Eu sou feminista.
Escrever essa frase, para mim, não é uma escolha estética ou uma tag para colocar no perfil. É uma necessidade de sobrevivência. É o eco de um grito que vem de dentro e que se recusa a ser calado.
Saber que existem outras mulheres no Afeganistão - em um lugar distante, separado por oceanos, fronteiras e barreiras invisíveis onde eu não posso estar - me esmaga. Saber que, daqui do meu quarto, olhando para a tela do meu celular, eu não posso simplesmente esticar o braço e arrancá-las de lá, me traz um sentimento profundo e sufocante de impotência. É uma dor que dói na pele de quem compartilha o mesmo gênero, a mesma humanidade.
O que acontece com elas não é uma notícia distante que a gente assiste no jornal da noite e esquece na hora do jantar. Não pode ser. Porque a verdade que o mundo tenta mascarar é cruel e direta: hoje são elas, mas amanhã posso ser eu. Amanhã pode ser a minha mãe, a minha irmã, a minha melhor amiga, ou qualquer outra mulher da minha família.
De repente, de um ano para o outro, nos vemos sem direito algum. Sem o direito de nos portar como quisermos, sem o direito de falar em voz alta na rua, sem o direito de estudar, de ler, de sonhar. O mundo gira, o tempo passa e a história se move. Mas a verdade que a juventude precisa encarar é que as coisas nem sempre mudam para melhor. Às vezes, elas mudam para pior. Retrocessos históricos acontecem no silêncio da nossa omissão. A liberdade das mulheres nunca foi um terreno firme; é uma construção de vidro que o patriarcado tenta quebrar a cada segundo.
O que está acontecendo no Afeganistão não pode ser esquecido. Não pode ser deixado de lado, varrido para debaixo do tapete ou tratado como um assunto político qualquer de geopolítica internacional. Aquilo é um espelho. É uma fresta no tempo mostrando o que acontece quando o machismo atinge o seu nível mais extremo e institucionalizado.
E se você acha que o Brasil está livre disso, você está dormindo.
Os mesmos homens machistas que governam pelo medo do outro lado do mundo existem na sociedade brasileira. Eles estão nos comentários das redes sociais diminuindo meninas, estão nos transportes públicos invadindo nossos corpos, estão nos cargos de poder ditando as regras, e estão dentro de muitas casas, se achando no direito absoluto de tratar uma mulher como um ser inferior. A raiz do monstro que silencia as afegãs é a mesmíssima raiz do machismo estrutural que mata e cala mulheres brasileiras todos os dias.
A crise humanitária lá fora é, na verdade, um toque de despertar para todas nós. É um chacoalhão para que a gente acorde de uma vez por todas e veja que o mundo não é brincadeira. Os direitos que temos hoje foram pagos com o sangue e o suor de mulheres que vieram antes de nós, e eles podem sumir se baixarmos a guarda.
Somos adolescentes agora. Somos consideradas crianças no momento por grande parte dos adultos, que insistem em ignorar nossa capacidade de pensar e sentir o mundo. Mas nós estamos crescendo. O tempo corre. E nós não queremos - e eu, falando do fundo da minha alma e por mim mesma, não vou aceitar - passar a minha vida adulta em uma sociedade machista controlada por homens que nos enxergam apenas como coadjuvantes de nossas próprias histórias.
Nossos corpos não pertencem ao Estado, nossas mentes não pertencem aos homens e nossas vozes não serão silenciadas. Se a dor de uma mulher do outro lado do mundo não te fere, você já perdeu a sua humanidade.
Eu sou, sim, feminista. Com muito orgulho e com toda a urgência que o meu peito carrega.
Eu preciso do feminismo. Nós precisamos dele para continuar respirando.
Acordem, meninas.
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Precisamos Acordar!
Non-FictionNão feche os olhos. Hoje são elas, amanhã pode ser uma de nós.
