Olá, me chamo Apollo Ferraz. Sou de uma família pobre e vivo em Sorriso, no Mato Grosso - a capital nacional do agronegócio. Sorriso é o maior produtor de soja do Brasil. A cidade transborda riqueza, mas essa grana toda não é igual para todo mundo. Moro no São Domingos, um bairro simples que nasceu de populações migrantes de baixa renda. Ficamos bem à margem da malha urbana planejada da cidade. Pelo menos é o que minha mãe costuma me dizer.
Do outro lado, existe o Centro-SuI: um bairro totalmente estruturado, onde vive a classe média alta. E dividindo tudo isso corre a BR-163. Ela é uma das rodovias mais importantes do país e funciona praticamente como a espinha dorsal da riqueza agrícola daqui. Ao longo dela, ficam as grandes mansões rurais, o tipo de sonho de consumo impossível de qualquer jovem que cresceu na periferia.
Todas as meninas do meu bairro sentem uma atração absurda pelo herdeiro do seu Antônio Monteverde. E pelo que percebo, sou o único menino que sente a mesma coisa por ele. Aquele olhar, aqueles braços... ele parece um Deus grego
Para vocês entenderem o peso desse nome, a história deles começou nos anos 1970. Antônio chegou ao Mato Grosso com uma caminhonete velha, dois bois magros e um sonho impossível. Acabou criando um império no coração do Cerrado. Na década de 80, ele conseguiu seus primeiros 300 hectares. Nos anos 90, as terras da família já dominavam milhares de hectares entre Sorriso e Sinop. A região virou o "Corredor dos Monteverde".
Hoje, eles têm fazendas gigantescas que parecem resorts, pistas de pouso particulares e contratos internacionais com a China, Estados Unidos e Oriente Médio. Eles têm influência na política, parceria com as maiores tradings globais e uma reserva ambiental do tamanho de um município inteiro - temida e respeitada internacionalmente. O nome deles virou uma marca intocável.
Seu Antônio teve três filhos e uma filha: Joaquim, Elias, Daniel e Sara. O mais velho é o Elias, aquele que sempre está posicionado à direita do pai.
Como eu disse, nosso bairro é muito precário. A única pessoa rica que estende a mão para ajudar a comunidade é o seu Antônio. Sou muito grato por isso. Se Deus não tivesse colocado esse homem no nosso caminho, garanto que estaríamos passando necessidade desde a hora que acordamos até a hora de dormir.
- Povo de São Domingos! - a voz imponente de Antônio ecoou pelo microfone no palanque improvisado. - Todos sabem que já estou numa idade avançada e quero descansar. Por isso, é com muito orgulho que apresento a vocês meu sucessor: Elias Monteverde.
O velho abraçou o filho mais velho. O público inteiro começou a bater palmas e a gritar o nome de Elias.
Ao final do discurso, as pessoas formaram uma fila para parabenizá-lo pela conquista daquele posto tão simbólico - o trono que pertencia ao lendário patriarca. Um por um, os moradores se despediam, desejavam boa sorte e faziam promessas de apoio. Eu esperava a minha vez em silêncio, com as mãos suando frio e o coração batendo rápido demais contra o peito.
Quando finalmente parei na frente dele, minhas palavras simplesmente falharam. Travaram de vez na garganta. Não importava o quanto eu forçasse a mente para falar algo educado, nada saía.
E foi aí que o Elias me olhou nos olhos.
Não foi o mesmo olhar focado e político que ele direcionou para os outros na fila. Ele me encarou como se alguma coisa no meu rosto tivesse interrompido o mundo ao redor dele. Seus olhos percorreram minhas feições com uma curiosidade quase reverente, concentrada, tentando entender algo que só ele conseguia enxergar.
Ele inclinou a cabeça de leve e deu dois passos na minha direção. Ficou perto o bastante para eu sentir o perfume dele misturado com aquele cheiro de terra molhada típico da região. Então, falou num tom baixo, íntimo, quase como um segredo trancado entre nós dois:
- Nossa... - ele sorriu, com uma ponta de incredulidade no rosto. - Você é surreal de lindo. Juro... eu nunca tinha visto uma beleza como a sua.
Por um segundo, todo o resto ficou distante. As conversas altas da comunidade, as risadas, os parabéns ao fundo - tudo se dissolveu como névoa. Só existiam aqueles olhos escuros como a noite, refletindo um brilho que eu nunca imaginei encontrar em alguém daquela classe.
Meu coração deu um salto tão violento que chegou a doer fisicamente.
E, pela primeira vez na vida, senti que aquele mundo gigante, rico e impossível de Sorriso tinha aberto uma fresta bem pequena na parede... apenas para eu passar.
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O último refúgio do sonho
Ficción GeneralREFÚGIO DO SONHO No coração de Sorriso, a capital nacional do agronegócio, corre a BR-163 - a espinha dorsal de um império bilionário e implacável. Duas realidades opostas se cruzam por causa de um olhar proibido. De um lado, o herdeiro direto do tr...
