Muitos matariam por sua carreira. As pessoas ainda têm a falsa ilusão que a indústria do entendimento é um mar de rosas e que não existe ninguém no mundo capaz de passar por cima de qualquer pessoa. Eu também pensava assim.
Minhas lembranças não são tão claras, mas naquela noite, algo em mim se quebrou.
Mesmo com o céu desabando lá fora, o evento de aniversário da Orien roubava toda a atenção da mídia. Naquele momento não existia outra marca em toda a Tailândia tão relevante. A influência dela começava a se entender e novos acordos para o exterior foram anunciados.
Siri Schuett e Malee Natsha posavam para incontáveis flashes e da minha mesa, eu assistia tudo. Os olhos da minha mãe brilhavam em satisfação. Os olhos da outra mulher ao seu lado, eram fingidos e opacos.
Depois de muita falácia com repórteres, nos reunimos no centro daquele enorme salão. Todos se vestiam bem, falavam e riam de coisas que eu não entendia um terço.
Siri pegou duas taças de champanhe, entregou uma à minha mãe e virou-se para seus convidados.
— Hoje à noite, se inicia uma nova era para a Orien. Um brinde à todos os nossos colaboradores e em especial à você, Malee. Minha melhor amiga.
Mais aplausos e ovações, eu acreditava que minha mãe era intocável. A melhor e maior do mundo. Se ao menos eu fosse um pouco mais crescida, teria percebido aquele teatro.
...
— Vamos para casa, querida. Sua mãe provavelmente pretende ficar mais um pouco. — Meu pai segurou minha mão após perceber que eu estava quase caindo no sono.
Nem sabia que horas eram.
— Eu preciso ir ao banheiro.
— Tudo bem, vamos lá.
— Eu já tenho 13 anos. Posso ir sozinha.
— 13 anos não é adulta. Vou com você até o corredor e espero por lá, ponto.
Resmunguei baixinho, vendo que não tinha jeito. Não havia pessoas pelos corredores próximos, mas eu ouvia muitas conversas e a música ficando cada vez mais baixa atrás de mim.
Quando voltei, notei meu pai inquieto com seu celular. Ele me levou de volta para o salão enquanto procurava alguém.
— Senhor, acalme-se. Ela deve estar em outro lugar. — Disse um dos seguranças. — Tem certeza de que não foi embora mais cedo?
— Não a vi com ninguém depois das 22:30. Faz mais de meia hora, ela simplesmente sumiu! — Havia desesperado na voz dele.
Um burburinho começou. Fomos para o carro e eu apaguei, exausta. Quando acordei em meu quarto pela manhã, jurei que estava sonhando. Algo no ar estava estranho.
Quando desci, meu pai estava na sala com dois policiais.
Foi aí que minha ficha começou a cair.
Dias viraram semanas e logo se transformaram em meses. Todos na festa foram ouvidos. Ninguém viu nada. Ninguém tinha pistas. O rosto da minha mãe, que antes não saía dos holofotes por conta da empresa, foi alvo de críticas e matérias sensacionalistas.
"O caso de Malee Natasha, co-fundadora e presidente da Orien, foi encerrado. Alguns acreditam em suicídio, outros em tráfico humano e até mesmo em assassinato. Sua parceira de negócios, Siri Schuett, lamentou a perda e expressou profundo apóio psicológico para a família de Natsha."
— Ela deixou seu marido e filha. Malee não era apenas uma colega de profissão, mas minha melhor amiga. É um momento extremamente difícil para mim. Me perdoem.
Abaixou o rosto para chorar enquanto os repórteres a enchiam de perguntas e miravam com suas lentes em busca das melhores fotos.
Aqueles malditos olhos, eram tão falsos como porcelana barata. Eu era nova demais para entender o porquê ela não me cheirava bem.
Atuou tão plenamente. Foi a minha casa e levou a família, usou roupas simples e maquiagem discreta.
— Eu lamento sua perda, mas eu sei que você é uma menina inteligente e corajosa. Um dia, ainda vai conquistar grandes coisas assim como ela. — Proferiu olhando nos meus olhos, sorriso contido como forma de apaziguar as coisas.
Atrás dela, uma menina, também me desejou pêsames. Eu não reparei muito em seu rosto.
...
— Miu, você está ouvindo?
Pisquei e olhei para minha psicóloga. Eu estava em mais uma sessão, perdi as contas de quantas fui desde a adolescência.
— Sim, só estava refletindo um pouco. Acho que progredi. Você me fez enxergar algo importante.
— Isso é ótimo! O que você acha de nós fazermos algo diferente na próxima, já que nosso tempo acabou por hoje?
— Não será necessário, essa é minha última vez.
A expressão confusa tomou conta de seu rosto e eu sorri naturalmente.
— O que quer dizer?
Massageei minha têmpora, estava com dor de cabeça. Não importa quanto tempo passe e nem quantas vezes eu venha para a terapia.
É um beco sem saída.
Com os anos, a Orien se tornou ainda maior. Novas filiais, contratos e rostos estampando outdoors por toda Bangkok. Enquanto isso, o nome de Malee Natsha desaparecia pouco a pouco da história da empresa que ela ajudou a criar. Como se nunca tivesse existido.
— Miu?
— Me desculpa, Doutora. Você não pode me ajudar.
...
Me sentei no sofá, depois peguei o notebook sobre a mesinha.
Tentei seguir em frente. Meu pai fez de tudo para preencher aquele vazio, mesmo estando tão quebrado. Nunca acreditei na polícia, nas manchetes dos jornais e nos especialistas da televisão.
Ainda tinha pesadelos.
Onde ela poderia estar? Ela viu ou ouviu algo que não deveria e por isso foi apagada dessa forma?
Me vi afundando. Por mais que tentasse ligar os acontecimentos, nenhum deles batia. Não conseguia aceitar. Alguém simplesmente cobriu todas as provas e ninguém ali teria poder para isso a não ser os Schuett.
Procurar respostas do lado de fora não adiantaria de nada, eu precisava entrar. Certamente não como Miu Natsha, mas como alguém que a própria Orien desejaria.
Foram anos me preparando. Aulas de passarela, expressão corporal, idiomas, marketing de imagem. Aceitei todos os trabalhos que sabia que me levariam até onde eu queria estar. Criei uma nova eu e enterrei meu sobrenome tão fundo que ninguém conseguiria associá-lo à antiga cofundadora da empresa.
Para a mídia eu era Narin Saengchan. Eu tinha uma agente, eu tinha um plano, eu tinha fontes e conhecimentos o suficiente. Eu era descrita como promissora, simpática e sexy. Ganhando cada vez mais atenção e seguidores.
"Tem uma elegância clássica nela que lembra as supermodelos de antigamente."
"A câmera ama essa garota."
"Ela consegue ser delicada e intimidadora ao mesmo tempo. É raro encontrar alguém com essa presença."
"Nova obsessão desbloqueada: Narin Saengchan!"
Sorri enquanto lia os comentários na tela. Depois, reabri a aba onde o rosto de Siri estava estampado em uma matéria. Uma nova coleção estava prestes a ser lançada e essa seria minha oportunidade. Eu já tinha feito minha escolha.
E nada mudaria isso.
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Heartless - LenaMiu
FanfictionPara muitos, a Orien é a porta de entrada perfeita para o mundo do entretenimento e das passarelas. Para Miu Natsha, é apenas a ponte para sua vingança. Anos após o desaparecimento misterioso de sua mãe, uma das fundadoras da empresa, Miu assume uma...
