O Colégio de Pádua não era apenas uma escola; era um ecossistema predatório disfarçado de instituição educacional de elite. Para Cameron, um estudante do segundo ano que tentava desesperadamente passar despercebido pelos corredores, o lugar parecia mais uma arena de gladiadores onde a moeda de troca não era ouro, mas popularidade, status e conexões sociais. Na manhã daquela segunda-feira, a umidade do ar deixava as paredes do prédio com uma aura pesada, e o som dos armários batendo soava como disparos de artilharia.
Cameron estava encostado em seu armário, o de número 412, tentando manter uma respiração ritmada enquanto observava o horizonte do pátio principal. Ele não estava ali pela aula de cálculo ou pela perspectiva de um futuro brilhante. Ele estava ali por Bianca.
Bianca Stratford era o sol em torno do qual o pequeno universo de Cameron orbitava. Ela não era apenas bonita; ela tinha aquela luz natural que parecia iluminar os corredores cinzentos e estéreis da escola. Ela ria de uma forma que fazia as notas ruins de Cameron parecerem triviais e a sua timidez crônica um traço de personalidade charmoso, ao menos na sua própria cabeça.
No entanto, o "Fator Jennie" pairava sobre Bianca como uma maldição divina.
O pai das irmãs Stratford, um médico cirurgião que tratava a vida social das filhas com a mesma precisão e rigidez com que tratava seus pacientes em uma mesa de cirurgia, tinha uma regra inquebrável: Bianca não teria permissão para sair em encontros - sob nenhuma circunstância, em hipótese alguma, ou por qualquer motivo que envolvesse um rapaz de hormonios exaltados - até que sua irmã mais velha, a indomável e sarcástica Jennie, tivesse um namorado.
Jennie Stratford era a antítese de tudo o que o Colégio de Pádua valorizava. Enquanto os outros alunos se esforçavam para se encaixar nos moldes de conveniência, Jennie parecia fazer questão de quebrá-los. Ela vestia sua desilusão com o mundo como se fosse uma armadura. Ela não apenas ignorava as convenções sociais; ela as ridicularizava com um único levantar de sobrancelha.
Cameron sentiu um toque firme em seu ombro e quase deixou cair seus livros de física.
Era Michael, seu melhor amigo e o único que compreendia a extensão de sua miséria existencial.
- Você está encarando de novo, cara - Michael disse, sua voz carregada de uma mistura de pena e divertimento sádico. - E acredite, essa sua expressão de "cachorro abandonado que espera por um milagre" é o motivo exato pelo qual as garotas te classificam como 'o bom amigo' e nunca como 'o cara com quem vou ao baile'.
- Eu não estou encarando - Cameron protestou, embora seus olhos estivessem fixos no banco de madeira onde Jennie estava sentada, lendo um livro de poesia que, ele tinha certeza, não estava na lista de leitura recomendada da escola. - Eu estou analisando variáveis.
- Variáveis? - Michael soltou uma risada seca. - A única variável que importa é a Jennie. Ela é a barreira, Cameron.
Ela é o portão trancado do seu Éden particular. Se você quer chegar até a Bianca, precisa encontrar uma maneira de destravar a Jennie.
Cameron suspirou, fechando o armário com um baque surdo. Ele olhou novamente para a poltrona onde Jennie estava, a cena que parecia ter saído de uma pintura de época em meio ao caos moderno. Jennie estava sentada com uma elegância letal, seus dedos deslizando sobre a capa do livro, seu olhar voltado para algum lugar que só ela conseguia ver.
E atrás dela, como se fizesse parte da arquitetura sombria do lugar, estava ele: Taehyung.
Taehyung não era apenas um aluno. Ele era uma anomalia. Havia lendas sobre ele que circulavam nos banheiros e nos fundos da cafeteria. Diziam que ele tinha sido expulso de escolas por razões que variavam de "comportamento subversivo" a "insubordinação inexplicável". Ele caminhava pelo corredor com uma confiança que beirava o insulto à autoridade. Sua camisa polo de tricô cinza estava impecável, e ele possuía aquela calma de quem sabia algo que o resto do mundo ignorava.
Ele estava encostado na poltrona de Jennie, observando o pátio com o mesmo desdém que a garota, mas com um brilho de curiosidade predatória nos olhos.
- O Taehyung? - Cameron repetiu, o nome parecendo estranho em sua boca. - Você quer que eu peça ao cara que quase explodiu o laboratório de química no ano passado para namorar a garota que provavelmente tem uma faca escondida na bolsa para se defender de interações humanas?
- É um plano perfeito em sua loucura - Michael respondeu, encostando-se na parede. - O Taehyung não se importa com a reputação. Ele não se importa com o que os professores pensam. Ele é a única pessoa neste colégio com a audácia necessária para abordar a Jennie sem se desintegrar sob o peso do sarcasmo dela. Além disso, ele está com problemas financeiros, Cameron.
Ouvi dizer que ele precisa de dinheiro para pagar aquela multa da escola ou algo assim.
- E você acha que ele aceitaria uma propina para conquistar uma garota? Isso não é um filme romântico dos anos 90, Michael. Isso é a vida real.
- E na vida real, todo mundo tem um preço - Michael rebateu. - Vá falar com ele. O que você tem a perder? Sua dignidade? Você já não tem muita, para começar.
Cameron olhou para Taehyung. O rapaz, como se sentisse o peso do olhar de Cameron, virou lentamente a cabeça. Por um momento, a distância entre eles pareceu diminuir. O olhar de Taehyung era frio, analítico, mas carregado de uma inteligência que assustava Cameron mais do que a sua reputação de bad boy. Não era o olhar de alguém que buscava problemas; era o olhar de alguém que os colecionava.
O pátio estava se tornando um caldeirão. O sinal da primeira aula estava prestes a tocar, e a multidão de alunos começou a convergir para as salas. Jennie levantou-se da poltrona, deixando o livro sobre o assento por um segundo antes de recolhê-lo com uma graciosidade quase felina. Ela passou por Taehyung sem olhar para ele, mas Cameron viu o sorriso de canto que surgiu no rosto do rapaz. Era um sorriso de quem tinha acabado de identificar uma peça em um tabuleiro de xadrez que ele já estava jogando há muito tempo.
Cameron sentiu suas pernas se moverem antes que seu cérebro pudesse dar a ordem de recuo. Ele caminhou pelo pátio, desviando de grupos de alunos, sentindo que estava cruzando uma linha invisível. Ao se aproximar de Taehyung, a energia ao redor do rapaz parecia vibrar com uma eletricidade estática.
- Ei - Cameron disse, sua voz saindo mais fina do que ele gostaria.
Taehyung continuou olhando para o nada, como se Cameron fosse apenas um ruído de fundo.
Então, lentamente, ele se virou. O rosto de Taehyung era quase simétrico demais para ser real, uma mistura de traços delicados e uma expressão de tédio absoluto.
- Sim? - a voz de Taehyung era baixa, aveludada, e carregada de uma ironia que fez Cameron querer pedir desculpas e sair correndo.
- Eu... preciso de um favor - Cameron começou, tentando manter o contato visual. - É sobre a Jennie Stratford.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Taehyung inclinou um pouco a cabeça, e o sorriso de canto se ampliou, transformando-se em algo que Cameron não conseguiu decifrar. Não era deboche; era reconhecimento.
- A Jennie? - Taehyung repetiu, como se estivesse saboreando o nome. - Você está pedindo para eu me aproximar de um desastre natural com um nome, Cameron. Você sabe quem ela é?
- Eu sei exatamente quem ela é - Cameron respondeu, ganhando uma pitada de coragem desesperada. - E eu sei que você precisa de dinheiro.
Taehyung estreitou os olhos, e por um instante, Cameron sentiu como se estivesse sendo lido como um livro aberto. A atmosfera ao redor deles mudou. O barulho do colégio pareceu silenciar, deixando apenas o som da respiração dos dois.
- O dinheiro é a parte menos interessante dessa conversa - Taehyung disse, dando um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. - O que me interessa é saber por que um cara como você, que parece estar sempre tentando ser invisível, está disposto a colocar um alvo nas próprias costas por causa de uma garota.
- Porque ela vale o risco - Cameron murmurou.
Taehyung soltou uma risada curta, seca, e passou por Cameron, mas não antes de deixar uma frase no ar, uma promessa velada que o futuro revelaria ser muito mais complexa do que qualquer um deles poderia imaginar.
- A vida no Colégio de Pádua é monótona demais, Cameron. Talvez, apenas talvez, eu aceite o seu desafio. Mas esteja avisado: se eu entrar nesse jogo, não sou eu quem dita as regras. É a Jennie.
Cameron ficou parado ali, observando Taehyung se afastar em direção às salas de aula. Ele sentia que tinha acabado de vender sua alma para o diabo, ou talvez, para a única pessoa capaz de salvar seu futuro. A primeira peça tinha sido colocada. O jogo, que todos achavam ser apenas uma trama adolescente simples, estava prestes a se tornar uma batalha épica de vontades.
Enquanto isso, longe dali, Jennie caminhava pelo corredor com seu livro pressionado contra o peito, sentindo o olhar de alguém queimando em suas costas. Ela não sabia quem era o garoto, mas sentia que o ar no colégio tinha mudado. Ela não gostava de mudanças. Mudanças eram imprevisíveis, e Jennie Stratford preferia o conforto de seu desprezo controlado. Ela não tinha ideia de que, em questão de dias, seu mundo seria virado de cabeça para baixo por um rapaz que, até aquele momento, ela considerava apenas mais um idiota na paisagem monótona do seu dia a dia.
Cameron voltou para o armário, onde Michael o esperava com uma expressão de expectativa indisfarçável.
- E então? - Michael perguntou, ansioso. - Ele aceitou?
Cameron olhou para onde Taehyung havia desaparecido. Ele não sabia se era "aceitar". Parecia mais um convite para o caos.
- Ele não disse não - Cameron respondeu, sentindo o peso do que estava por vir. - E no dicionário do Taehyung, acho que isso é quase um sim.
O sinal tocou, um som estridente que cortou o ar como uma navalha.
ESTÁS LEYENDO
10 coisas que eu odeio em você
No FicciónNo prestigiado Colégio de Pádua, o estudante Cameron se apaixona perdidamente por Bianca, mas há um grande obstáculo: as regras rigorosas de seu pai determinam que Bianca só poderá namorar quando sua irmã mais velha, a geniosa e antissocial Jennie...
