J.,
Meu Irmão,
Sei que pode lhe parecer esquisita essa minha forma de parabenizar você, porque não faz parte dos meus melhores hábitos ser decente em comemorações presenciais como a que se passou; uma vez que não sei ao certo como agir, como sorrir, falar e entre outras tantas coisas. Apesar do meu comportamento estranho, por favor, não pense que não sou feliz por ter você em minha vida.
Ao contrário do que demonstro, não seria suficiente para mim lhe desejar apenas um "Feliz Aniversário" , ao passo que, em meu coração, há muito mais a ser dito sobre você.
Embora haja muito, prometo que tentarei ser breve.
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Talvez isso seja um anticlímax, mas serei honesta em contar que não gostaria que o tempo avançasse; queria que os aniversários parassem, ou que pelo menos, de forma mágica, fossem comemorados com o mesmo número na vela para sempre.
Sendo indecisa como sou, refleti bastante sobre isso. Por esse motivo, pensei que talvez quisesse que na sua vela tivesse o número 20.
Acredite, preferiria ouvir: você brigando comigo para arrumar o quarto, colocando suas músicas em alto e bom som, você falando de forma medonha às três da manhã enquanto dormia; o bendito despertador, às cinco horas da manhã, com a música Breaking the law, ao invés do silêncio de que tanto gosto.
Ou provavelmente eu escolhesse o número 15, com maior preferência, porque foi quando tive a certeza de que poderia contar com você.
Foi quando um menino que gostava de me aporrinhar puxando o meu cabelo, — não sei ao certo se lhe disse ou se você viu — mas você foi lá, com seu grupo de amigos, cobrar satisfações dele. Ali, naquela época, achei engraçado, pensei que talvez você tivesse ido além da situação; mas senti orgulho. E, acima de tudo, soube que você me defenderia até dos menores incômodos.
Seria muito possível que fosse 10 minha decisão final, por você ter feito com que me sentisse útil, aos 6 anos, em poder lhe levar as bolachas salgadas que você gostava.
Lembro do dia em que você me pediu, e só havia uma. — Foi durante a época das vacas magras (talvez nem tivéssemos vacas) — Mesmo famintos, compartilhamos daquela unidade enquanto arrumávamos a corrente da sua bicicleta. O óleo da corrente prendia na mão e era terrível de sair, mas eu me sujaria todos os dias para que me sentisse necessária para você.
Ou talvez eu desejasse, ainda mais, que tivesse na sua velinha o número 7; porque assim, eu teria, todos os anos, o prazer de lhe conhecer como se fosse a primeira vez; pois foi aos três anos que tive o privilégio de saber que você era o meu irmão.
Não queria que nada mudasse. Não queria que você tivesse ido embora de casa. Não queria que você tivesse crescido. Apesar de eu ser a mais nova e esse sentimento devesse ser exclusivo dos irmãos mais velhos, sinto isso por você.
É um sentimento egoísta, eu sei. Levando em consideração o quanto você conquistou para retroceder. Constituiu uma família que te ama e se tornou um homem admirável que luta para pôr o melhor para ela. Saiba que S. tem a honra de lhe ter como pai.
Você cresceu. Em todos os sentidos.
Mas é claro que a infinidade de um ano não é possível; e é por isso que ter estado perto de você naquele dia, que quase me deprimiu, me trouxe um vislumbre daqueles sentimentos do passado. Eu senti falta.
Mas soube que poderíamos partilhar, do mesmo modo que aquela bolacha salgada, esses pequenos momentos da nossa única vida finita. E que, diferente da pequena refeição, serão eternos.
Com amor,
Sua irmã,
A.
