Algumas histórias não terminam, elas apenas esperam que duas pessoas tenham coragem suficiente para voltar ao lugar onde tudo ficou em silêncio.
O teatro sempre me pareceu um lugar onde o tempo acontecia de outro jeito, talvez fosse a luz baixa, o perfume discreto da madeira antiga ou o murmúrio das pessoas ocupando seus lugares antes do início da apresentação. Ali, por algumas horas, a vida do lado de fora deixava de existir.
Naquela noite, eu acreditava que seria apenas mais um espetáculo, até levantar os olhos, ela estava ali.
Por um instante, o restante do salão desapareceu, as conversas, o som dos programas sendo abertos, o brilho dos lustres sobre o veludo vermelho das poltronas... tudo perdeu importância diante daquela única presença.
Clara.
Demorei alguns segundos para reconhecê-la, não porque o tempo tivesse apagado seus traços, mas porque havia feito com ela algo raro: transformara uma beleza já marcante em uma serenidade impossível de ignorar. Os cabelos loiros agora caíam um pouco abaixo dos ombros, e os olhos continuavam daquele azul tranquilo que, anos antes, eu aprendera a evitar sempre que demoravam sobre mim mais do que deveriam.
Ao seu lado estava Miguel o marido, ele sorria enquanto conversava com um casal de amigos, completamente à vontade, como sempre fora.
Quando nossos olhares se cruzaram, foi ele quem abriu o sorriso primeiro.
— Helena, quanto tempo!
O abraço veio natural, sincero, como acontece entre pessoas que guardam apenas boas lembranças uma da outra.
Conversamos por alguns minutos, perguntou sobre meu trabalho, sobre minha mãe, sobre a cidade, eu
respondi tudo, ou pelo menos acho que respondi, durante todo esse tempo, uma parte de mim estava tentando não olhar para Clara.
Tentando.
Quando finalmente reuni coragem, encontrei seus olhos esperando pelos meus, ela sorriu, foi um sorriso pequeno, quase imperceptível mas suficiente para fazer quinze anos desaparecerem como se nunca tivessem existido.
Nenhuma de nós disse qualquer coisa, não era necessário, havia pessoas capazes de conversar durante horas sem realmente dizer nada.
Nós fazíamos o contrário, o terceiro toque anunciou o início da apresentação, cada um seguiu para o próprio lugar, por coincidência ou por alguma ironia silenciosa da vida nossas fileiras ficavam em lados opostos do teatro, longe o bastante para impedir uma conversa, perto suficiente para que nossos olhares se encontrassem sempre que a luz do palco diminuía.
E eles se encontraram uma vez, depois outra e mais outra. Na terceira desviei primeiro, na quarta, foi ela. Na quinta, já não havia espetáculo suficiente para prender minha atenção, era ridículo.
Depois de tantos anos, bastava saber que Clara respirava o mesmo ar que eu para que algo antigo despertasse dentro de mim, algo que eu acreditava ter deixado para trás.
Quando as cortinas se fecharam e os aplausos tomaram conta do teatro, respirei fundo, convencida de que aquela estranha tempestade terminaria ali.
Eu estava errada, mal sabia que, naquela mesma noite, Clara pisaria ao meu lado, segurando uma taça de champanhe, olharia diretamente nos meus olhos e diria as únicas quatro palavras capazes de mudar tudo o que eu acreditava saber sobre nós.
— Finalmente nos reencontramos.
YOU ARE READING
Entre o primeiro e o último olhar!
RomanceQuinze anos depois, um teatro, um olhar e uma pergunta foram suficientes para despertar tudo o que Helena acreditava ter aprendido a esquecer. Algumas histórias nunca chegam ao fim. Apenas permanecem em silêncio, esperando o instante em que duas pes...
