu a cabeça, os olhos queimando, tentando discernir o que via a sua frente.
Algo deslizou em seus braços, emitindo um sibilar tenebroso. Um estalo de metal reverberou na distância e foi como se todos seus ossos estalassem ao mesmo tempo.
Sua coluna raspou e os filamentos de seus ossos se destacaram sobre a pele flácida.
Os parasitas começaram a cair mortos, explodindo em poças verdes fétidas. O ar ficou espesso, com uma chuva tóxica que vinha de lugar nenhum.
Ele estava se dissolvendo, tornando-se um com a mistura intragável.
- Mas acho que você nunca teve escolha.
Um brilho virulento surgiu debaixo de Ramree, revelando serpentes que dançavam a sua volta enquanto o picavam, derretiam e decompunham-se. E então repetiam.
Bordas começaram a se erguer a sua volta, enferrujadas e rachadas, e um calor sobrenatural tomou conta do local.
Gases subiram como torrentes de vapor.
E imediatamente ele soube.
"Veneno".
Ramree caiu de joelhos. Sua mente turvou, as memórias se fragmentando e fundindo umas nas outras. Um antro incompreensível de flashes desgovernados tomava conta de seu ser.
O som de metal raspando atingiu suas orelhas. A dor lancinante atrás dos olhos cresceu, assim como uma coceira maldita que urgia debaixo de sua pele.
Subindo. Remexendo. Rasgando.
Ele pôde sentir o próprio crânio se partindo.

A voz nas sombras ficou estranhamente quieta. Mas ele sentia a presença peçonhenta cada vez mais próxima.
- Nunca teve escolhas. – Disse uma larva ao sair de sua bochecha.
- Sem escolhas. – Completou a mariposa que voava ao seu lado, nascida de um ovo pestilento em suas costas.
Ramree abriu a boca em descrença, tentando gritar. Mas algo o impedia de o fazer.
A bile começou a se tornar uma só com a saliva, escorrendo pelas laterais dos lábios e sujando suas mãos.
Ferimentos surgiram por todo seu corpo, por onde os insetos e vermes saíam aos montes. A pele morta foi se unindo ao líquido ranhoso e a náusea aumentando.
Até que se tornou impossível de conter e Ramree vomitou outra vez.
Mas agora ele vomitava limo, pus e, para seu horror pessoal, parasitas.
Seus cabelos começaram a cair e ele viu sua feição distorcer para algo pavoroso.
O metal raspou mais uma vez, revelando as bordas do caldeirão em que se encontrava. O ar estava quente e úmido, pesado como um pântano.
E, ainda assim, paciente.
O espaço se iluminou de repente, revelando a grave cacofonia do enxame de moscas e das mariposas que obscureciam seus céus.
E, lá no alto, atrás de uma tenebrosa máscara de gás, com olhos praguejantes e putrefatos, o cozinheiro mexia lentamente a colher.
Uma enorme Runa brilhando em sua testa.
Os movimentos ritualísticos agitavam todo o caldeirão. Quanto mais mexia, mais os ingredientes saiam da pele do homem.
As gotas tóxicas eram os sucos das criaturas moribundas. As raspas venenosas, suas carcaças trituradas.
Tudo se misturando com uma calma poética. Como se não pudesse ser evitado mais.
O cozinheiro baixou o rosto e fungou, e gases explodiram dos respiradouros em seus ombros.
Ele ergueu a colher e removeu sua máscara, revelando apenas outro antro de pragas que rastejavam por debaixo de sua língua inchada.
Ramree sentiu o corpo relaxar.
Então, o cozinheiro provou do caldo pestilento.
E Ramree desapareceu na escuridão.
O céu da boca ficou viscoso e seus dentes caíram, e dos buracos novos vermes surgiam sem parar, até que, por fim, tivessem o infestado por inteiro.

E Ramree não conseguia mais culpar outro que não ele próprio.
Pois sabia que nada daquilo teria acontecido se não tivesse pego a maldita flauta. Se não tivesse cedido a curiosidade e tocado a partitura que a acompanhava.
Quando parou para pensar, não havia nada escrito que não uma Runa verde musgo que pulsava sem parar no pergaminho.
- Qual mesmo era o título? – Ele se perguntou.
- Os Sons da Praga.

You've reached the end of published parts.

⏰ Last updated: Aug 22 ⏰

Add this story to your Library to get notified about new parts!

Os Sons da PragaStories to obsess over. Discover now