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A Fragilidade do silêncio

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Lancei o molinete pela decima quinta vez.

A Mata Atlântica pulsava ao meu redor, viva e indomável. Pássaros cantavam ocultos entre as copas, pequenos animais atravessavam a vegetação densa e folhas desprendidas dos galhos giravam lentamente antes de pousar sobre a superfície escura do rio.

- Pare de me olhar assim. Está me deixando ansiosa. Não tenho culpa se eles não querem morder a isca.

Wolf ergueu os olhos para mim. O pastor alemão parecia entediado, como se questionasse todas as minhas escolhas de vida. Em seguida, apoiou a cabeça sobre as patas dianteiras e soltou um longo suspiro.

- Você está me deixando nervosa. Todo esse pessimismo está estragando a pescaria.

Ele gruniu baixinho, provavelmente me achando ridícula.

Então senti a fisgada.

Meus dedos se fecharam em torno da vara enquanto eu liberava linha aos poucos, permitindo que o peixe se cansasse. Pescar exigia paciência, e eu havia aprendido a apreciar aquele silêncio quebrado apenas pelos sons da floresta. Era uma espécie de terapia.

Como sempre, Wolf estava comigo.

Ganhei meu companheiro quando ele tinha apenas seis meses. Meu pai o comprou de um criador alemão e investiu em um treinamento rigoroso antes mesmo de ele chegar ao Brasil. Cinco anos haviam se passado desde então.

Cinco anos em que nos tornamos inseparáveis.

Wolf era extraordinariamente inteligente. Entendia comandos complexos, percebia mudanças sutis no meu humor e, às vezes, parecia compreender muito mais do que qualquer cachorro deveria. Também era leal, divertido e, em certos dias, absurdamente ranzinza.

Como hoje.

Ele nunca enxergou graça nas minhas pescarias. Eu já o mandara explorar as redondezas inúmeras vezes, mas ele sempre acabava voltando para o mesmo lugar, deitando-se perto de mim como um guarda-costas mal-humorado.

- Eu sei, eu sei, está demorando. Não fique me pressionando.

Olhei para Wolf mais uma vez. Ele respondeu com um bufo baixo, daqueles que pareciam carregar um julgamento silencioso sobre todas as minhas decisões. Às vezes eu me perguntava se estava ficando maluca. Afinal, conversar com um cachorro e acreditar que ele me respondia através de olhares, resmungos e suspiros provavelmente não era o comportamento mais saudável do mundo.

Por outro lado, a única companhia constante que eu tinha era a dele. Havia anos que eu vivia sozinha em uma casa escondida entre as árvores, onde o canto dos pássaros substituía o som do trânsito e o cheiro salgado da maresia chegava carregado pela brisa da manhã. Longe da correria, dos horários e das expectativas que pareciam reger a vida de todo mundo, meus dias seguiam em um ritmo próprio.

De vez em quando eu descia até Prado para comprar mantimentos, resolver alguma pendência ou simplesmente lembrar a mim mesma que a civilização ainda existia. Era estranho caminhar entre pessoas depois de passar tanto tempo cercada apenas pela floresta, pelo mar e pelo silêncio. Fora essas raras visitas à cidade, minha rotina pertencia às trilhas escondidas entre as árvores, às ondas quebrando na praia e ao convívio tranquilo com os funcionários do sítio, e as longas visitas a tribo indígena que fazia divisa com minha propriedade. E, é claro, a Wolf, que me acompanhava em praticamente todos os momentos da minha vida.

A região inteira era tranquila. Entre Prado, Cumuruxatiba, Barra do Cahy e Corumbau, não devia haver tanta gente assim vivendo por aquelas bandas. Durante boa parte do ano as estradas de terra permaneciam vazias, as praias quase desertas e o silêncio era interrompido apenas pelo som do mar, do vento ou dos animais. Nas temporadas de férias, entretanto, tudo mudava. Turistas chegavam de todas as partes do país em busca das paisagens paradisíacas da Costa das Baleias, enchendo pousadas, restaurantes e ruas estreitas com uma energia que eu nunca soube apreciar. Não era exatamente antipatia pelas pessoas. Eu apenas havia me acostumado tanto à tranquilidade que multidões passaram a me parecer algo estranho, quase invasivo.

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