Eram oito e quinze da manhã de uma terça-feira, e Min Yoongi tinha certeza absoluta de que o inferno não era um lago de fogo e enxofre. O inferno, na verdade, ficava no quarto andar do Edifício Jardim dos Deuses, no Centro de São Paulo. Tinha cheiro de pinho cítrico, luzes de neon piscando do outro lado da rua e uma trilha sonora ensurdecedora de divas do pop.
Yoongi arrastou suas pantufas gastas de ursinho pelo corredor minúsculo do Apartamento 402, apertando a ponte do nariz como se tentasse espremer a própria dor de cabeça para fora. Ao chegar na cozinha, a cena já era um clássico matinal.
Jung Hoseok usava luvas de borracha amarelas que iam até os cotovelos, uma camiseta velha amarrada na cintura e esfregava o fogão com a fúria de quem estava exorcizando um demônio. Ele cantava em plenos pulmões, fazendo coreografias pontuais com a esponja.
— Bom dia para o produtor musical mais mal-humorado da América Latina! — Hoseok exclamou, parando subitamente e apontando a esponja cheia de espuma para Yoongi. — Não pise no chão, eu acabei de passar pano!
Yoongi pisou no chão.
Hoseok levou a mão livre ao peito, soltando um gasp dramático, arregalando os olhos como se tivesse acabado de testemunhar um assassinato a sangue frio.
— Você está apagando a minha luz, Min Yoongi! Eu sou uma estrela! Olha essa marca de pantufa no meu porcelanato que imita madeira!
Yoongi sequer piscou. Ele caminhou a passos lentos até a lateral da pia, abriu o armário de produtos de limpeza e retirou o seu instrumento de paz e diplomacia: um borrifador de água verde-neon, geralmente usado para regar suculentas.
Ele apontou para o rosto de Hoseok.
— Não... — Hoseok recuou um passo, ofegante. — Você não seria louco...
Pfft. Pfft.
Duas borrifadas precisas bem no meio da testa de Hoseok. A água escorreu pelo nariz perfeitamente desenhado do dançarino, que fechou os olhos, indignado.
— A cada dia que passa, o apocalipse deixa de ser um medo e vira uma esperança — Yoongi suspirou, guardando o borrifador de volta e alcançando a garrafa térmica de café. — Por que você está limpando a casa como um sociopata antes das nove da manhã?
Hoseok puxou um pedaço de papel toalha, secando o rosto de forma teatral antes de arrancar as luvas de borracha. Ele marchou até a mesa de centro, que ficava a exatos três passos da cozinha na planta minúscula do apartamento, e ergueu um envelope pardo.
— O boleto do condomínio, Yoongi. E a parcela do empréstimo do meu estúdio. Os dois vencem amanhã. E a não ser que você tenha vendido um beat para a Anitta nessa madrugada, nós vamos ter que começar a vender pack do pé na internet.
Yoongi tomou um gole de café puro, fazendo uma careta que poderia ser tanto pelo amargor da bebida quanto pela perspectiva de falência.
— O cara da agência jurou que ia me depositar o dinheiro daquela trilha sonora do comercial de margarina hoje à tarde. E se ele não depositar, eu vou até o escritório dele e roubo o micro-ondas da copa. A gente vende e paga o condomínio.
— Isso é um crime! — Hoseok gritou, mas depois semicerrou os olhos, ponderando. — Você acha que o micro-ondas deles é daqueles espelhados? Porque a gente poderia usar aqui, o nosso tá rodando o prato ao contrário.
— Viu? Soluções. Agora vai tirar essa calça manchada de cândida, nós vamos descer para tomar café no Jin. Não tem pão nessa casa há três dias.
— O Jin vai cobrar a conta pendurada do mês passado.
— Eu deixo você na linha de frente — Yoongi respondeu, dando de ombros e caminhando de volta para o quarto. — Você pisca aqueles olhos de bambi assustado para ele e ganhamos mais duas semanas de prazo.
Quinze minutos depois, os dois desceram pelo elevador — o mesmo que os aprisionou no famigerado réveillon anos atrás — e chegaram ao térreo. O Boteco WWH (World Wide Handsome) já estava aberto. Era um monumento ao caos estético: cadeiras de plástico vermelhas na calçada, um balcão de mármore falso lá dentro e letreiros neon que juravam que ali se servia o "Melhor PF do Arouche".
Kim Seokjin estava exatamente onde sempre ficava: atrás do caixa, vestindo uma camisa de seda com estampa de flamingos, polindo uma taça de cristal que destoava completamente dos copos americanos do resto do bar.
— Bom dia, súditos! Silêncio, a realeza está falando! — Jin anunciou assim que o sino da porta anunciou a entrada dos dois. — Sabem o que o tomate foi fazer no banco?
Yoongi e Hoseok pararam no meio do bar. Yoongi esfregou os olhos.
— Tirar o extrato! — Jin explodiu em uma risada aguda, que soava exatamente como alguém limpando um vidro com um pano molhado. Ele batia no balcão de mármore enquanto ria sozinho da própria piada de tiozão. — O extrato! Ah, eu sou brilhante.
— Se eu rir da piada, você perdoa os oitenta reais que a gente te deve do mês passado? — Hoseok perguntou, já abrindo o seu melhor sorriso, apoiando os cotovelos no balcão.
Jin parou de rir no mesmo segundo, ajeitando a postura e fuzilando Hoseok com o olhar.
— Eu sou lindo, Hoseok, não sou burro. Na verdade, estou para instituir o Serasa do WWH. Se não pagarem, vou colocar a foto dos dois no mural da vergonha ali do lado do banheiro.
Antes que Yoongi pudesse prometer a Jin um rim como garantia de pagamento, a porta do boteco foi empurrada com uma força desnecessária.
Kim Namjoon entrou. Ele vestia um terno perfeitamente cortado e segurava uma pasta de couro cara, exalando a aura de um arquiteto de sucesso. O problema era que Namjoon parecia não ter controle sobre os próprios membros. Ao dar o terceiro passo para dentro do estabelecimento, a ponta do seu sapato social italiano enganchou no pé de uma das cadeiras de plástico.
Ele cambaleou para frente, derrubou um porta-guardanapos que espalhou papel pelo chão inteiro, trombou no balcão e, por um milagre, conseguiu se apoiar antes de beijar o mármore.
O bar inteiro ficou em silêncio.
Jin o encarava com uma expressão que misturava ódio genuíno e um fascínio que ele jamais admitiria em voz alta.
Namjoon ajeitou os óculos no rosto, pigarreou, olhou fundo nos olhos de Jin e, com a voz mais grave e sedutora que conseguiu forçar, soltou:
— Jin... você não é um piso molhado, mas eu já caí de amores por você.
Hoseok deu um tapa na própria testa. Yoongi olhou para o teto, implorando mentalmente por paciência divina.
— Namjoon — Jin disse, pausadamente, apontando a taça de cristal para o rosto do arquiteto. — Junte cada guardanapo desse chão agora, ou eu juro que enfio esse porta-guardanapos na sua garganta.
— Só se for com um beijo de bom dia antes — Namjoon rebateu, abrindo as covinhas em um sorriso cafajeste que desarmava qualquer um. Menos Seokjin. Ou pelo menos era o que Jin tentava demonstrar enquanto seu rosto adquiria um tom levemente avermelhado.
— Vocês dois me dão azia — Yoongi resmungou, sentando-se no banco do balcão. — Jin, me dá dois pães na chapa e um café. O micro-ondas do meu cliente vai garantir o pagamento, eu juro pela vida do Hoseok.
— Ei! — Hoseok gritou, indignado, colocando a mão no peito em outro gasp. — Minha vida vale mais que dois pães na chapa!
— Vale um pingado também — Yoongi retrucou, sem olhar para ele.
Hoseok puxou a cadeira ao lado dele, resmungando indignado, mas, sem perceber, encostou os ombros no do produtor, roubando metade do café da xícara de Yoongi antes mesmo de o pedido chegar. Yoongi sequer reclamou. No fundo, a balança do universo estava equilibrada. Boletos atrasados, piadas ruins, cantadas terríveis, e os dois ali, exatamente onde pertenciam.
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Sintonia Desafinada
FanfictionMin Yoongi é um produtor musical ranzinza que sobrevive à base de café e sarcasmo. Para não ser despejado do seu apartamento no Centro de São Paulo, ele decide sublocar o quarto minúsculo que usava como depósito. Jung Hoseok, um instrutor de dança d...
