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Azar é Apelido - Cáp 1

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"Mercado de La Paz, Bolívia - 01:57"

Todos se lembram do primeiro amor, e eu me lembro do primeiro corpo que enterrei.

Claro que enterrar alguém nunca está nos planos, mas, em algumas ocasiões, não se pode tropeçar em pedrinhas no meio do caminho. Infelizmente, você precisa chutá-las.

O problema era que aquela pedra tinha nome, sobrenome e uma oferta imperdível.

Uma oferta que me fez sujar as mãos e os próprios olhos. Um trabalho pesado que foi como um saco de areia no meio do deserto para mim. Na hora, não me preocupei com quem procuraria o cadáver, ou se eu fosse para a cadeia. Afinal, eu estava totalmente perdida na demência da recompensa daquela situação.

Enquanto o motor do meu carro cortava a escuridão da estrada, eu dirigia leve até aquele posto abandonado. Acelerar só era a minha intenção quando eu já tivesse aquelas notas no meu porta-malas. E, além disso, o vento leve aumentava a minha ansiedade, misturando-se com a adrenalina do momento.

Parei o carro de frente para aquele jipe sujo e escuro no posto; não fazia muita diferença do carro para o dono. Aquele capacho tinha uma aparência de poucos amigos, mas vale aquele ditado: "Você encontrará um mais louco que você".

- Está limpo? - perguntou ele em um tom ameaçador, como se escondesse o rosto do farol do meu carro.

- Meu serviço está feito - retruquei em um tom calmo, descendo do carro sem pressa alguma, sentindo o volume da peça embaixo da blusa. - Já cumpri com a minha parte do contrato. Cadê as malas? - questionei, fechando a porta do Opala. Logo me aproximei, mantendo uma distância segura.

O sujeito deu dois passos à frente, bloqueando com o corpo a visão que eu tinha das malas. Era perceptível o volume do meu calibre, mas, ao invés de recuar, ele me olhou com desdém, dando um sorrisinho cínico de lado que me trazia a vontade de atirar naqueles dentes amarelados.

- Calma lá, garota. O chefe não sai distribuindo dólares por aí sem nenhuma garantia de serviço. - Cuspiu no chão e acendeu um cigarro.

O vento daquela noite trazia o cheiro da fumaça para o meu rosto. Logo ele se distanciou, pegando as duas malas no chão.

- Volto antes da saliva secar! - gritou, já longe, sumindo naquele posto escuro.

Sentei no capô do Opala, acendi o meu baseado e esperei que ele voltasse com as notas. Ao mesmo tempo, pensava que aquele cara podia ter me aplicado o maior golpe da história criminal; mas não tinham se passado nem vinte minutos desde que aquele filho da puta sumiu. Não tinha como ele ter me enganado. E daí? Eu já estava em desespero, não tinha tempo para pensar em uma segunda chance! Eu estava louca para cometer um massacre ali mesmo.

Joguei a ponta do beck no chão quando presenciei duas silhuetas cruzarem o refletor apagado da conveniência. O pateta tinha voltado, e não sozinho. Ele estava com um outro cara, mais um capacho sem caráter. E, dessa vez, estavam armados.

Sem esconder, visualizei dois calibres .40. Cada um segurava uma arma em uma das mãos, enquanto o outro carregava as malas. Pareciam gêmeos do inferno, ou uma dupla maníaca.

- Aí, vadia! Encosta aqui - gritou o outro cara, que se aproximou de mim com o revólver entre os dedos.

Fiquei calada, olhei para cima e confesso que ver ele apontar a arma contra a minha testa me apavorou. Quer dizer que, além de matar, vou morrer? Não era injustiça; quem faz o que quer, acaba como não quer.
Mas não era para ser assim; não queria que terminasse desse jeito.

O som do gatilho. Aquilo estalou na minha frente, me fazendo arregalar os olhos com o pavor do momento.

Mesmo que eu tentasse revidar, nunca conseguiria bater de frente com aquela cena. Eram dois contra uma. Só que o medo me fez tomar uma atitude rápida na hora.
Desesperada, decidi agir com o meu plano, aquele mesmo que esquematizei antes de estar ali; nunca desconfiei das minhas intuições. Não era à toa que dirigi armada até aquele lugar de merda.

- Qual foi? Vão fazer o trabalho sujo agora? - perguntei com um nó na garganta, mas mantendo um tom de confiança e sarcasmo, achando que estava no controle da situação.

Porém, antes que eu pudesse atirar - ou morrer -, uma sombra surgiu. Alguém caminhava lento entre aqueles dois desgraçados, soltando uma risada ridícula, carregada de intenção. Eu não conseguia ver quem era de primeira, mas percebia que ele estava se aproximando. Foi quando um dos filhos da puta me segurou por trás, arrancando o revólver da minha própria mão, sem me deixar revidar.

Presa pelos braços, ameaçada por um cano frio colado na minha artéria, diante de uma sombra maldita com cheiro de nicotina.

Aquele era o som do pânico?

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