Prólogo

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O ensaio tinha ido até quase meia-noite.

Eu saí do prédio de artes com a mochila nas costas, o cabelo castanho ainda meio preso e um cansaço no corpo que era ao mesmo tempo físico e satisfatório - o tipo de cansaço que só aparece quando você deu tudo que tinha. As ruas do Village estavam úmidas. Tinha chovido no início da noite e as calçadas refletiam a luz dos postes em poças irregulares, e o ar tinha aquele cheiro de asfalto molhado que eu havia aprendido a gostar sem perceber exatamente quando.
Coloquei o fone de ouvido, escolhi uma playlist sem pensar muito, e comecei a andar.

Onze minutos até o dormitório. Eu sabia porque havia cronometrado uma vez, no primeiro mês, quando ainda contava cada minuto do dia como se pudesse perder alguma coisa importante se piscasse. Agora andava sem pressa, deixando a cidade fazer barulho ao redor - uma sirene longe, uma conversa vazando de um bar, o metrô passando embaixo da rua com aquela vibração surda que eu sentia mais nos pés do que ouvia.

Estava completamente dentro da própria cabeça.

A cena do segundo ato não havia saído como eu queria. Tecnicamente estava certa - marcação, respiração, projeção, tudo no lugar - mas havia alguma coisa que ainda não estava viva do jeito que precisava estar. O professor Alderman não havia dito nada, o que às vezes era pior do que ele dizer alguma coisa. O silêncio dele depois de uma cena podia significar duas coisas: ou estava tão bom que não havia nada a acrescentar, ou estava tão longe do que ele queria que ele nem sabia por onde começar.

Eu sabia que não era a primeira opção.
Estava tão dentro dessa análise mental que quase não vi a porta lateral do Palladium Athletic Facility abrir bem na minha frente.
Quase.

Dei um passo pro lado por instinto. Ele também. Por meio segundo os dois ficamos num impasse ridículo no meio da calçada - eu com o fone no ouvido, ele com uma sacola de equipamentos no ombro e o cabelo loiro ainda úmido de chuveiro, os dois processando a existência um do outro como se nenhum dos dois esperasse encontrar ninguém naquele pedaço específico de calçada àquela hora.

- Desculpa. - Ele foi o primeiro a falar.

- Foi mal. - Eu dei outro passo pro lado.

Ele sorriu - rápido, sem pensar, o tipo de sorriso que aparece antes da pessoa decidir sorrir - e então seguiu na direção oposta.
Eu continuei andando.

Tirei o fone por um segundo, sem saber bem por quê. O barulho da cidade entrou de uma vez - o vento, os passos dele se afastando, uma buzina longe. Depois coloquei o fone de volta e deixei a música engolir tudo de novo.
Não pensei mais nisso.

Ou pelo menos foi o que eu disse pra mim mesma.

Kali estava acordada com o notebook no colo quando eu entrei no quarto.

- Você parece um fantasma - ela disse, sem tirar os olhos da tela. - Um fantasma cansado. Com mochila.

- Obrigada. - Joguei a mochila na cadeira e fui direto ao banheiro.

- Como foi o ensaio?

- A cena do segundo ato ainda não tá certa.

- Mas você tá certa?

Apareci na porta do banheiro com a escova de dente na mão e fiquei com a pergunta por um segundo mais do que o necessário. Era o tipo de coisa que só a Kali perguntava. Todo mundo queria saber como tinha sido o ensaio, como estava a peça, se o professor havia gostado. Ela sempre queria saber como eu estava, como se os dois fossem coisas completamente diferentes - e irritantemente, quase sempre eram.

- Tô chegando lá.

Ela me lançou aquele olhar. O que eu havia aprendido a reconhecer em dezoito meses de quarto compartilhado - o olhar que significava eu tô te avaliando e você não tá me enganando mas vou deixar passar por agora.

- Marcus perguntou se você vai no café amanhã de manhã.

- Vou.

- Ele vai querer falar sobre a peça.

- Ele sempre quer falar sobre a peça.

- Porque ele é o único amigo que você tem que aguentou ver você ensaiar o mesmo monólogo trinta e oito vezes.

- Ele não aguentou - corrigi, voltando pro banheiro. - Ele pediu pra ver.

- É. - Ouvi ela sorrir mesmo sem estar olhando. - Ele é um pouco perturbado.

Escovei os dentes, lavei o rosto, fiquei por um momento olhando pro espelho com aquela expressão vaga de quem está cansado demais pra ter pensamentos completos. Havia alguma coisa pequena no fundo da cabeça, um resíduo de alguma coisa que havia acontecido no caminho pra casa - uma fração de segundo, uma calçada molhada, um sorriso que apareceu antes de a pessoa decidir sorrir.

Pisquei.

Apaguei a luz do banheiro.

- Boa noite, Kali.

- Boa noite, fantasma.

Deitei, fechei os olhos, e deixei o barulho distante da cidade fazer o trabalho de apagar o resto dos pensamentos.

Funcionou.

Quase.

Sem Ensaio🎭🏀Stories to obsess over. Discover now