Capítulo 1 —
"Algumas pessoas passam pela nossa vida como um inverno. Outras chegam tão silenciosamente que só percebemos sua importância quando já fazem parte de todas as nossas lembranças."
Londres despertava devagar.
Não importava a estação do ano, a cidade parecia carregar um céu cinzento como parte de sua própria identidade. As primeiras gotas de chuva deslizavam pelos telhados das casas geminadas enquanto o relógio marcava seis e vinte e três da manhã.
Dentro de um pequeno quarto no segundo andar de uma casa antiga, Edward Collins já estava acordado.
Na verdade, ele mal havia dormido.
Passara boa parte da noite olhando para o teto, ouvindo a chuva bater contra a janela e imaginando como seria voltar para aquela escola.
Segundo ano.
Um novo começo.
As pessoas costumavam dizer isso todos os janeiros.
"Um novo começo."
Edward nunca acreditou muito nessa frase.
As pessoas mudavam de calendário.
Ele continuava sendo o mesmo.
Levantou-se lentamente.
Seu quarto era organizado de uma maneira quase obsessiva.
Os livros estavam alinhados por tamanho.
As roupas dobradas exatamente da mesma forma.
Os sapatos paralelos um ao outro.
Se alguma coisa saísse do lugar, ele percebia imediatamente.
Talvez fosse a única forma de sentir que tinha controle sobre alguma parte da vida.
Vestiu o uniforme azul-marinho da escola.
Abotoou a camisa até o último botão.
Pegou a mochila.
Antes de sair do quarto, olhou rapidamente para o espelho preso atrás da porta.
Seu reflexo devolveu exatamente o que ele esperava encontrar.
Olhos cansados.
Olheiras profundas.
Expressão vazia.
Desviou o olhar.
Nunca gostou de espelhos.
...
Na cozinha, Margaret já preparava o café.
Ela era sua mãe adotiva.
Gentil.
Educada.
Paciente.
Mas havia uma distância entre os dois que parecia impossível de diminuir.
— Dormiu bem? — perguntou ela enquanto colocava uma xícara sobre a mesa.
Edward puxou uma cadeira.
— Sim.
Era mentira.
Mas já havia aprendido que responder "não" sempre gerava perguntas.
E Edward odiava perguntas.
Margaret serviu chá.
— Está nervoso?
Ele pegou uma torrada.
— É só uma escola.
Ela sorriu de leve.
— Continua sendo um recomeço.
Edward abaixou os olhos para o prato.
"Não existe recomeço quando a gente nunca terminou de quebrar."
Pensou.
Mas não disse.
Comeu em silêncio.
Pegou a mochila.
Antes de abrir a porta, Margaret falou mais uma vez.
— Espero que faça amigos este ano.
Ele permaneceu imóvel por alguns segundos.
Depois respondeu sem virar o rosto.
— Eu também.
Foi embora.
...
O vento frio atravessava as ruas de Londres.
As calçadas estavam molhadas.
Ônibus vermelhos cruzavam as avenidas carregando estudantes sonolentos.
Edward caminhava sozinho.
As mãos escondidas nos bolsos do casaco.
A cabeça baixa.
Não porque estivesse triste.
Era apenas mais fácil evitar os olhares das pessoas.
Quando chegou ao portão da escola, centenas de alunos conversavam animadamente.
Abraços.
Risadas.
Fotos das férias.
Edward atravessou aquela multidão como se fosse invisível.
E talvez fosse mesmo.
Subiu as escadas.
Encontrou sua sala.
Respirou fundo.
Empurrou a porta.
...
As conversas diminuíram por um instante.
Algumas pessoas olharam para ele.
Depois voltaram aos próprios assuntos.
Edward escolheu a última carteira, ao lado da janela.
Era sempre a mesma estratégia.
Quanto mais distante das pessoas...
Menores as chances de alguém falar com ele.
Abriu um livro.
Nem percebeu quando duas sombras pararam ao lado de sua mesa.
— Essa cadeira está livre?
A voz era calma.
Edward levantou os olhos.
Uma garota de cabelos castanhos cacheados sorria discretamente.
Ao lado dela havia um garoto um pouco mais alto, segurando duas mochilas e um estojo que parecia prestes a cair.
— Eu sou a Via.
Ela apontou para o garoto.
— E esse desastre ambulante é o Thomas.
Thomas fez uma expressão indignada.
— Desastre ambulante?
— Você derrubou seu estojo três vezes só hoje.
— Foram duas.
— Eu contei três.
Ele olhou para Edward.
— Ela exagera.
Via cruzou os braços.
— Eu nunca exagero.
Thomas sorriu.
— Viu?
Ela exagera até nisso.
Sem querer...
Edward soltou um pequeno som pelo nariz.
Quase uma risada.
Os dois perceberam.
Via abriu um sorriso maior.
— Então você sabe rir.
Edward imediatamente voltou à expressão séria.
— Não ri.
Thomas puxou uma cadeira.
— Posso sentar?
Edward deu de ombros.
— A sala não é minha.
Os dois sentaram.
Durante alguns minutos ninguém falou nada.
Via organizava os cadernos.
Thomas tentava fechar o zíper da mochila.
Edward voltou a olhar pela janela.
A chuva aumentava.
...
— Você gosta de desenhar?
Edward ouviu a pergunta de repente.
Olhou para Via.
Ela apontava para a capa do livro que ele segurava.
Havia pequenos rabiscos feitos a lápis nos cantos das páginas.
Ele respondeu baixo.
— Às vezes.
— Foram você que fez?
Ele assentiu.
Via aproximou um pouco o livro.
Os desenhos eram simples.
Árvores.
Prédios.
Pessoas caminhando sob chuva.
Ela ficou alguns segundos observando.
— Você desenha muito bem.
Edward fechou o livro rapidamente.
— Não desenho.
— Mas...
— Eu só rabisco.
Thomas deu uma olhada rápida.
— Se isso é rabisco, eu nem sei desenhar.
Edward não respondeu.
Não sabia receber elogios.
Sempre que alguém dizia algo bom sobre ele, sua primeira reação era desconfiar.
"Eles nem me conhecem."
Pensou.
"Estão sendo educados."
Era mais fácil acreditar nisso.
A professora entrou na sala.
As conversas cessaram.
As aulas finalmente começariam.
E Edward ainda não imaginava que aquele seria o primeiro dia de uma amizade que mudaria completamente a forma como enxergava o mundo.
Continua...
YOU ARE READING
Memórias de janeiro
RomanceO que aconteceria se você se apaixonasse de modo obsessivo pelos seus 2 melhores amigos , uma garota e um garoto, e depois você criasse dependência emocional nos 2 e tivesse crises de ciúmes extremos e acabasse enlouquecendo por causa disso ? , já s...
