Point of view- Alessandra
Eu olhei para o relógio no painel do carro. 17:50. Estava quase na hora de buscar Helena. O trânsito de São Paulo estava infernal como sempre, mas eu não me importava. Minha mente estava longe, presa na conversa que tivemos de manhã.
Helena havia confessado durante o café da manhã. Com aquela voz baixa e vulnerável que sempre me desmonta, ela disse que estava sentindo falta. Falta de ter uma baby. Alguém para cuidar, para proteger, para amar do jeito que nós duas sabemos fazer. Já faz mais de três anos que não temos ninguém. Três anos desde aquela desgraçada que quase destruiu tudo.
Apertei o volante com força só de lembrar. Ainda sinto um ódio profundo quando penso nela. Aquela interesseira só queria nosso dinheiro, nosso conforto, nossa estabilidade. No final, ela machucou Helena de um jeito que eu nunca vou perdoar. Vi minha esposa chorar por semanas, se questionar, se fechar. Ver Helena sofrendo daquele jeito quase me matou. Por isso, mesmo que eu também sinta falta - mesmo que às vezes eu imagine como seria ter alguém novo para chamar de "baby", alguém que realmente merecesse nosso carinho -, eu tenho muito medo.
Não quero arriscar. Não quero ver Helena passar por aquilo de novo. Eu a protejo desde o dia em que nos apaixonamos e não vou falhar agora.
Suspirei e virei na avenida em direção ao hospital. O carro deslizava suavemente no trânsito. Eu tinha prometido a ela que iríamos jantar fora hoje para relaxar. Precisávamos disso.
Assim que parei o carro na frente do hospital, eu a vi. Helena estava lá, esperando na calçada, ainda com o jaleco branco. O cabelo com aquelas mechas loiras estava preso, e ela carregava aquela bolsa que eu já conheço de cor. Quando ela me viu, seu rosto se iluminou.
Desci do carro. Helena veio andando rápido na minha direção, segurou meu rosto com as duas mãos e me deu um beijo na boca, carinhoso e demorado. Eu fechei os olhos e correspondi, sentindo o gosto familiar dela.
- Oi, meu amor... - murmurei contra os lábios dela.
- Oi, Lessa - ela respondeu baixinho, com aquele tom carinhoso que só ela usa. - Saudade de você.
Dei um sorriso pequeno e beijei sua testa.
- Entra, meu bem. Reservei mesa no Tuju hoje. Achei que a gente merecia algo bom.
Helena abriu um sorriso surpreso e entrou no carro. Assim que fechei a porta do passageiro e voltei para o meu lugar, ela estendeu a mão e entrelaçou nossos dedos.
Enquanto eu dirigia em direção ao restaurante, ainda pensava na conversa da manhã. Eu queria dar tudo para Helena. Queria vê-la feliz, completa. Mas o medo ainda era maior que a vontade.
Talvez um dia a gente consiga confiar de novo.
Talvez.
- Como foi o dia no hospital, meu bem? - perguntei, sem tirar os olhos da rua. - Conseguiu resolver aquele problema do cirurgião?
Helena soltou um suspiro cansado, mas aliviado.
- Consegui. Foi demitido hoje de manhã. O hospital não podia mais segurar depois das denúncias que apareceram. Já tinha muita gente falando, e as provas eram fortes. Eu cuidei pessoalmente do processo. Agora ele não vai mais trabalhar lá.
- Que bom - respondi, sentindo um leve alívio. - Você fez o certo. Não dá pra deixar gente assim dentro de um hospital.
- Eu sei. Foi difícil, mas necessário - ela disse, olhando pela janela. - Mas agora está resolvido. Podemos respirar mais aliviadas.
Eu assenti, gostando de ouvir isso. Helena sempre foi forte, mas eu sabia o quanto esse tipo de situação a afetava. Estiquei a mão e segurei a dela por um momento.
KAMU SEDANG MEMBACA
Entre Cicatrizes e Recomeços
Fiksi PenggemarSinopse Aurora Maria Mendes sempre acreditou que estava destinada a enfrentar tudo sozinha. Entre a faculdade, o trabalho e uma relação conturbada com a mãe, ela aprendeu a sobreviver, mesmo carregando feridas que ninguém conseguia enxergar. Do outr...
