Ela não sabe dizer quando começou. Nem quando deixou de ser o que parecia. Só sabe que, em algum momento, parou de confiar no que sentia... e começou a acreditar no que diziam que ela deveria sentir.
Agora, entre lembranças que não se encaixam mais...
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"Há silêncios que não escondem o vazio. Eles apenas ocupam o espaço das lembranças que, por algum motivo, ainda não conseguiram voltar."
Narrador
O despertador tocou às sete, como fazia todas as manhãs. Lili o desligou antes que pudesse tocar pela segunda vez. Não porque gostasse de acordar cedo; apenas não suportava aquele som insistente preenchendo o apartamento logo no começo do dia.
Permaneceu deitada por alguns segundos, encarando o teto branco do quarto. Ainda era cedo o bastante para que o silêncio parecesse confortável. A cidade despertava aos poucos do lado de fora, mas dali ela só conseguia ouvir o vento empurrando a cortina contra a janela entreaberta.
Havia manhãs em que levantar era um gesto simples. Naquela, precisou convencer o próprio corpo a sair da cama.
Afastou a coberta, apoiou os pés no chão frio e caminhou descalça até a cozinha. O apartamento era pequeno, daqueles que podiam ser atravessados em poucos passos, mas ela gostava justamente disso. Nunca teve a sensação de que o silêncio ocupava espaço demais ali.
Enquanto a água esquentava na chaleira, abriu a janela da sala e apoiou os braços no parapeito. A rua ainda despertava sem pressa. Um senhor passeava com um cachorro de orelhas enormes que insistia em parar diante de cada poste, enquanto, do outro lado da calçada, uma florista organizava vasos coloridos na entrada da loja. O vermelho, o amarelo e o lilás das flores quebravam o cinza dos prédios de um jeito que chamou sua atenção por alguns instantes.
Lili gostava de observar as pessoas quando elas ainda não percebiam que estavam sendo observadas. Achava que era nesses momentos, distraídas da necessidade de parecer alguma coisa, que elas se mostravam mais verdadeiras.
O apito da chaleira interrompeu seus pensamentos.
- De novo... - murmurou para si mesma, fechando a janela antes de voltar para a cozinha.
Lili desligou o fogo, preparou o café e levou a caneca até a pequena mesa encostada na janela. Ao lado dela, descansava um caderno de capa preta cujas folhas já começavam a se curvar nas pontas, de tanto serem abertas e fechadas. Ela o puxou para perto sem pensar muito, como fazia quase todas as manhãs.
Apoiou a ponta do lápis sobre a primeira página em branco e permaneceu alguns segundos observando o papel. Esperou que alguma ideia surgisse, que uma linha puxasse a outra, mas nada aconteceu.
Sorriu discretamente.
- Hoje você também não quer colaborar?
A pergunta ficou suspensa no ar. A folha, como sempre, não respondeu.
Ainda assim, ela insistiu. Desenhou uma curva, depois outra, sem a intenção de criar qualquer coisa específica. Quando percebeu, as linhas já formavam o perfil de um rosto que nunca tinha visto antes. Parou o lápis no meio do traço e franziu levemente a testa.