Mesa vinte e um

31 2 0
                                        

— Daniela!

Fechei os olhos por um segundo antes de terminar de empurrar a porta do restaurante. Olhei para o relógio preso na parede. Eu estava terrivelmente atrasada. Droga.
Respirei fundo. Sorri do jeito mais inocente que consegui.

— Foram só sete minutos.

O senhor Hernández ergueu uma sobrancelha.
— Foram oito minutos e 24 segundos

— O senhor contou até os segundos?

— Está atrasada e ainda faz piada? Não tem medo de eu te demitir?

Cruzei os braços ainda próxima da porta
— Se o senhor me demitir... quem é que vai fazer as melhores tortillas deste restaurante?

Ele tentou manter a cara fechada. Tentou. Cinco segundos depois estava rindo e eu pude finalmente relaxar os braços e continuar a caminhar até a cozinha.

O senhor Hernández era um espanhol baixinho, barrigudo e dono do restaurante daquela rua de Madri. O lugar ficava a poucos metros da universidade UCM, então era impossível encontrar uma mesa vazia nos horários de almoço. E também na rua de trás do estádio El Bernabéu, então nas noites, principalmente quando os estudantes resolviam emendar uma cerveja depois da aula ou quando tinha jogo clássico do campeonato, aquilo deixava de ser um restaurante acolhedor para virar um verdadeiro campo de batalha.

— Você é folgada demais pro meu gosto. Mas as tortillas continuam sendo as melhores. Isso porque fui eu quem te ensinou. Então metade do mérito ainda é meu — dizia ainda seu Hernandez ao me ver passar por ele

Eu ri

— Vai lavar esse rosto logo. Hoje tem jogo do Barça. Isso aqui vai virar um pandemônio em duas horas.

Fiz continência.
— Sim, senhor.

Ri baixinho e entrei no banheiro. Fechei a porta atrás de mim. Apoiei as mãos na pia. Meu reflexo me encarou com a mesma expressão cansada de sempre.
Olheiras. Cabelo preso de qualquer jeito. Um corretivo claramente vencendo a batalha contra quatro horas de sono. Abri a torneira. A água gelada bateu no meu rosto.
Melhor. Muito melhor.

— Olá pra você também — murmurei para o espelho.

Aliás... Já que estamos nos conhecendo...
Meu nome é Daniela Sampaio. Tenho vinte e cinco anos e vim morar em Madrid a dois anos, mas não precisa ficar com inveja. Antes, que você imagine uma vida digna daqueles intercâmbios perfeitos que aparecem no Instagram... Não.

Eu não passo os fins de semana tomando vinho em minha varanda com vista panorâmica. Nem passeio pelas ruas daqui usando aquelas boinas, carregando uma bolsa da Balanciaga e fingindo que minha maior preocupação é escolher qual café bonito vou conhecer.

Na verdade... Se eu conseguir dormir cinco horas seguidas, já considero férias. Porque sobreviver aqui até que é simples. Ridiculamente simples. Você só precisa de três coisas: dois empregos, e uma leve disposição para vender a alma para el diablo.

Do outro lado da porta vieram duas batidas.
— Sampaio! Adianta aí! Estamos precisando de uma mãozinha no salão, se você não se importar...

Era o Pablo.
— A Morgana e o Petterson não vieram hoje. A Jolie está passando mal, sabe como é essas coisas de mulher grávida né? Então só estará eu e você para o atendimento

— Já estou indo!

Nossa que delícia de dia me parece que será hoje.
Peguei um elástico. Refiz o coque. Respirei fundo. Hora do segundo round.

 Hora do segundo round

Oops! This image does not follow our content guidelines. To continue publishing, please remove it or upload a different image.
Apito finalStories to obsess over. Discover now