Eu me lembro como se fosse ontem, a chuva caía com força sobre o telhado da casa, as goteiras pingavam como se fosse uma sinfonia, penetrando os ouvidos com uma melodia simples, mas completa. O vento balançava as copas das árvores, resultando em galhos arranhando a janela de meu quarto. A insônia havia sido minha grande companheira daquela noite solitária. A luz da lua penetrava por entre as frestas da cortina de tom levemente bege, contudo que permitia que tudo transparecesse. A noite era fria, vazia. Eis que, cansada de ficar deitada, levanto-me de minha cama, quente e confortável, colocando os pés sobre o piso gelado de madeira. As tábuas rangiam enquanto caminhava em direção à janela. O frio escalava subindo de meus pés nus até minha cabeça, gerando arrepios por toda minha pele. Ao abrir a cortina, lembro de ver primeiro as árvores dançando ao luar. Meu quarto se localiza no segundo andar de nossa casa, então eu tinha uma visão ampla da região. Abri a janela e deixei a chuva me molhar, juntamente com o vento que gelava minha espinha. Os sons da natureza se fudiam com um som distante, algo como uma sirene, que me puxava de volta para a realidade:
- Eleonor? Você está bem, meu anjo? Não tocou no café da manhã... - Minha mãe me questiona.
- Estou bem, mãe. Só estou meio cansada. - Digo enquanto olho aos meus arredores, procurando a sirene que me tirou de meus devaneios.
- Bom dia, hoje estamos com mais notícias sobre o caso do adolescente desaparecido... - Ela abaixa o som da televisão a cabo para que eu não escute. O jornalista continua falando, com sua boca abrindo e fechando, sem som saindo. É como se fosse uma alma acorrentada, gritando por ajuda. A sirene deveria ser das gravações perseguitivas.
- Você não irá à escola hoje, Eleonor. - Minha mãe continua.
- Posso saber o motivo, ou vai esconder de mim assim como a notícia do adolescente desaparecido? - Falo colocando um pão na boca.
- Que mal educada mocinha! - Ela começa a se irritar.
- Bem, considerando que quem me educa é você - faço uma pausa para morder e engolir um pedaço de pão - Quem está fazendo um trabalho ruim é você.
- Quanta audácia! Inaceitável! - Grita comigo, enquanto mastigo o pão cautelosamente. Ela inspira fundo para se acalmar, volta-se em minha direção novamente - Você não vai e ponto final.
- Não pode me manter enfurnada em um casebre pelo resto da vida por causa de um desaparecimento, eu tenho que estudar! - Levanto a voz, afinal já acabei meu café, se tiver que ficar trancada em meu quarto não passarei fome pelo menos. - Isso não é nada justo, ainda mais agora! Se não nos esforçarmos pelo mínimo, logo logo você não vai conseguir sustentar nem essa parafernalha aí atrás - Completo apontando para a televisão, seu mimo.
- CHEGA ELEONOR, PARA O SEU QUARTO - Ela grita como já era esperado. - E VÊ SE FAZ ALGO ÚTIL! PASSA O DIA FALANDO EM FUTILIDADES POLÍTICAS! SOMOS MADAMES!
- MAS DEVERÍAMOS PODER FAZER O QUE QUISERMOS, AFINAL TEMOS CÉREBRO - Grito rebatendo-a enquanto subo batendo os pés contra o piso. Forçar minha perna assim para fazer drama faz meus pés doerem.
Ao pisar em meu quarto e bater a porta com força, me tranco do lado de dentro, garantindo paz pelas próximas horas. A primeira coisa que vejo ao entrar é a janela aberta, a cortina balançando junto ao vento que penetra. A brisa é confortável, gélida, mas abraça a dor. Transpassando a janela aberta é possível ver a copa das árvores. Noto que elas não tocam umas nas outras, mantém certa distância.
"Queria que minha mãe respeitasse meu espaço tanto quanto as árvores respeitam o espaço uma das outras..."
Me aproximo da janela para olhar do lado de fora. O céu está escuro, parece que vai chover. A chuva limpa tudo, lágrimas, tristeza, vida. Sinto água escorrer pela minha bochecha esquerda, mas não é chuva.
"Às vezes, é mais fácil pensar que tudo vai se acertar sem pensar... mesmo que eu saiba que ela não vai ouvir, acho que eu devia procurar a liberdade. Fugir da realidade não me levará a lugar algum. Eu poderia optar por... fugir dela?"
Os questionamentos me invadem, me fazendo indagar sobre fugir de casa. Seria possível viver sem minha mãe? Seria possível encontrar a liberdade longe daqui? Ou então estarei fugindo mais ainda da sociedade?
". . ."
Acredito que deveria buscar a liberdade, onde quer que ela esteja. Saio da janela com este pensamento dominando minhas decisões. Sinto minha racionalidade se esvaindo com a decisão de fugir, mas me sinto feliz com a ideia de buscar autonomia. Arrumo as malas colocando algumas trocas de roupa, uma lanterna, meu estoque secreto de alimentos, papel, caneta e envelopes. Pego também uma caixa de fósforo, minhas economias e um kit de primeiros socorros básico. Para completar pego um livro e uma tesoura de costura. Para não carregar uma mala muito grande, ponho tudo em uma bolsa de ombro que para ao lado de minha coxa.
"Se eu descer a escadaria, posso me encontrar com ela..."
Olho novamente para a janela. Já sei para onde vou. Não sou mais uma submissa sem rumo. Vou em busca da liberdade, e não pretendo voltar até achá-la.
YOU ARE READING
Liberdade não tem limites
RomanceUm romance na floresta, na batalha pela liberdade em um regime rígido
