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Capítulo I

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O salão principal da Casa Grande de Dom Jaime de Campos parecia mais silencioso do que de costume naquela tarde de céu chumbo. As tapeçarias ancestrais pendiam pesadas nas paredes de pedra, abafando o som de passos e cochichos. Um cheiro de resina antiga e ferro pairava no ar — como se a própria casa prendesse a respiração.

Flora estava de pé junto à lareira acesa, os dedos percorrendo o contorno de uma taça de estanho. Seus olhos, sempre atentos e vivos, fixavam a figura recém-chegada com uma mistura de fascínio e prudência. O homem que adentrara o salão não foi anunciado — apenas surgiu, como uma lembrança esquecida que toma forma de súbito. Alto, vestes escuras como terra molhada, um leve traço de poeira nos ombros, como se tivesse cruzado uma estrada antiga demais para ser nomeada. E os olhos — ah, os olhos. Olhos pálidos e profundamente azuis.

— Erikar — repetiu Flora em voz baixa, como se testasse o peso daquele nome em sua língua.
— Sim, menina de coragem — respondeu ele, com uma reverência quase zombeteira. — Não fui convidado, mas nem por isso não fui chamado.

Os empregados estavam ali, postados às sombras do salão, observando com o tipo de inquietação que só se vê nos que conhecem histórias demais e dormem pouco. Um deles fez menção de se aproximar, mas Flora ergueu uma mão suave, mas irrefutável.

— Deixem-nos.
A voz saiu clara, como um fio de aço. Era uma ordem. E, em poucos instantes, o salão ficou apenas com os dois.

Erikar avançou devagar, como se cada passo reverberasse em câmaras invisíveis do tempo. Parou diante dela e inclinou levemente a cabeça.

— Estás curiosa? — disse ele. — Vejo isso em teu pulso, no modo como teu olho esquerdo pisca mais devagar.

— Sou uma bruxa — respondeu Flora, sem cerimônia. — Conheço sinais, ecos, presságios. Mas há algo em ti que não consigo ler.

— Talvez porque não fui escrito.

Silêncio. Um silêncio denso, onde os estalos da lenha pareciam gritos distantes de uma floresta queimada. Flora o observava agora não como uma jovem de boa estirpe, mas como uma criatura em vigília, como uma loba prestes a entender a direção do vento.

— Dizem que vieste do sul. Outros dizem que és mais velho que o próprio medo — disse ela. — Que desejas da Casa Campos? De mim?

Erikar sorriu. Mas não foi um sorriso humano. Era um gesto ancestral, curvado em mistério.

— Não vim tomar nada. Vim lembrar-te do que esqueceste antes mesmo de nascer.

Flora sentiu uma vertigem leve, como se alguém tivesse soprado palavras proibidas em seu ouvido. No espelho antigo atrás de Erikar, uma pequena rachadura se formou — fina como um fio de cabelo. Ela não percebeu de imediato, mas ao encará-lo, teve a sensação estranha de que algo dentro de si se moveu — como se uma flor estivesse desabrochando no escuro.

Ela puxou uma cadeira, com a compostura de uma dama e a intensidade de uma feiticeira em meio ao rito.

— Então senta, Erikar. Tens muito a me dizer. E eu, mais ainda a perguntar.

Ele se sentou. E o fogo pareceu se curvar por um instante, como se reverencia-se ao que viria a seguir.

Erikar acomodou-se na poltrona de couro envelhecido, o corpo imóvel, mas o olhar incessante. Flora manteve-se de pé, agora ao lado da mesa de mogno, os dedos pousando sobre o grimório fechado de sua família — um gesto quase inconsciente de defesa.

— A tua chegada não faz sentido — disse ela, com a voz mais baixa. — Há tantos outros, tantas linhagens. Bruxas em conventos, nos montes, nos ermos. Por que vir até mim?

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