O mar Adriático estava calmo como um espelho sob o luar, refletindo a grandiosidade imponente do Atlantis Vanguard. Com seus quatorze andares de puro luxo, o navio de cruzeiro mais moderno da frota internacional era uma verdadeira cidade flutuante. Por trás de suas fachadas de vidro fumê e das luzes douradas que iluminavam os conveses superiores, o transatlântico abrigava piscinas de borda infinita, teatros dignos da Broadway, cassinos cintilantes e um labirinto subterrâneo de corredores de serviço onde a verdadeira vida da tripulação acontecia, longe dos olhos dos quinhentos passageiros bilionários.
Mas dentro da ponte de comando, a tensão cortava o ar de forma bem diferente. A capitã Regina Montenegro mantinha a postura impecável: ombros retos, maxilar travado e o olhar fixo no horizonte. Para todos a bordo, ela era a personificação da inalcançável lei do mar.
Bastou, porém, o seu turno terminar e a pesada porta de sua cabine privativa se fechar para que a armadura desabasse.
— Você demorou hoje, Capitã — a voz suave, carregada de uma familiaridade proibida, veio da penumbra.
Sentada na borda da cama, balançando os pés descalços, Mila sorria com aquele ar de quem conhecia todos os segredos do Atlantis Vanguard — inclusive o maior ponto fraco da mulher mais poderosa dele. Enquanto os dedos hábeis da bartender traçavam círculos lentos na pele do braço de Regina, a capitã fechou os olhos, respirando fundo o perfume cítrico que sempre a entorpecia. Era um segredo perigoso, mantido longe de qualquer testemunha, nascido do calor dos bastidores. Um segredo que Regina achava que sabia controlar perfeitamente.
A penumbra da cabine privativa engolia o som distante das ondas batendo contra o casco de aço do Atlantis Vanguard. Ali, longe da ponte de comando e do olhar julgador de quinhentos passageiros, a capitã irrepreensível deixava de existir.
O que sobrava era a urgência.
Assim que a porta se trancou, a distância fria que Regina mantinha com o mundo evaporou. Ela puxou Mila pela cintura com uma força possessiva, colando o corpo da bartender contra o seu antes mesmo de conseguir se livrar dos ombros pesados da farda. O beijo não teve nada de gentil; foi faminto, carregado pelas horas de contenção que Regina precisava manter no convés.
Mila soltou um suspiro abafado contra os lábios da capitã, um som que se perdeu quando as mãos ágeis da mais jovem cravaram os dedos na gola da camisa de Regina, puxando-a para mais perto, como se quisessem fundir as duas peles.
Entre elas, o sexo nunca foi um passatempo calmo. Era cru, elétrico e carregado de uma dinâmica de poder sutil e inebriante. Para Regina, entregar-se a Mila nos porões daquela autoridade toda era o único jeito de esvaziar a mente da pressão do oceano. Para Mila, provocar Regina até o limite do autocontrole era a única forma de lembrá-la de que, por mais poderosa que fosse a capitã do navio, naquelas quatro paredes quem ditava as regras era o fogo entre elas.
Mila recuou um passo, os olhos escuros brilhando com um desafio brincalhão enquanto desabotoava lentamente o primeiro botão da blusa de Regina.
— Tão rígida lá fora, Capitã... — sussurrou a bartender, a voz rouca, arrastando as sílabas enquanto sua respiração quente batia na pele do pescoço de Regina. — Mas aqui dentro, você treme só de eu olhar.
Regina soltou um som gutural, meio aviso, meio rendição, antes de inverter os papéis. Com um empurrão suave, porém firme, ela prensou Mila contra a madeira fria do armário, tomando-lhe a boca de novo com uma voracidade que fez o mundo lá fora deixar de existir. Os dedos de Regina deslizaram pelos cabelos macios de Mila, puxando-os levemente para trás para expor o pescoço da jovem, onde cravou os lábios com dentes afiados, arrancando um arquejo trêmulo da bartender.
O toque delas era uma dança perigosa de contrastes: a farda desabotoada e jogada no chão, os lençóis amassados com violência pelas mãos que horas antes comandavam um colosso de aço, e a certeza sussurrada no escuro de que aquele segredo era grande demais para caber por muito tempo em um navio tão pequeno.
Horas depois, com o corpo de Mila adormecido levemente sobre seu peito e o som rítmico do ar-condicionado da cabine preenchendo o silêncio, Regina encarou o teto escuro. O corpo ainda trazia vestígios daquela intensidade, mas a mente, pela primeira vez na noite, começou a divagar. Ela pensou na longa viagem que mal havia começado, na responsabilidade pesando sobre seus ombros... e, por algum motivo inexplicável, nos relatórios da nova ala médica que precisaria assinar na manhã seguinte.
O quarto estava imerso em uma penumbra azulada, cortada apenas pela luz fraca do painel de controle que piscava baixinho no canto da cabine e pelas ondas que refletiam o luar contra a escotilha.
Mila traçava círculos lentos e distraídos com a ponta do dedo indicador sobre a pele firme do peito de Regina. O ritmo dos batimentos cardíacos da capitã sob sua mão estava voltando ao normal, mas o ar ainda carregava o calor denso daquela entrega.
— Você estava tensa hoje na hora do jantar, Regina — murmurou Mila, a voz baixa quebrando o silêncio confortável. Ela não tirava os olhos do teto, mas o tom continha uma ponta de cobrança velada. — Eu vi você cruzando o salão principal. Nem olhou na minha direção quando passei com a bandeja.
Regina soltou um suspiro longo, sentindo o peso do mundo voltar a se acumular em seus ombros. Ela virou o rosto no travesseiro para fitar o perfil de Mila, iluminado tenuemente.
— Meu trabalho não é um desfile, Mila. Quinhentos passageiros de alto padrão pagam uma fortuna para ter certeza de que eu não vou desviar o navio para um recife. Qualquer deslize, qualquer troca de olhar fora do tom... a companhia é implacável. Você sabe como funciona — respondeu a capitã, a voz séria, embora seus dedos tenham feito um carinho involuntário na curva da cintura da mais jovem.
Mila parou de traçar os círculos e apoiou o queixo no peito de Regina, encarando-a diretamente, com aqueles olhos castanhos que pareciam ver através de qualquer armadura.
— Sempre o navio. Sempre a companhia. Sempre o medo do que os outros vão pensar — retrucou Mila, sem acidez, mas com uma franqueza que cortava fundo. Ela sorriu de canto, um sorriso triste que não combinava com a garota vibrante do bar. — Às vezes, parece que eu sou só um segredo conveniente que você guarda no porão, Capitã. Alguém com quem você desconta toda a pressão da sua farda quando a porta tranca.
As palavras atingiram Regina como um golpe físico. Ela se ajeitou na cama, apoiando o cotovelo no colchão para olhar de cima para a bartender, o cenho franzido em uma mistura de culpa e defensiva.
— Não diga isso. Sabe que não é verdade — a voz de Regina saiu mais áspera do que pretendia, um reflexo do instinto de proteção. Ela segurou o rosto de Mila com a palma da mão, forçando-a a manter o contato visual. — O que a gente tem... o que eu sinto por você aqui dentro é real. Mais real do que qualquer coisa naquela ponte de comando. Mas o mundo lá fora não perdoa mulheres como nós, Mila. Principalmente no meu cargo. Eu ralei demais, sacrifiquei demais para chegar onde cheguei.
Mila fechou os olhos por um segundo, aproveitando o calor da mão de Regina em sua bochecha, antes de cobrir os dedos da capitã com os seus, afastando levemente a mão — não com raiva, mas com um cansaço sutil.
— Eu não quero que você sacrifique sua carreira, Regina. Eu só queria... que você não tivesse vergonha de mim quando o sol nascer — sussurrou a bartender, virando o rosto para beijar a palma da mão de Regina antes de se afastar um pouco, deitando-se ao seu lado na cama e puxando o lençol até o peito.
Regina ficou em silêncio, o estômago apertado por um nó que nenhuma manobra de navegação conseguiria desatar. Ela esticou o braço, puxando Mila de volta para o abraço, encaixando a cabeça da mais jovem em seu ombro. Mila cedeu, colando o corpo ao dela, mas a leve distância invisível que acabara de nascer entre elas permaneceu ali, pairando no escuro da cabine.
Enquanto o Atlantis Vanguard cortava as águas silenciosas da madrugada rumo ao próximo destino, Regina fechou os olhos, sem saber que, a poucas horas dali, o sol traria respostas — e complicações — que ela jamais estaria preparada para gerenciar.
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Rota de Colisão
General FictionO mar Adriático estava calmo como um espelho sob o luar, mas dentro do Atlantis Vanguard, a tensão cortava o ar. Do alto da ponte de comando, a capitã Regina Montenegro mantinha a postura impecável: ombros retos, maxilar travado e o olhar fixo no ho...
