Nova Vida

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O início de uma nova jornada é sempre cercado por uma mistura de frio na barriga e aquele nó na garganta que a gente tenta engolir junto com o café da manhã. Para S/n William, deixar o Brasil não era apenas mudar de endereço; era resetar a própria vida.

O som do despertador tocou exatamente às 04:30 da manhã, mas S/n já estava acordada.

Do seu quarto, no décimo andar de um prédio na agitada Avenida Paulista, em São Paulo, ela conseguia ouvir o burburinho sutil dos primeiros carros e o chiado da garoa fina que insistia em cair na capital paulista.

A mala principal, uma gigante vermelha de rodinhas, já estava trancada perto da porta.

S/n olhou ao redor do quarto quase vazio.

As paredes, antes cheias de desenhos e esboços a grafite, agora mostravam apenas as marcas desbotadas do que um dia foi seu refúgio.

- S/n! Vamos, filha! O Uber Black já está chegando, e você conhece o trânsito da Marginal Tietê a essa hora - chamou a voz firme, mas visivelmente ansiosa, de sua mãe, Mariana William.

Mariana tinha planejado cada segundo daquela transição com uma precisão cirúrgica.

Advogada bem-sucedida, ela havia conseguido uma transferência para um escritório em Los Angeles e, desde então, transformou a mudança em um projeto de vida.

Tudo estava impecavelmente organizado em pastas coloridas: vistos, comprovantes de vacina, contratos de aluguel e, claro, a carta de aceitação da escola.

No banco de trás do carro, a caminho do Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU), o silêncio era quebrado apenas pelo som baixo do rádio tocando uma MPB nostálgica e pelos resmungos de Léo William, o irmão mais novo de 12 anos, que ainda tentava dormir abraçado a um travesseiro de pescoço.

- Você revisou o inglês, S/n? - Mariana perguntou, olhando a filha pelo espelho retrovisor interno. - Sabe que a Bel-Air Academy of Fine Arts and Letters não é uma escola comum. É a elite da elite da Califórnia. Eles exigem excelência.

S/n engoliu em seco, olhando para a paisagem cinzenta da Rodovia Ayrton Senna que passava rápido pela janela.

- Revisei, mãe...

Mentiu suavemente.

A verdade era que o inglês de S/n era terrível.

Ela conseguia ler algumas coisas e entender músicas, mas a ideia de formular frases completas sob pressão fazia seu estômago dar nós.

O sotaque paulistano era forte, e travar na hora de falar era o seu maior medo.

Ela era uma artista.

Expressava-se melhor com um lápis de desenho do que com as palavras, mesmo em português.

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