Na Escola Nunca Mais, dividir o Quarto Ophelia sempre foi um desafio diplomático. De um lado da fita preta, Enid Sinclair: uma híbrida de lobo colorida, barulhenta e com energia de sobra. Do outro lado, mergulhada nas sombras, Wednesday Addams: uma...
O problema de ter o olfato apurado de um lobo é que você não consegue ignorar os detalhes. Enid Sinclair podia sentir o cheiro do medo dos calouros a três corredores de distância. Podia rastrear uma barra de chocolate escondida no dormitório vizinho.
Mas, ultimamente, o único aroma que inundava seus sentidos e fazia seu cérebro entrar em curto-circuito era uma mistura inebriante de pergaminho velho, café absurdamente amargo e... ela.
Wednesday Addams.
Enid suspirou, deitada de bruços em sua cama colorida, deixando que a orelha direita, felpuda e de um tom loiro platinado, se movesse levemente em direção ao lado escuro do quarto.
Lá estava a híbrida de gato. Wednesday estava sentada em sua escrivaninha, a postura reta como uma régua. Orelhas negras e pontudas se destacavam em meio às tranças escuras, captando cada som, enquanto a longa cauda felina pendia da cadeira, balançando em um ritmo lento, hipnótico e metódico.
Swoosh... Swoosh...
A loba engoliu em seco. Fazia três semanas que Enid havia percebido o erro fatal de sua própria biologia: seu lado lupino havia decidido, com uma teimosia absurda, que a híbrida de gato rabugenta e letal era a coisa mais atraente do universo.
— Se você continuar me encarando com essa intensidade predatória, Sinclair, serei obrigada a arrancar seus olhos e guardá-los em uma jarra de formol. — A voz de Wednesday cortou o silêncio do Quarto Ophelia. Ela sequer havia se virado, mas suas orelhas felinas estavam levemente voltadas para trás.
— Eu não estava encarando! — Enid mentiu, sentindo as bochechas queimarem. Sua própria cauda, felpuda e colorida nas pontas, deu uma batida traidora e alta contra o colchão, denunciando sua agitação. Lobos são péssimos mentirosos.
Wednesday finalmente girou a cadeira. Seus olhos escuros fixaram-se na colega de quarto, brilhando com aquela inteligência predatória de quem sempre sabe de tudo. Ela levantou com a graciosidade silenciosa típica de sua espécie. Nenhum passo fazia som.
A gata caminhou até a linha divisória do quarto, parando a centímetros do limite. Enid prendeu a respiração. Wednesday estreitou os olhos, o nariz pequeno farejando o ar quase imperceptivelmente.
— Você está agitada. Seu cheiro está doce demais, enjoativo. Está me dando náuseas. — Wednesday cruzou os braços. — Pare com isso.
— Eu não controlo meus feromônios, Wed! — Enid resmungou, sentando-se na cama. Ela tentou alisar as próprias orelhas caninas para baixo, uma tática inútil para parecer menos afetada. — E se eu estiver agitada, o que você tem a ver com isso?
A cauda negra de Wednesday parou de balançar, enrolando-se levemente ao redor da própria perna. Um sinal de desagrado.
— Tenho tudo a ver quando a sua agitação canina e espalhafatosa interrompe minha linha de raciocínio para o meu romance. — Ela deu um passo à frente, cruzando a fita preta colada no chão.
O coração de Enid errou uma batida.
Wednesday odiava contato. Odiava invasão de espaço. Mas, nas últimas semanas, a gata parecia sofrer de uma contradição crônica: ela reclamava da loba constantemente, mas sempre, sempre encontrava uma desculpa para estar perto.
Sem pedir permissão, Wednesday subiu na cama de Enid. Ela não se deitou ao lado da garota, claro que não. Isso seria gentil demais. Em vez disso, caminhou sobre o colchão macio, pisando de propósito nas anotações de História da Magia de Enid, até chegar ao centro. Então, girou em um pequeno círculo e simplesmente deitou-se em cima do notebook aberto da loba.
— Wednesday! Eu estava pesquisando aí! — Enid protestou, embora sua voz soasse estranhamente mansa.
— Esse aparelho emite um calor suportável. Minha cama está fria. Lide com isso. — Wednesday fechou os olhos, as orelhas negras relaxando um pouco.
Enid ficou paralisada. A garota de tranças estava deitada de bruços, o rosto pálido apoiado sobre o teclado, a centímetros das pernas de Enid. O cheiro de café e mistério a atingiu com força total. Instintivamente, a mão da loba se moveu, os dedos formigando com a vontade insana de afagar os cabelos escuros e acariciar a base daquelas orelhas de gato.
Ela sabia que se tocasse, provavelmente perderia um ou dois dedos. Mas o instinto lupino clamava por contato, por carinho, por mostrar devoção àquela criaturinha arisca.
Lentamente, Enid estendeu a mão. Quando estava a um milímetro de tocar a cabeça da outra, os olhos de Wednesday se abriram repentinamente. Como um raio, a mão de Wednesday disparou, agarrando o pulso de Enid com uma força surpreendente. As unhas da gata, não totalmente retraídas, arranharam levemente a pele da loba. Não para machucar, mas para avisar.
— Nem pense nisso, vira-lata. — O tom era ameaçador, mas... havia um detalhe.
Wednesday não soltou o pulso de Enid. Ela não empurrou a mão da loba para longe. Ela apenas manteve o aperto, os olhos cravados nos azuis de Enid. E, no fundo da garganta de Wednesday, quase inaudível, um som baixo, rítmico e contínuo começou a vibrar.
Purr... purr... purr...
Enid arregalou os olhos.
— Você... está ronronando? — sussurrou a loba, chocada, um sorriso bobo ameaçando rasgar seu rosto.
O som parou imediatamente. Os olhos de Wednesday se arregalaram por uma fração de segundo antes de se estreitarem em fúria mortal.
— Foi um defeito respiratório. O ar cheio de glitter deste lado do quarto afetou meus brônquios. — Ela soltou o pulso de Enid bruscamente e se encolheu ainda mais sobre o notebook, fechando os olhos com força, a cauda negra chicoteando o ar com irritação óbvia. — E se você contar isso a alguém, eu arranco sua língua e a dou para o Mãozinha mastigar.
Enid mordeu o lábio inferior para não rir alto.
A cauda loira da loba batia desenfreadamente contra os lençóis. Wednesday Addams era um pesadelo. Um pesadelo ciumento, carente, dissimulado e absolutamente letal.
E Enid nunca quis tanto ser a presa de alguém em toda a sua vida.
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