~~//~~ Fevereiro, 2019 ~~//~~
Alguém aqui também tem uma família perturbada? Porque eu tenho. Minha mãe é um doce, mas meu pai... ah, não consigo gostar dele. Tenho só 13 anos, sei que sou nova, e minha mãe, Marta, acha que eu não percebo quando ela aparece com um olho roxo ou com um machucado na perna. Só quero que um dia eu e ela possamos sair dessa casa.
***
- Nós temos que contar para ela, Arthur! Eu não aguento mais tanto segredo! - eu escuto minha mãe gritar, eu sei que ela esconde algo de mim, mas não adianta, toda vez que pergunto algo, ela desvia de assunto.
- Você não entende, Marta, que se ela souber vamos morrer?! Para de teimosia! Guardamos isso por 13 anos! Vamos conseguir guardar mais - diz meu pai - Eu não quero ter que fazer você ficar quieta como da última vez! Aprende a obedecer seu Marido!
- Você não manda em mim, Arthu... - Tap! Ah não! Já é a quinta briga essa semana. Já chega, eu vou lá defender a minha mãe!
Quando começo a me aproximar da porta do meu quarto, ouvindo meus passos no chão, a porta se abre como se alguém tivesse a arrombado. Com o susto, caio no chão. Logo em seguida, meu pai, vermelho como um tomate, com suas sandálias imundas, joga minha mãe no meu quarto, fecha a porta e a tranca e só escuto sua voz do lado de fora:
- Agora, fique aí com a sua filha e não me encha o saco! Pense bem no que você me disse e... quem sabe eu te deixe sair mais tarde. Você sabe que eu te amo não é, Marta? Eu te amo, mas as vezes você me tira do sério, então, fica aí... tá?
Assim que escuto os passos dele se afastando, eu pulo na minha mãe, passando as mãos no seu rosto pálido e macio, que agora estava vermelho não só pelo tapa, mas pela intensidade de seu choro.
- Mãe, ele te bateu de novo, não foi?
- Não foi nada, filha, eu que me emocionei com uma foto e... - a interrompo.
- Mentira mãe! Eu ouvi o barulho do tapa, você tem que fazer alguma coisa! - Então, a abraço, passando as mãos nos seus lindos cabelos loiros que já iam ficando brancos, seus lindos olhos azuis estavam vermelhos como fogo, mas tudo o que podia fazer naquele momento era abraça-la e dizer o quanto a amo.
- Te amo, mãe.
- Também te amo, minha filha.
***
Na manhã seguinte, estamos eu, minha mãe e, infelizmente, o meu pai na mesa tomando nosso café. Nela tem um lindo bolo de milho, 5 pães num cesto de palha e uma garrafa térmica de café; não chega a ser um grade luxo, mas já é algo bom. Então minha mãe diz:
- Arthur, Letícia, eu recebi um telefonema de uma antiga amiga minha, a Eliza, lembra dela, amor?
- Eliza? Não, não lembro. Mas fala logo - diz ele enfiando um pedaço de bolo na boca feito um animal.
- Eliza! Você não lembra mesmo? En... - Meu pai a interrompe.
- Já disse que não lembro! Além de chorona e velha, é surda também, Marta?
- Vou fingir que não ouvi. - diz minha mãe quase cochichando - Enfim, ela está muito doente, e pediu minha ajuda para cuidar dela por uns tempos, só que ela mora lá em Santa Catarina, e como moramos aqui em Tocantins, vai ser uma longa viagem. Eu vou amanhã, volto daqui duas semanas, enquanto isso, Letícia?
- Sim, mãe.
- Você vai ficar com o seu pai, até eu voltar, tudo bem?
- Não! Não está tudo bem!
- Obedeça sua mãe, prometo que quando eu voltar, você vai ter uma surpresa! E cuide dele enquanto eu não estiver aqui.
- Já que não tenho escolha...
Eu mereço, Deus, eu mereço! Já estou vendo que essas "duas semanas" vão ser as PIORES de toda minha vida.
- Eu não quero você fora! Ela que venha aqui, quem é que vai pagar isso tudo? - Diz meu pai em um tom agressivo.
- Se esse for o problema, Arthur, não se preocupe, ela está arcando com os custos.
- Acho bom!
***
A noite, quando estou quase pegando no sono, escuto a porta abrir e o brilho da lâmpada invadir meu quarto pela fresta. É minha mãe, usando uma linda camisola preta, ela da um beijo em minha testa e fala baixinho:
- Espera minha filha, ainda vou tirar nós duas daqui, vamos ser muito felizes, só nós duas...
E caio sono.
***
Eu acordo as 9h e para minha infelicidade, minha mãe já tinha partido. Vou tomar café, e como já era esperado, uma pilha de louça se acumulava na pia. Minha mãe cuidava desses afazeres, e como ela não está, minha vez de ser a escrava.
***
Os dias vão passando, e as tarefas diárias são cada vez mais duras, até que finalmente, chega o dia da volta de minha mãe
***
- Letícia! Vem aqui! - ouço a voz do diabo, quero dizer meu pai, me chamar - Sua mãe chega hoje, e quero fazer uma surpresa de boas vindas para ela, ganhei um dinheiro no bar e dá para comprarmos uma cesta de doces para ela, o que acha?
Vai chover! Melhor, vai cair um dilúvio! Até que enfim um ato de cavalheirismo do selvagem do meu pai!
- Acho ótimo! Ela vai adorar!
- Perfeito, vamos lá na loja comprar a cesta, sua mãe disse que chega em 30 minutos, temos que sair rápido, se não ela chega e não temos nada, vamos lá!
Uma hora se passa, acabamos discutindo porque ficamos em dúvida entre 3 cestas, 3 lindas por sinal, mas escolhemos a melhor, com 10 barras de chocolate, 2 caixas de bombons preferidos da minha mãe, e lindas flores silvestres, colorindo toda a cesta, que estava enrolada em um plástico com corações, escrito: Te amamos!
Quando chegamos em casa, estranhamos porque estava um silêncio, e sabíamos que minha mãe já havia chegado pois as malas estavam na porta. Mas tudo bem, moramos em uma pequena fazenda um pouco afastada, então deixamos as coisas para o lado de fora, pois não há assaltantes por aqui.
Abrimos a porta e encontro uma poça de sangue perto da porta do meu quarto. Eu e meu pai corremos gritando e chamando pela minha mãe e... AH NÃO!!! MINHA MÃE ESTÁ... MORTA!!!
Quando olho a cena, desabo em choro, minha mãe, caída com um furo na lateral direita da cabeça, e em sua mão do mesmo lado, há uma arma.
Não pode ser!!! Minha mãe havia se matado. Foi tudo culpa do meu pai!
- Foi tudo culpa sua! Eu te odeio! Ela se matou por sua causa, se você não levantasse a mão pra ela, se fosse homem de verdade, se prestasse para ser um bom marido, isso nunca teria acontecido! - digo para o Arthur
Arthur, que já tinha largado a cesta e estava parado, olhando a cena, como uma criança que olha para o sorvete que acabou de cair no chão, não disse nada, apenas foi para a cozinha, pegou 5 latas de cerveja, e virou todas, uma por uma, de uma vez só, e ligou para a polícia.
E eu? Fiquei chorando em cima de uma poça de sangue, abraçando minha mãe, sentido sua pele pálida, que um dia foi quente, mas agora, fria como gelo.
Eu estava órfã...
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O Casarão.
General FictionLetícia é uma menina de apenas 13 anos que sofre a perda de sua mãe e vive um relacionamento conturbado com seu pai, Arthur. Depois de 7 anos, no leito de morte de Arthur, ela descobre que foi comprada quando bebê, então ela vai em busca de seus ver...
