O peso da Coroa

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O cheiro de fumaça e sereno misturado com café forte sempre marcava o fim do meu plantão. Da sacada da minha casa, eu olhava o Rio de Janeiro começar a acender lá embaixo. A cidade lá no asfalto ainda dormia, mas aqui em cima o ritmo não para nunca.
Traguei o cigarro devagar, sentindo o ar frio entrar no peito.
No papel, Gustavo França, trinta anos, classe média alta, família estruturada e uma ficha criminal limpa de dar inveja a qualquer advogado. Eu tinha tudo pra tá num escritório com ar-condicionado, com terno alinhado e um diploma de faculdade pendurado na parede. Mas esse nunca foi o meu lugar. O tédio do asfalto me sufocava; o que sempre me moveu foi o perigo, a adrenalina e a lógica fria de um jogo onde qualquer erro custa a própria vida.
Hoje, me chamam de Playboy. O apelido veio da minha origem, mas o respeito que conquistei não veio de graça. Negocio dentro e fora do país, tomo conta do caixa e da logística do bagulho, e mantenho a mente fria quando o clima esquenta. Tenho dinheiro na conta, poder pra mover uma peça inteira e a mulher que eu quiser na hora que eu bem entender.
Só que esse poder cobra um preço alto pra caralho. A solidão é o meu único braço direito. Ninguém sabe o que se passa na minha cabeça quando as luzes se apagam e o rádio silencia. Minha vida é uma corda bamba diária, e eu aprendi a não confiar nem na minha própria sombra.
Liguei o rádio no peito e soltei o ar de vagar.
— Visão, rapaziada. Atento na pista que o dia tá virando. Qualquer movimento estranho, me aciona no privado. — soltei a frequência e voltei a encarar a favela.
Eu tinha o controle de tudo. Ou pelo menos achava que tinha, até aquele segredo cruzar o meu caminho e provar que nem todo o poder do mundo te protege de você mesmo.

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