As ruas estreitas daquela pequena cidade francesa pareciam esquecidas pelo tempo.
O chão de pedras irregulares guardava o eco de passos antigos, enquanto as casas baixas, de janelas de madeira e fachadas gastas, alinhavam-se como memórias preservadas de um século que ninguém mais sabia nomear.
Uma neblina tênue começava a descer com a chegada do pôr do sol, tingindo o céu em tons queimados de laranja e cinza. As vielas, quase vazias, eram atravessadas por um vento fino que carregava consigo leves aromas florais vindos das jardineiras penduradas nas sacadas e o cheiro distante de frutas, pães e ervas frescas deixados pelas feiras livres que encerravam suas atividades.
Não havia pressa naquele lugar.
Era como se a cidade existisse suspensa entre o passado e algum segredo ainda por acontecer.
Até que o silêncio foi rasgado.
Uma criança corria.
Pequena demais para a urgência que carregava, atravessava as ruas sem olhar para trás, tropeçando quase a cada curva, os sapatos batendo desordenados contra as pedras úmidas. O suor escorria pelo rosto pálido, misturando-se ao ar frio da neblina. Sua respiração saía curta, desesperada, como se cada fôlego pudesse ser o último.
Ele não gritava.
O medo era tão grande que até sua voz parecia ter ficado para trás.
Alguns metros depois, surgiram eles.
Três homens vestidos de negro caminhavam em absoluto contraste com o desespero do menino. Não corriam. Não demonstravam qualquer pressa. Seus passos eram lentos, medidos, quase elegantes. Cartolas escuras escondiam parte de seus rostos, e os longos sobretudos balançavam ao ritmo do vento fino, dando-lhes a aparência de figuras saídas de um pesadelo antigo.
Tinham a serenidade de quem sabe que a presa não tem para onde fugir.
Os poucos comerciantes que ainda recolhiam barracas baixavam os olhos. As janelas se fechavam em silêncio. Ninguém queria testemunhar a passagem daqueles homens.
Porque naquela cidade, todos sabiam quem eles eram.
E todos sabiam o que acontecia quando saíam à procura de alguém.
A criança corria como se cada esquina pudesse lhe oferecer salvação.
Mas a cidade parecia ter decidido o contrário.
As pedras úmidas escorregavam sob seus sapatos gastos, e o ar frio queimava seus pulmões pequenos a cada tentativa desesperada de respirar. O suor lhe escorria pelas têmporas apesar do vento fino do entardecer, misturando-se à névoa leve que descia junto ao pôr do sol.
As ruas estreitas daquela pequena cidade francesa, tão silenciosas minutos antes, haviam se tornado um labirinto sem misericórdia.
Barracas de feira eram fechadas às pressas. Portas de madeira se cerravam. Rostos sumiam por trás de cortinas.
Ninguém queria olhar.
Ninguém queria se envolver.
Porque atrás do menino vinham eles.
Três homens vestidos de negro.
Cartolas baixas escondendo os olhos, sobretudos longos dançando discretamente com o vento, luvas impecáveis e passos lentos - absurdamente lentos para uma perseguição.
Não havia correria.
Não havia gritos.
Havia apenas a certeza silenciosa de que o desespero do garoto era inútil.
O mais velho dos três observou o menino tropeçar ao dobrar a esquina e apenas murmurou:
- Não o percam de vista.
Sua voz soou baixa, seca, obediente.
Como a de alguém acostumado a receber ordens.
Os outros dois assentiram sem dizer nada.
A criança sentiu o coração falhar por um instante.
Eles não estavam cansados.
Não estavam irritados.
Não pareciam sequer preocupados.
Aquilo significava uma coisa:
tinham todo o tempo do mundo.
O menino atravessou a praça principal já quase vazia. Restos de frutas amassadas, cestos esquecidos e papéis soltos rolavam pelo chão de pedra levados pelo vento fino. O perfume suave das flores misturava-se agora ao cheiro cruel do medo.
Ele levou a mão trêmula ao peito.
Tentando se lembrar.
Tentando fixar na mente o único pensamento que importava.
Não importa o que façam...
não conte.
Não conte.
Não conte.
A praça desapareceu para trás como uma lembrança distante.
As últimas casas da cidade foram ficando menores, substituídas por cercas tortas e vastos campos cobertos por capim alto que dançava sob o vento frio. A névoa rastejava rente ao chão, escondendo pedras, raízes e pequenos desníveis traiçoeiros.
O menino já não corria por esperança.
Corria por instinto.
As pernas queimavam, o peito doía e a visão começava a falhar nas extremidades, mas ele continuava, como se parar significasse deixar de existir.
Atrás dele, pela primeira vez, os passos dos homens aceleraram.
A calma havia terminado.
- Agora! - gritou um deles.
A criança atravessou a última cerca em um salto desajeitado e, ao tocar o solo irregular do pasto, viu adiante aquilo que procurava.
Uma longa rachadura aberta na terra.
Escura.
Profunda.
Como uma ferida rasgada no próprio chão.
Seu coração disparou.
Era ali.
Precisava ser.
Ele aumentou a velocidade enquanto ouvia os homens se aproximando.
Um deles estava perto demais.
Perto o suficiente para que o menino sentisse o som áspero da respiração atrás de si.
Uma mão enluvada avançou.
Os dedos quase tocaram a gola de sua camisa.
Num reflexo desesperado, a criança se lançou.
O pé escorregou na borda úmida da fenda.
Por um segundo seu corpo ficou suspenso entre ser capturado e desaparecer.
Então o chão sumiu.
O mundo girou em silêncio.
Nenhum grito saiu.
Nenhum som além do vento rasgando seus ouvidos.
E, no instante seguinte, seus pés tocaram pedra.
O menino abriu os olhos em choque.
À sua frente erguia-se um imenso muro cinzento, antigo e úmido, alto demais para ver o topo.
Ele respirou fundo, confuso, e virou-se lentamente para trás.
*Continua*
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Desenterra-me
Mystery / ThrillerNinguém pode fugir da sua própria história... Até onde irá para fugir da verdade e ate quando pretende fingir não ser culpado.
