Helena Luthor sempre soube que sua vida não lhe pertencia por completo.
Filha do meio de uma família que trata afeto como debilidade e obediência como moeda de troca, ela aprendeu cedo a ficar quieta, a baixar a cabeça e a não ocupar espaço demais...
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A batida na porta foi seca, e Lena levantou os olhos do caderno com um sobressalto. A leitura tinha deixado ela zonza, as letras embaralhadas na cabeça; passou a mão pelo rosto, tentando espantar o torpor, e respondeu sem ânimo:
— Pode entrar.
A porta rangeu só o bastante para Maria espiar a cabeça e falar num tom de quem já sabia que a notícia não era boa:
— Dona Helena, seus pais tão chamando a senhora lá no escritório. Parece que é coisa séria.
— Já vou, Maria. Brigada.
Lena fechou o bloco de notas com um cuidado quase cerimonioso – como se aquele gesto bobo pudesse protelar o que estava por vir. Levantou-se, ajeitou a blusa e foi. O corredor parecia mais comprido do que de costume, e o eco dos próprios passos no assoalho de madeira só aumentava a sensação de que cada metro a aproximava de uma armadilha. Na porta do escritório, ela parou, respirou fundo e só então girou a maçaneta.
A sala ampla a recebeu com o cheiro familiar de madeira escura e o peso dos móveis pesados. Lex já estava encostado na quina da mesa, braços cruzados, a cara fechada. Nora se encolhia na poltrona, roendo a unha do polegar sem nem perceber o que fazia. Lilian estava sentada ao lado da cadeira do marido, as mãos apertadas no colo, os dedos tão brancos quanto o vestido que usava.
Lionel nem esperou que ela se acomodasse. Jogou uma pasta grossa sobre a mesa de mogno, e o baque fez o cinzeiro pular.
— Agora que a trupe tá completa, vou direto ao ponto.
Lilian soltou um suspiro comprido e endireitou as costas, mas não disse nada.
— A L-Corp tá na merda há tempo – Lionel continuou, sem rodeio. – O Jeremiah vinha segurando a nossa barra, emprestando grana pra ver se a gente não afundava de vez. Mas o buraco já engoliu tudo o que a gente tem de patrimônio. Se não resolvermos isso agora, acabou. Ponto final.
Nora puxou o ar num soluço seco, e os olhos dela se arregalaram.
— Espera... a gente tá pobre? Pai, a gente vai parar na rua?
Lex se desencostou da mesa antes que o pai respondesse, e a voz dele saiu mais alta do que o normal.
— Vende um pedaço da empresa, pai. Vende a participação, demite metade do pessoal, corta produção. Mas para com esse teatro de solução em família que todo mundo já sabe onde isso vai dar.
— Você acha que eu não tentei vender, Alexander? – Lionel encarou o filho, e o tom subiu junto.
– Ninguém bota um centavo num barco furado sem querer sentar na cadeira do capitão. O Jeremiah só ajudou até agora por causa da amizade antiga, mas ele não é bobo. Ele quer garantia de que o dinheiro dele não vai virar fumaça.
Lena ficou quieta na cadeira. Sabia que as coisas na empresa estavam feias – o clima em casa vinha tenso há meses, com portas batendo e cochichos que paravam quando ela entrava. Mas a raiva no rosto de Lex mostrava que o buraco era bem mais fundo do que um empréstimo qualquer.
— Fala a real de uma vez, pai. Para de enrolar a gente – Lex apontou o dedo para a mesa. – A garantia é um casamento. Conta pra elas de uma vez a merda que você envolveu a gente em vez de ficar maquiando essa porcaria. E eu já falei e repito: comigo não tem conversa. Não vou me vender pra salvar a sua pele.
Lionel nem pestanejou. Desviou o olhar do filho e cravou os olhos verdes em Lena – os mesmos olhos que ela herdou, mas que nele pareciam duas moedas frias.
— A caçula deles, a Kara, tem a sua idade – ele disse, sem desviar o olhar. – O Jeremiah já deixou claro que a mais velha, a Alex, nem senta pra negociar isso. É dura na queda, igual o pai. Mas a Kara é diferente. O Jeremiah acha que, se a gente souber expor a situação direitinho, mostrar o quanto a nossa família precisa desse socorro... ela aceita.
O peito de Lena apertou. O ar sumiu. A cabeça começou a zumbir, e ela sentiu as mãos ficarem geladas.
— Você tá me usando como moeda de troca, pai? É isso?
Lionel baixou o tom e inclinou o corpo para frente, e a voz virou um murmúrio pesado, quase uma ameaça disfarçada.
— Eu tô pedindo pra você usar a cabeça. Não é pra você casar amanhã, Helena. É um compromisso formal. Você só precisa ser a menina sensata de sempre. Ficar na sua, ser educada, manter as aparências pra empresa não quebrar. Ou você prefere ver sua irmã mais nova saindo da escola, a gente vendendo até o sofá da sala pra pagar credor? Seu irmão já lavou as mãos e preferiu ver a família no buraco do que mover um dedo. Você vai fazer o mesmo?
Nora desabou num choro contido, enterrando o rosto vermelho nas mãos. O som daquele soluço fino bateu em Lena como um murro – como poderia dizer não quando a irmãzinha estava chorando por medo de perder tudo o que conhecia?
Lex bateu o punho na mesa, e os papéis voaram.
— Isso é ridículo! É doentio, pai!
— Alexander, chega – Lilian interrompeu, a voz baixa mas afiada.
— Chega nada, mãe. A Lena não é peça de xadrez pra ele mexer quando a conta não fecha.
Lex deu dois passos e se colocou na frente da irmã, como se pudesse protegê-la com o próprio corpo. Lionel nem se mexeu. Continuou encarando Lena, ignorando a explosão do filho como quem ignora uma mosca incômoda.
— Você não manda em nada na L-Corp, Alexander – Lionel disse, e a voz era gelada. – Eu mando. A Lena manda na vida dela. E eu tô fazendo uma pergunta pra ela.
O silêncio engrossou na sala. Dava para ouvir a chuva miúda começando a bater nos vidros do segundo andar. Lena olhou para o pai, frio e calculista, para a mãe, com o rosto contraído tentando segurar o choro, para o irmão, bufando de raiva com os punhos cerrados, e por fim para Nora, encolhidinha na poltrona, morrendo de medo de ver o mundinho deles desabar.
Lionel falou de novo, mais baixo ainda, quase só para ela.
— Você sempre foi a que entende as coisas. A mais sensata. A que não atrapalha. A que sabe quando é hora de ficar quieta e deixar os adultos resolverem. Eu preciso que você continue sendo essa menina. Quietinha, calada. Quem fala demais estraga o que ainda dá pra salvar. Tudo isso agora tá nas suas mãos, Helena. Na sua obediência. Se você fizer certo, a gente sobe de novo. Se você fizer besteira... a culpa não vai ser minha.
Lena sentiu o chão sumir debaixo dos pés. Não era só a proposta – era a forma como ele falava, como se a vida dela fosse um detalhe bobo, como se o direito de respirar alto tivesse sido revogado naquele instante. Ela tentou achar alguma resposta que não fosse um sim, mas a imagem de Nora chorando na poltrona travou qualquer palavra na garganta. O irmão já tinha se recusado. A mãe estava silenciosa demais. Sobrou ela.
Lena soltou o ar devagar, sentindo o peso do mundo despencar direto nas costas.
— Eu aceito – falou com o olhar fixo em Nora. – Se é isso que vai segurar a barra da família, eu aceito.
Lionel relaxou os ombros na hora, e a mandíbula dele afrouxou num sorriso que não chegou aos olhos.
— Perfeito. Era isso que eu precisava ouvir pra fechar o negócio.
Lex olhou para a irmã como se não acreditasse no que acabara de escutar. Deu um estalo com a língua, virou as costas e saiu do escritório pisando duro – a porta de madeira bateu com tanta força que os quadros na parede tremeram.
Lena ficou sentada, as mãos frias no colo. A chuva lá fora batia mais forte agora. Ela não chorou – não ia chorar na frente dos pais. Mas sentiu o silêncio crescer dentro do peito, ocupando o espaço que ainda restava de escolha.