O cheiro de terra molhada sempre tinha um jeito estranho de parecer mais pesado à noite.
Era isso que passava pela cabeça de Rafael Monteiro, enquanto caminhava sozinho pela trilha de mata nos arredores da cidade de Goianira. Ele não deveria estar ali. Ninguém deveria. Aquela área tinha fama de abandono, de desaparecimentos antigos, de histórias que as pessoas contavam só em voz baixa.
Mesmo assim, ele foi.
Talvez fosse curiosidade. Talvez fosse o tipo de curiosidade que nasce sem permissão.
O feixe da lanterna cortava o escuro em fatias tremidas, e o som dos próprios passos parecia alto demais, como se a floresta estivesse ouvindo de volta.
Foi quando ele viu.
Algo claro demais no meio do escuro.
Rafael parou.
No chão, parcialmente coberta por folhas e lama, havia uma figura humana.
Não houve grito imediato. O corpo demorou alguns segundos para virar "real" na mente dele, como se o cérebro estivesse recusando a informação.
Então ele entendeu.
E ligou para a polícia.
A polícia chegou rápido demais para uma cidade que costumava demorar para tudo.
Sirene baixa, lanternas, vozes curtas.
Rafael ficou afastado, tremendo sem perceber. Um dos policiais pediu que ele não olhasse, mas já era tarde. Aquilo não saía mais da cabeça.
A área foi isolada.
E então começaram os sussurros entre os agentes.
Não era apenas um caso isolado.
Havia marcas.
Padrões.
Algo que não era aleatório.
O nome não foi dito em voz alta naquela noite, mas a palavra "serial killer" começou a circular como veneno lento.
Dois dias depois, o caso ganhou um rosto mais firme.
Detetive Hiroshi Sato, um homem conhecido por resolver casos difíceis sem muita conversa. Ele não parecia assustado quando viu as evidências. Parecia... incomodado de um jeito pessoal.
Ele olhou as fotos por longos segundos.
E disse apenas:
- Isso não vai parar aqui.
Foi o suficiente para os outros entenderem que o caso tinha mudado de nível.
As semanas seguintes foram uma sequência de noites mal dormidas.
Mais relatos.
Mais pistas confusas.
Nenhuma ligação clara entre as vítimas além de um detalhe perturbador: todas pareciam ter sido deixadas como "mensagens", não como simples assassinatos.
O tipo de coisa que não fazia sentido para alguém comum.
E então começou o medo.
As pessoas passaram a trancar portas duas vezes.
Evitar ruas vazias.
Olhar por cima do ombro sem saber por quê.
Mas o pior ainda estava por vir.
Numa manhã cinzenta, Hiroshi Sato não apareceu.
Nem na delegacia.
Nem em casa.
O carro dele foi encontrado estacionado a duas ruas de um prédio abandonado, sem sinais de luta visível.
Só silêncio.
E o silêncio, naquele caso, era sempre pior do que qualquer evidência.
Quando finalmente encontraram o corpo, ninguém quis comentar em voz alta o que aquilo significava para a investigação.
Mas todos entenderam a mesma coisa:
O responsável não estava apenas observando.
Estava respondendo.
Depois disso, a cidade mudou.
Não oficialmente.
Mas no comportamento.
As pessoas começaram a evitar parques.
O comércio caiu à noite.
E a delegacia, antes cheia de energia, virou um lugar de olhares cansados e respostas curtas.
Sem o detetive Sato, tudo parecia girar em falso.
Até que, duas semanas depois, veio o anúncio.
A coletiva foi simples.
Fria.
Sem emoção.
- Não há mais indícios ativos de ameaça - disseram.
- O caso será arquivado até novas evidências.
E foi isso.
Nada de explicações completas.
Nada de respostas.
Só o tipo de decisão que a cidade aceitou por exaustão.
As pessoas queriam voltar a viver.
E voltaram.
Como se nada tivesse acontecido.
O Shopping Kuroyama reabriu totalmente iluminado, cheio de promoções e música alta tentando fingir normalidade.
Rafael estava lá no dia.
Ele não sabia exatamente por quê.
Talvez fosse a necessidade humana de acreditar que lugares cheios de gente são seguros.
Ele entrou.
Lojas abertas.
Famílias circulando.
Crianças rindo.
E por um momento, quase parecia que tudo tinha sido um pesadelo distante.
Até que as portas fecharam.
Não foi um fechamento normal.
Não houve aviso.
As portas automáticas simplesmente travaram.
Uma após a outra.
Como se o prédio tivesse decidido se trancar por dentro.
O som da música ambiente falhou por um segundo.
E voltou distorcido.
No começo, ninguém entendeu o som.
Parecia algo distante.
Um estouro seco.
Depois outro.
E então o caos começou devagar, como água infiltrando rachaduras.
As pessoas correram sem direção.
Algumas gritavam por segurança.
Outras tentavam forçar as portas.
Rafael ficou parado por um instante.
Só um instante.
Porque no fundo da mente dele, algo dizia:
"Isso não começou aqui."
E então as luzes piscaram.
Uma vez.
Duas vezes.
E o shopping inteiro mergulhou em um tipo de semi-escuridão quebrada, onde tudo parecia errado demais para ser real.
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A colheita está incompleta
HorrorApós uma série de assassinatos ritualísticos que aterrorizam uma cidade, a investigação é encerrada sem solução. Quando a rotina parece voltar ao normal, um massacre em um shopping revela que o crime fazia parte de um plano maior e ainda inacabado...
