Capítulo 1 🎁

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O sedã cinza grafite parou em frente ao único casarão que não exibia luzes de pisca-pisca ou qualquer outra decoração de Natal naquela parte nobre de Ottawa.

Era uma construção taciturna. O jardim em volta da passagem de pedras claras não passava de alguns arbustos mal cuidados. Uma fonte velha de mármore, que parecia não ver água jorrando há pelo menos uma década, jazia no meio do caminho que ligava as grades da entrada até as portas da moradia. As paredes exteriores da casa eram pintadas de um cinza fúnebre e as janelas com grades finas e escuras vistas de longe faziam lembrar as grades de uma prisão. Os batentes das janelas e a pequena escadaria da entrada eram os únicos detalhes em cor clara daquela estrutura de simetria assustadoramente perfeita.

Martin tirou a chave da ignição com certo estresse. Foi convicto nos seus movimentos até desafivelar o cinto de segurança e pôr a mão na porta do carro. Chegou a segurar o gatilho da maçaneta, mas olhou de um jeito amargo para a enorme casa do outro lado da rua e hesitou em puxá-lo.

Will, do banco do passageiro, assoviou baixinho.

— Os fantasmas do Natal devem ter adorado fazer uma visitinha por aqui, não acha? — Comentou com um sutil sorriso.

Martin, no entanto, não expressou muita reação. Largou de vez a maçaneta interna da porta do carro e encostou-se no banco, cruzando os braços:

— Antes eles do que eu.

Ao ouvir o resmungo, Will voltou a atenção para seu noivo: o olhar baixo e o vinco entre as sobrancelhas deixavam claro que ele estava bem mais enfezado do que o usual.

Compadecido, tomou uma das mãos do homem e segurou-a entre as suas. Assim permaneceu, até que Martin começasse a falar:

— Minha mãe não tinha o direito de fazer isso comigo.

— Eu concordo. — Respondeu com assertividade. — Mas isso pode ser bem simples, na verdade.

— Se era simples, ela que viesse até aqui e não eu. — Rebateu, quase atropelando a fala do outro.

— A sra. Chevalier tem que receber os parentes dela para o almoço. Ela só te pediu um favor.

— Ela veio até mim e disse "entregue esse presente, é para o seu pai." Ah, sim: ela pediu "por favor", então tá tudo bem. — A ironia subiu à voz. — Não foi como se eu não tivesse tido chance de responder que eu não poderia pelos motivos que ela já conhece.

— Ei, ei. Se acalme.

— Você está vendo alguém estressado aqui?

— Estou vendo alguém bem rude.

— Jura? Me diga quem é.

— Olha, fala comigo quando quiser deixar esse sarcasmo besta de lado. — E soltou a mão de Martin, tirando-a de perto de si.

Martin, por sua vez, virou o rosto para o outro lado, o semblante ainda mais fechado que antes.

A visão pela janela do carro, entretanto, em nada era melhor. O casarão, que apesar da aparência conservada deveria ter no mínimo quatro décadas de idade, era deprimente demais para ser encarado por muito tempo. Ainda mais porque acusava o motivo de ter sido mandado até ali em plena manhã de Natal.

Abaixou o rosto e engoliu o orgulho.

— Me desculpe. — Martin tomou a mão esquerda de Will e beijou o anel que a adornava. — E-Eu... Só... Eu estou chateado. E acabei te chateando também. Desculpe.

Ele então repousou o dorso daquela mão sobre o próprio peito, acariciando com o polegar. Inspirou e expirou como se o ar pesasse, encarando o volante e depois a arquitetura medonha do casarão. Um nó de angústia se formou em sua garganta.

Quase como um presente de NatalHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora