Eu me chamo Dante Cole.
Reaper, pra quem me conhece de verdade.
Dois dias antes de tudo começar de verdade, a gente tava reunido na sala de briefing do posto avançado 17, aquele lugar fedido de concreto e ferro enferrujado que o comando ainda teima em chamar de base. A luz amarelada piscava de vez em quando, e o cheiro de óleo queimado e suor antigo não saía daquelas paredes por nada.
O Coronel Elias Reyes - Iron pra gente - tava em pé na frente da mesa de metal, com um mapa rasgado e cheio de anotações espalhado em cima. O Kael estava encostado na parede, braços cruzados, silencioso como sempre. A Lena ficava do meu lado, os dedos tamborilando disfarçadamente na bainha da faca. O Marcus, o Tank, estava sentado com os cotovelos nos joelhos, prestando atenção em cada palavra.
O Coronel limpou a garganta e começou:
- Escutem com atenção, porque não vou repetir. A missão é simples na teoria e uma merda na prática. Vocês vão pra uma ilha que não existe em nenhum mapa oficial. Coordenadas que só uns poucos no alto comando conhecem. O objetivo é localizar e extrair o Rubi-Laranja. Um cristal que, segundo os relatórios antigos, tem capacidade de regeneração ambiental em escala massiva. Se for real, pode ser a única chance que a humanidade tem de reverter parte do estrago do Colapso.
Ele apontou pro mapa.
- A inserção será noturna. Barco leve até a costa oeste da ilha. A partir daí, deslocamento a pé. Estimativa de três a quatro dias de marcha até o ponto marcado. Extração prevista no mesmo local da inserção, setenta e duas horas depois do contato inicial com o objetivo. Sem reforços. Sem segunda chance. Se der merda, vocês se viram.
Eu cruzei os braços e falei:
- Coronel... o que a gente deve esperar lá? Além do cristal. Tem informação de hostis? Terreno? Alguma coisa viva?
O Coronel ficou em silêncio por uns segundos, olhando o mapa como se a resposta estivesse escondida nas dobras do papel.
- Informação oficial é escassa. A ilha foi isolada logo depois do Colapso. Os poucos drones que tentaram sobrevoar voltaram com imagens distorcidas ou não voltaram. O que eu sei... o que eu realmente sei... é que existem tribos. Pessoas. Ou o que sobrou de pessoas.
Ele ergueu o olhar e encarou a gente, um por um.
- Mutados. Estranhamente altos. Corpos magros, quase esqueléticos, mas fortes pra caralho. Relatos antigos falam que eles se movem rápido demais pro tamanho que têm. Alguns usam ossos e madeira como arma. Outros... outros parece que nem precisam de arma. Não se sabe quantos são. Não se sabe se são hostis de cara ou se só reagem quando invadem o território. Mas uma coisa é certa: eles estão lá. E não gostam de visitas.
A Lena resmungou baixo:
- Ótimo. Gigantes magros e putos.
O Marcus soltou um riso seco.
- Pelo menos não vai ser só árvore e pedra.
O Coronel não sorriu.
- Vocês são o Esquadrão Cinzas Negras. Eu escolhi cada um de vocês por um motivo. Não me façam me arrepender. Qualquer dúvida real, falem agora. Depois que a gente embarcar, só existe a missão.
Ninguém falou mais nada por um tempo.
Eu olhei de canto pro rosto da Lena. Ela tava séria, mas quando nossos olhos se encontraram por meio segundo, ela deu aquele leve movimento de cabeça que só eu entendia. A gente ia voltar. Os dois.
Pelo menos era o que a gente queria acreditar.
O Coronel enrolou o mapa.
- Preparação começa agora. Armas, munição, ração, equipamento de sobrevivência. Em quarenta e oito horas a gente parte. Dismissed.
A gente se levantou. O Kael foi o primeiro a sair, silencioso. O Marcus bateu no meu ombro de leve ao passar. A Lena ficou meio segundo a mais do meu lado antes de seguir.
Eu fui o último a sair da sala.
Dois dias.
Só dois dias até a gente descobrir se o Rubi-Laranja era salvação...
ou só mais uma mentira bonita num mundo que já tava morto.
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Eu me chamo Marcus Voss.
As pessoas me chamam de Tank.
Tenho vinte e dois anos e nunca vi o mundo do jeito que ele era antes. Ninguém da minha geração viu. A gente só conhece o que sobrou.
Meu irmão mais velho, o Kael, costuma dizer que a gente nasceu no funeral do planeta. Eu acho que ele tá certo.
Tudo começou décadas antes de eu existir. Os velhos chamam aquilo de Grande Colapso. Eu chamo de o dia em que a Terra cuspiu a gente pra fora.
Primeiro vieram as guerras. Não aquelas guerras antigas de bandeira e hino. Foram guerras por água, por terra limpa, por o que ainda restava de comida de verdade. Nações inteiras se digladiaram até não sobrar quase nada. Depois vieram as pragas. Doenças que se espalharam rápido demais, mutando, matando milhões em semanas. E por cima de tudo isso, o clima enlouqueceu. Tempestades que duravam meses, secas que transformavam florestas em deserto, o nível do mar subindo e engolindo cidades inteiras.
Mas o pior não foi nada disso.
O pior foi o que a humanidade fez quando percebeu que tava perdendo.
Eles tentaram consertar. Criaram máquinas gigantes, bombas químicas, experimentos que deveriam "limpar" a atmosfera e regenerar o solo. Só que deu errado. Muito errado. Uma dessas experiências saiu do controle numa região que hoje a gente só conhece como a Cicatriz. O céu ficou laranja por meses. A terra começou a apodrecer. Florestas inteiras se transformaram em cinza preta em questão de dias. E o pior: alguma coisa acordou embaixo da terra. Ninguém sabe exatamente o que. Só que a partir daquele dia, o planeta parou de ser só um lugar hostil... e passou a ser um lugar que queria a gente morto.
Hoje, décadas depois, o mundo é isso: pedaços de terra ainda habitáveis, cidades em ruínas, oceanos venenosos e zonas inteiras onde ninguém entra e volta vivo. A humanidade se agarrou no que sobrou como um bicho encurralado. Governos se transformaram em comandos militares. Crianças cresceram aprendendo a atirar antes de aprender a ler. E a gente... a gente virou o que restou de esperança, ou o que restou de desespero. Depende do dia.
Eu e o Kael nascemos numa das últimas zonas seguras do continente. Nossa mãe morreu no meu parto. O Kael tinha só dois anos. Nosso pai foi consumido por uma daquelas pragas quando eu ainda tinha sete. A gente cresceu na raça. Roubando, brigando, sobrevivendo. Até que o Coronel Reyes nos encontrou. Ele viu alguma coisa em nós dois. Me colocou num treinamento de inferno. O Kael... o Kael já nasceu pronto pra guerra. Eu só precisei acompanhar.
Hoje fazemos parte do Esquadrão Cinzas Negras.
Cinco pessoas.
Uma missão.
Dizem que existe uma ilha no meio do oceano morto. Uma ilha que não aparece em nenhum mapa antigo. E no centro dela, escondido, tem um cristal... o Rubi-Laranja. Alegam que ele tem o poder de reverter parte do estrago. De fazer a terra voltar a respirar. De dar à humanidade uma segunda chance.
Eu não acredito em segunda chance.
Mas o Coronel acredita.
O Kael não fala o que pensa.
A Lena só aperta a faca com mais força quando o assunto aparece.
E o Dante... o Dante só quer que a gente volte vivo.
Agora a gente tá a caminho dessa ilha.
O mar tá preto. O céu tá pesado.
E alguma coisa no meu peito me diz que a gente não vai encontrar só um cristal lá.
A gente vai encontrar o motivo pelo qual o planeta morreu de verdade.
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Cinzas Negras
AcciónDepois que o mundo queimou, sobrou pouco. O Esquadrão Cinzas Negras é enviado para uma ilha que não existe em nenhum mapa. O objetivo: encontrar o Rubi-Laranja, um cristal que pode ser a última esperança de regenerar o que restou do planeta. Mas a i...
