Deitado na cama e encarando o teto, um homem bêbado entrava em devaneios sobre tudo o que não havia dado certo em sua vida. Lembrava-se das escolhas que tomou — e das que não tomou também. Ao seu lado, sobre a escrivaninha, uma lata de cerveja esquentava aos poucos. Ele sentia que havia chegado ao seu limite de bebedeira.
Antes de estar naquela situação contemplativa, havia decidido tomar um banho longo e demorado. Acabara de chegar do trabalho e, depois de acordar às quatro da madrugada e trabalhar por doze horas seguidas, com apenas uma hora de intervalo, estava exausto. Industriário, do setor de limpeza. Era isso que o definia havia trinta anos.
As pessoas não o notavam, não o olhavam; apenas se incomodavam quando ele aparecia, porque, quando chegava a hora da limpeza, o setor da fábrica parava e, com isso, a produção também. No trabalho davam vale-transporte, então todos os dias ele pegava um ônibus lotado até a zona industrial da cidade. Depois, precisava caminhar mais dez minutos até chegar à fábrica.
Era uma rotina desgraçada, mas ele pouco se importava com isso — ou pelo menos era o que parecia, já que, quando bebia, xingava o dono da empresa com todos os palavrões possíveis. Porque, além de bêbado, era um covarde.
Sempre reservava as sextas-feiras para si. Comprava dois fardos de latinhas e bebia sozinho enquanto escutava músicas em um rádio velho e tomava banho. As sextas eram ótimas. Ele podia cantar e sonhar com futuros “inalcançáveis”. Sonhava em ser cantor, tocar piano, pintar um quadro e até escrever um livro. Mas, quando a cerveja acabava — ou estava perto de acabar —, ele entrava em transe. O álcool fluindo pelo corpo incendiava as ideias mais mirabolantes que a mente pode conceber.
Perguntava-se por que nunca dava certo em nenhum relacionamento. Por que as mulheres não o achavam atraente? Eram os dentes? O cabelo? O rosto? Não sabia dizer.
Também se indagava sobre o motivo de não ter amigos. Era sem graça? Exaustivo? Desagradável? Também não sabia responder.
Sua vida solitária e pacata passava despercebida até pelo pedinte mais insistente da rua. Ninguém o notava. Ele não existia. Até mesmo no dia do pagamento, a moça do RH dizia:
— Eu tinha esquecido de você!
Todos os meses ela falava aquilo.
Isso é deprimente? Talvez. Passar despercebido pode ser bom até certo ponto; depende da forma como se olha para o mundo. O fato é que, quando criamos uma rotina repetitiva como a do bêbado, nos tornamos apenas máquinas. Muitos tentam preencher esse vazio com exercícios físicos, dietas restritas, saídas sociais e relacionamentos. Mas, no final, somos todos máquinas esperando alguma peça parar de funcionar.
O bêbado não era diferente de mim nem de você. Quer dizer, não era diferente no sentido da ambição. Ele se visualizava em um futuro promissor, mas como chegar lá?
Todos temos desejos e, para alcançá-los, precisamos ralar muito. Alguns percebem isso cedo. Outros percebem como o bêbado percebeu...
Deitado na cama, o frio do ar-condicionado começou a incomodá-lo. Ele o desligou e fechou os olhos por um longo momento. Em sua mente, lembrou-se de quando era criança e de como tudo parecia mais fácil naquela época. Sentia muito por não ter aproveitado melhor aqueles tempos.
Também visualizou a mãe preparando café coado pela manhã e passando manteiga no pão. Lembrou-se do cheiro do pai quando chegava do trabalho e de como o ajudava a tirar os sapatos, enquanto o aroma de talco subia pelo ambiente.
Ir tão fundo em memórias assim pode ser perigoso, porque acabamos entrando em áreas delicadas do cérebro. Ele se lembrou de quando o irmão morreu em um assalto, da mãe sofrendo um infarto e do desespero que sentiu quando o pai sofreu um acidente de carro durante a madrugada.
O bêbado começou a chorar. Soluçou como uma criança e se deitou de lado, em posição fetal. A bebida começava a dar sono, e sua bexiga estava cheia por causa da cerveja.
Alguns instantes depois, ainda choroso, levantou-se da cama e pegou a lata. Tomou um último gole do líquido quente antes de amassá-la com o pé e jogá-la no lixo. Andou pela sala escura, iluminada apenas pela luz acesa do banheiro. Caminhava devagar para não tropeçar enquanto enxugava as lágrimas.
Quando chegou ao banheiro, jogou a lata amassada na lixeira, passou pelo espelho da parede, levantou a tampa da privada e começou a urinar. Fechou os olhos e respirou fundo, inclinando levemente a cabeça para trás. Quando terminou, lavou as mãos bem devagar. O sabão escorria pelo ralo, e ele observava tudo de forma distante, como se estivesse desconectado da realidade.
Então algo aconteceu.
Uma coisa que poucos veem e quase ninguém sente. Uma emoção sagrada, dada por Deus apenas àqueles que realmente precisam de um milagre.
Ele ergueu a cabeça e encarou o próprio reflexo no espelho. Seus olhos encontraram os do reflexo, e um arrepio desconcertante percorreu seu corpo. O que via não o agradava. Era diferente da imagem que acreditava transmitir às pessoas, e isso o assustou.
Sua aparência estava decadente: barba por fazer, olhos exaustos, olheiras marcadas pelas inúmeras madrugadas acordando cedo demais. Naquele exato momento, uma onda de náusea o atingiu, e ele despejou tudo o que havia bebido e comido na privada.
Quando terminou, sentiu como se um peso tivesse sido arrancado de seus ombros. Sentia-se leve. Limpo. Como nunca antes.
O que aquele homem teve foi clareza.
Conseguiu perceber o tempo que havia perdido, o mal que fazia a si mesmo, a dor que causava ao próprio espírito, o veneno que consumia todos os dias em horários marcados e o ritual de autodestruição que repetia todas as sextas-feiras.
Depois daquele momento de clareza, o homem arrumou a casa inteira. E, na segunda-feira, deu-se o luxo de chegar atrasado ao trabalho. Dessa vez, sua caminhada de dez minutos até a empresa não foi apenas mais um hábito mecânico. Havia propósito nela.
Ao chegar à fábrica, enquanto os colegas tomavam café da manhã, foi até o RH e pediu demissão com aviso prévio, para garantir o próprio dinheiro. E assim fez. Saiu dali orgulhoso de si mesmo. Sentiu-se realizado e prometeu que daria um jeito na própria vida.
Ou pelo menos era isso que teria acontecido...
Se o bêbado não tivesse apenas dormido e sonhado com tudo aquilo.
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Persona
Ficción GeneralUma Antologia com Dez partes, dez personas e dez vivências. Com qual delas vocês se identificam?
