A luz dos refletores de uma arena lotada tem a capacidade assustadora de apagar qualquer traço de realidade. Quando estou ali em cima, sob o olhar atento e fervoroso de milhares de pessoas, eu sou exatamente quem eles precisam que eu seja: uma força da natureza inabalável, enérgica, exalando uma sensualidade que parece natural, mas que foi meticulosamente coreografada ao longo de meses de ensaios exaustivos. O som ensurdecedor da multidão é um combustível poderoso, um eco que reverbera no meu peito e me faz esquecer, por algumas horas, o peso sufocante que carrego nos ombros assim que desço os degraus do palco. Ali, sob os gritos que clamam pelo meu nome, eu sinto que pertenço ao mundo. O problema real começa quando a última nota musical se dissipa no ar, os gritos começam a diminuir na distância e eu sou devolvida ao silêncio gélido dos bastidores, onde a persona milimetricamente construída dá lugar à exaustão que consome meus ossos.
A nova parte da turnê pela América Latina havia começado com a promessa de um fôlego renovado, mas a verdade é que o cansaço apenas mudou de fuso horário. Minha rotina não é minha; ela pertence a uma engrenagem gigantesca que se alimenta do meu tempo, da minha imagem e da minha energia. Acordar em um quarto de hotel de luxo cuja decoração eu sequer registro na memória, ser conduzida por corredores internos para evitar o tumulto no saguão, entrar em carros de vidros escuros e seguir para uma sequência interminável de entrevistas de rádio, coletivas de imprensa e passagens de som, tudo isso se transformou em um ciclo repetitivo. Estou constantemente cercada por pessoas que sorriem para mim, que balançam a cabeça concordando com cada palavra que digo e que antecipam minhas necessidades materiais com uma eficiência cirúrgica, mas que nunca olham de verdade nos meus olhos para perguntar como estou me sentindo. É uma solidão povoada, um isolamento dourado onde a privacidade se tornou o artigo de luxo mais caro que eu jamais poderei comprar.
Naquela tarde de terça-feira, o calor de São Paulo parecia se infiltrar até mesmo através das paredes espessas do camarim da arena. Eu estava sentada diante do espelho iluminado, observando a equipe de maquiagem retocar os últimos detalhes antes que eu fosse direcionada para mais um painel com fãs que pagaram pacotes VIP para me ver de perto por exatos trinta segundos. Minha empresária, mantendo os olhos cravados na tela do tablet enquanto ditava ordens rápidas para dois assistentes, andava de um lado para o outro com o barulho irritante de seus saltos estalando contra o piso laminado. Tudo ao meu redor funcionava sob um controle estrito e quase militar; cada minuto do meu dia estava cronometrado em uma planilha compartilhada. Eles justificavam aquele nível sufocante de vigilância e isolamento como zelo, uma medida necessária para me proteger da proporção gigantesca que meu nome havia tomado nos últimos meses, mas a sensação de ser um pássaro preso em uma gaiola de vidro blindado nunca me abandonava.
— Camila, precisamos acelerar o passo — disse minha empresária, sem desviar os olhos do aparelho, a voz desprovida de qualquer calor humano. — O pessoal do Meet & Greet já está posicionado no setor B. Temos exatamente quarenta minutos antes de você precisar se recolher para o aquecimento vocal. A segurança do estádio já isolou o perímetro, então não tente inventar rotas alternativas como fez no México. Qualquer desvio no protocolo é um risco desnecessário que não podemos correr agora.
Eu apenas suspirei, sentindo o peso familiar da frustração pressionar meu peito, e assenti levemente com a cabeça para o meu próprio reflexo no espelho. Eu queria dizer que precisava de dez minutos sozinha, que o barulho na minha mente estava alto demais e que o ar condicionado parecia estar me sufocando, mas eu sabia exatamente qual seria a resposta. Eles diriam que compreendiam, que sentiam muito, mas que o cronograma não permitia atrasos. Limpando o canto dos lábios com a ponta dos dedos, levantei-me da cadeira estofada e forcei o sorriso radiante que todos esperavam ver surgir no meu rosto, preparando-me para cruzar a porta do camarim e encarar as lentes fotográficas que registrariam cada fração do meu cansaço disfarçado de felicidade.
YOU ARE READING
Camila's Bodyguard
FantasyPara o mundo, Camila Cabello é uma força da natureza no topo das paradas de sucesso, arrastando multidões por onde passa em sua turnê europeia. Atrás das cortinas, no entanto, ela se tornou o alvo principal de uma ameaça obsessiva que transforma cad...
