Prólogo

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Eu odeio a chuva.

Algumas pessoas gostam do som das gotas a bater na janela. Dizem que é relaxante. Outras gostam do cheiro da terra molhada ou de ficar enroladas num cobertor enquanto observam a tempestade lá fora.

Eu não.

Sempre que começa a chover, o meu peito aperta. Sempre que ouço um trovão, o meu coração dispara. E sempre que o céu escurece, sou transportada para a pior noite da minha vida.

A noite em que perdi o meu irmão. Eu tinha dez anos. Ainda me lembro de cada detalhe como se tivesse acontecido ontem.

Lembro-me do vestido azul que estava a usar. Lembro-me do cheiro da comida que a minha mãe preparava naquela noite. Lembro-me do desenho que estava a fazer no chão do meu quarto. E lembro-me dele.

Benjamin Hale. O meu irmão. O meu melhor amigo. O meu herói.

Ben era sete anos mais velho do que eu. Para toda a gente, ele era apenas um menino de dezassete anos. Para mim, era muito mais. Era a pessoa que me ensinava a andar de bicicleta. Era quem me ajudava com os trabalhos da escola.

Era quem afastava os monstros debaixo da minha cama quando eu tinha pesadelos. Era quem me fazia sentir segura.

Lembro-me de estar sentada no chão do meu quarto naquela tarde, rodeada por lápis de cor.

Estava a fazer um desenho para ele. Uma coisa simples. Eu, ele e os nossos pais. Uma família. A minha família.

— Íris! — ouvi a voz da minha mãe vinda da cozinha. — Vem jantar!

— Já vou! — Não fui. Continuei a colorir. Queria terminar o desenho antes de mostrar ao Ben.

— Íris Hale! — Desta vez foi o meu pai. Suspirei.

— Estou a ir! — Levantei-me do chão e corri para a cozinha. A minha mãe colocou um prato à minha frente.

— Um dia destes vais casar com os teus desenhos.

— Nunca.

— Tem a certeza? — perguntou o meu pai.

— Tenho, papai. — Eles riram-se. Eu também. Era uma noite normal. Uma noite perfeitamente normal. Se alguém me tivesse dito que poucas horas depois a minha vida mudaria para sempre, eu não teria acreditado.

Depois do jantar, sentei-me na sala. Ben ainda estava no treino de futebol. Nada de estranho. Acontecia várias vezes. Peguei no telemóvel da minha mãe e enviei-lhe uma mensagem.

"Quando vieres para casa, traz chocolate."

Era algo que eu fazia constantemente. Sempre que ele passava perto de uma loja. Sempre que me apetecia alguma coisa. Sempre que queria implicar com ele. Porque sabia que ele nunca dizia não. Minutos depois recebi a resposta.

"Mandona."

Sorri. E respondi:

"És o melhor irmão do mundo."

Ele demorou alguns segundos. Depois enviou:

"Eu sei, também sou o único que tens 😏."

Revirei os olhos. Arrogante. Era tão arrogante. Mas eu adorava-o. Foi a última conversa que tive com ele. A última. Se eu soubesse disso...

Talvez tivesse escrito mais alguma coisa.

Talvez lhe tivesse dito que o amava.

Talvez lhe tivesse agradecido por tudo.

Mas não sabia.

Ninguém sabe quando está a viver o último momento com alguém. A chuva começou pouco depois. No início eram apenas algumas gotas. Depois vieram mais. E mais. E mais. Até que a tempestade tomou conta de tudo. Lembro-me dos trovões. Dos relâmpagos. Do vento. Lembro-me de olhar pela janela e sentir medo. Nunca gostei de tempestades. Mas naquela noite parecia diferente. Mais intensa. Mais assustadora.

— O Ben já devia ter chegado — comentou a minha mãe preocupada. Olhei para o relógio. Era verdade. Já estava atrasado.

— Talvez esteja preso no trânsito — respondeu o meu pai. Mas a voz dele não parecia convencida. A chuva continuava a cair. O tempo passava. E o Ben não aparecia.

O papai tentou ligar. Uma vez. Duas. Três. Nada. Sem resposta. Foi aí que comecei a ficar nervosa. Não muito. Apenas o suficiente para sentir um aperto estranho no estômago.

— Ele está bem, não está? — Lembro-me de ter feito essa pergunta. O meu pai respondeu imediatamente.

— Claro que está. — Mas os olhos dele diziam outra coisa. E eu percebi. Porque as crianças percebem mais do que os adultos imaginam. Depois de um tempo, alguém bateu à porta. Lembro-me disso também.

Lembro-me de correr até lá. Porque tinha a certeza de que era ele. Tinha mesmo. Mas não era. Era a nossa vizinha. E bastou olhar para o rosto dela para perceber que alguma coisa estava errada. Muito errada.

Os adultos começaram a conversar. Eu não entendia tudo. Ouvi palavras soltas.

"Acidente."
"Estrada."
"Hospital."

Foi só isso. Mas foi suficiente. O medo instalou-se dentro de mim. Um medo que nunca mais desapareceu. A viagem até ao hospital foi em um completo Silêncio. A minha mãe chorava. O meu pai conduzia sem dizer uma palavra. E eu observava a chuva a escorrer pelo vidro.

Sem compreender completamente o que estava a acontecer. Sem saber que estava prestes a perder a pessoa que mais amava.
Quando chegámos ao hospital, tudo parecia estranho. Frio. Branco. Silencioso.

Uma enfermeira aproximou-se. Falou com os meus pais. E eu vi. Vi a expressão deles mudar. Vi o mundo deles partir-se. Vi a minha mãe desabar. Vi o meu pai perder a força nas pernas. E, naquele instante, soube. Antes mesmo de ouvir as palavras. Soube.

— O teu irmão morreu. — Ainda consigo ouvir essa frase. Ainda hoje. Ainda agora. Como se estivesse a ser repetida dentro da minha cabeça. Todos os dias. Todos os anos.
Para sempre. Lembro-me de não acreditar. Lembro-me de achar que era um erro. Uma confusão. Uma mentira.

Porque o Ben não podia morrer. Ele era o Ben. O meu Ben. Os irmãos mais velhos não morrem. Os heróis não morrem. Mas eu estava errada. Eles morrem.

E quando isso acontece levam uma parte de nós com eles. Durante muito tempo culpei-me. Porque foi por minha causa que ele parou naquela loja.

Por minha causa que atravessou aquela estrada. Por minha causa que estava naquele lugar naquela hora.

Eu sei que os meus pais dizem que não foi culpa minha. Os psicólogos também disseram. Toda a gente disse.

Mas às vezes o coração não acredita naquilo que a mente sabe. E durante anos eu carreguei esse peso. Sozinha. A chuva tornou-se um lembrete constante.

Sempre que começava a chover, eu voltava a ser aquela menina de dez anos. Assustada. Perdida. Partida. E mesmo agora, sete anos depois, ainda acontece. Ainda sinto medo. Ainda sinto dor. Ainda sinto saudades.

Porque algumas perdas nunca desaparecem. Aprendemos apenas a viver com elas. Olho pela janela do meu quarto. As nuvens escuras aproximam-se. Um trovão ecoa ao longe. E o meu coração aperta. Como sempre. Fecho os olhos. Respiro fundo. Mas a lembrança continua lá. Sempre vai continuar.

Porque eu sou Íris Hale. E a chuva levou o meu irmão. Só que ela não levou apenas ele.
Levou também a menina que eu era antes daquela noite.

Olá, meus amores.
Mais uma história para vocês.
Espero que gostem.

Votem e comentem, não sejam leitores fantasmas.

Beijos

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