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Vidas em Pistas Paralelas

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Ethan

A moto quase morreu na curva.
— Mas que droga...
Ethan deu um toque na embreagem e acelerou outra vez. O motor respondeu com um ronco alto, levantando uma nuvem de poeira atrás dele. Era agosto na Carolina do Norte, quente o bastante para fazer o capacete parecer um forno. Ele passou pela reta principal do circuito e limpou o barro dos óculos com a parte de trás da luva. Faltava só mais uma volta.

A rampa apareceu à sua frente.
Ethan acelerou.
Então, a moto deixou o chão.
Por dois segundos, a gravidade deixou de existir.

A moto pousou com um impacto seco.
— Boa! — alguém gritou perto da cerca.
Ethan sorriu sem nem olhar quem era. Gostava daquela sensação. Dois segundos no ar. Dois segundos em que ninguém esperava nada dele. Ajeitou o corpo, fez a curva deslizando e voltou a acelerar. Quando cruzou a linha de chegada improvisada, diminuiu a velocidade e ergueu os óculos de proteção.
Nem precisava olhar para saber quem o esperava.
— De novo.
Richard nem levantou os olhos do cronômetro.
Ethan soltou um suspiro.
— Um "parabéns, filho" também seria bom de ouvir de vez em quando.
O pai ignorou completamente o comentário.
— Você perdeu tempo na última rampa.
— A pista tá muito seca. Eu derrapei.
Richard ergueu os olhos pela primeira vez.
— E no dia da corrida ela vai pedir desculpas por isso?
Ethan desviou o olhar.
— Mais uma volta.
— Pai...
— Mais uma.
Ele queria responder. Dizer que já estava cansado, que os braços pareciam feitos de chumbo. Mas sabia que não adiantaria. Baixou os óculos de proteção outra vez, ligou a moto e voltou para a pista.
Quinze minutos depois, o motor finalmente se calou. Ethan desceu da moto devagar e tirou o capacete. O cabelo escuro estava grudado na testa, e o suor escorria pelo rosto. Richard conferiu o cronômetro antes de guardá-lo no bolso.
— Melhorou dois décimos.
Ethan pegou uma garrafa de água e bebeu quase metade de uma vez.
— Então valeu a pena.
— Ainda não é o suficiente.
Claro que não era.
Nunca era.
Enquanto empurrava a moto até a caçamba da caminhonete, Ethan passou a mão pelo banco coberto de poeira. Quando era criança, passava tardes inteiras montando pequenas pistas no quintal com pedaços de madeira e tijolos. Contava os dias para chegar o sábado e poder andar de moto. Agora só queria guardar tudo e ir embora. O pior era que nem sabia quando aquilo tinha mudado.
— Vamos.
A voz de Richard interrompeu seus pensamentos.
— Em casa a gente revisa a telemetria. E você ainda vai limpar a moto.
Ethan apenas assentiu, pegou o capacete e entrou na caminhonete. No rádio, uma música antiga começou a tocar. Richard mantinha os olhos fixos na estrada, enquanto Ethan observava a paisagem pela janela. Nenhum dos dois disse uma palavra durante todo o caminho. De alguma forma, aquele silêncio parecia mais pesado do que qualquer treino.

...

Emily

A quilômetros dali, o silêncio era absoluto.

O único som na Biblioteca Pública de Wilmington vinha do zumbido discreto do ar-condicionado e do virar ocasional de uma página. Emily caminhava devagar entre as estantes da seção de literatura clássica. Passava os dedos pelas lombadas dos livros, conferindo a ordem alfabética com uma precisão que já fazia parte da rotina. Usava um fone de ouvido em apenas uma orelha. Um violão suave preenchia o silêncio sem realmente interrompê-lo. Organizar livros não era o emprego dos sonhos de ninguém. Para Emily, porém, era perfeito. Ali, ninguém esperava que ela fosse divertida, popular ou interessante. Bastava devolver cada livro ao seu lugar e aproveitar a paz que existia entre uma prateleira e outra. Ela parou diante de um exemplar gasto de O Morro dos Ventos Uivantes. Retirou o livro da estante e o abriu em uma página qualquer.

"Se tudo o mais perecesse e ele permanecesse, eu continuaria a existir; e se tudo o mais permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo se tornaria um imenso estranho para mim."

Emily deu um sorriso de leve. Às vezes, era estranho pensar que personagens fictícios viviam paixões tão intensas enquanto sua própria vida parecia seguir sempre igual. Não que Wilmington não fosse bonita, mas Emily tinha a impressão de que a cidade era pequena demais para seus sonhos. As pessoas pareciam nascer ali, crescer, assumir os negócios da família e permanecer ali pelo resto da vida. Ela não sabia exatamente o que queria para o futuro. Só tinha certeza de uma coisa. Não queria que sua história terminasse naquele mesmo lugar. A mãe de Emily, por exemplo, passava mais tempo no hospital do que em casa. Os plantões dobrados eram frequentes, mas mesmo cansada, nunca deixava de perguntar como tinha sido o dia da filha. Emily a admirava mais do que qualquer pessoa. Talvez fosse justamente por isso que sentia tanto medo de seguir o mesmo caminho. Ela queria uma vida diferente. Não necessariamente mais fácil, mas uma que tivesse sido escolhida por ela.

— Tudo em ordem por aqui, Emily?

A voz da Sra. Higgins interrompeu seus pensamentos. A bibliotecária surgiu no fim do corredor, equilibrando uma pilha de livros nos braços. Os óculos pendurados por uma corrente de contas coloridas balançavam a cada passo. Emily fechou o exemplar que tinha nas mãos e o devolveu cuidadosamente à estante.

— Sim. Estou terminando esta seção.

A senhora lançou um olhar satisfeito para as prateleiras impecavelmente organizadas.

— Eu sabia que encontraria tudo no lugar.

Emily sorriu, discreta.

— Sabe, você é a melhor assistente que já passou por esta biblioteca.

Ela abaixou os olhos, um pouco sem jeito.

— Acho que só gosto de deixar as coisas organizadas.

A Sra. Higgins sorriu  — Gosta de organizar... e de estudar.

—  Deveria descansar um pouco os olhos. Não a vejo
fazer outra coisa além de ler e estudar desde que começou aqui.

— O descanso pode esperar até a formatura.
Emily sorriu. — As provas finais estão chegando, e o comitê de bolsas da universidade não é exatamente conhecido por pegar leve.

A Sra. Higgins riu baixinho, balançando a cabeça.
— Boston. Bem longe desse calor úmido daqui. Continue assim e você chega onde quiser, querida.

Quando o turno terminou, Emily atravessou o calçadão de madeira às margens do rio Cape Fear. O sol já começava a se pôr, pintando a água com tons de laranja e dourado. Alguns barcos balançavam devagar com a maré, enquanto uma brisa finalmente amenizava o calor do fim da tarde.
Ela sempre gostava daquele caminho de volta para casa.

Assim que entrou, encontrou os pais na cozinha.
— Eai, pombinhos.
A mãe foi a primeira a abraçá-la.
— Oi querida, como foi o trabalho?
— Movimentado. Mas sobrevivi a mais um cliente tentando doar livros de Enciclopédia.
— Então estamos no lucro. — o pai brincou, arrancando um sorriso dela.
Os três se sentaram para tomar café. Enquanto comiam um pedaço de bolo de milho que a mãe havia feito naquela manhã, ouviram as histórias do dia. A mãe contou sobre um paciente que insistiu em dizer que sabia mais do que qualquer médico. O pai, corretor de imóveis, comemorou a venda de uma casa para um casal que procurava o primeiro lar havia meses.
Emily riu das imitações da mãe e ouviu o pai contar cada detalhe da negociação, mesmo sabendo que ele sempre exagerava um pouco quando estava animado.
Depois de ajudar a tirar a mesa, subiu para o quarto.
Fechou a porta, pegou o violão que descansava ao lado da escrivaninha e se sentou perto da janela.
Aquele era o único lugar onde ela não precisava impressionar ninguém.
Só seus pais sabiam que, sempre que o mundo ficava barulhento demais, ela se refugiava na música.
Respirou fundo, dedilhou os primeiros acordes e começou a cantar.
Ali, ela se sentia exatamente quem era.

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⏰ Last updated: Aug 06 ⏰

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