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O silêncio do quarto era quebrado apenas pelo som áspero e ritmado da ponta de uma caneta esferográfica arranhando o papel com uma força quase destrutiva. Sentado à escrivaninha sob a luz fraca e amarelada de um abajur barato, Rin Itoshi sustentava uma expressão de puro asco, os fios esverdeados de seus cabelos caindo desalinhados sobre a testa enquanto ele descontava sua frustração nas páginas de seu diário. A atmosfera ao seu redor exalava o cansaço típico de uma rotina sufocante, mas o verdadeiro peso em seus ombros não vinha das cobranças acadêmicas.

Era mais um dia comum, o que significava, inevitavelmente, mais uma dose diária de importunação vinda de seu irmão mais velho. Sae estava longe, morando no campus da prestigiada Faculdade de Tóquio, em outra cidade, cruzando os meses finais para se formar e, se o destino cooperasse, carimbar seu passaporte definitivo para a Espanha, onde ficaria ainda mais distante.

Distância geográfica, no entanto, parecia ser um conceito abstrato para Sae Itoshi, que jamais perdia o hábito de estender seus tentáculos invisíveis para perturbar a paz do irmão caçula através de ligações e mensagens incessantes.

Abaixo, as palavras ganhavam vida na folha pautada, escritas com uma caligrafia ríspida, angulosa e carregada de irritação:

"Mais um dia, mais um desabafo de Rin Itoshi.

Eu quero que o meu irmão arrume uma namorada ou um namorado logo. Eu não aguento mais. Isso se repete todos os dias, todas as semanas, todos os meses de todos os malditos anos. TODA HORA. Ele me bombardeia com o mesmo interrogatório imbecil e repetitivo: 'E as namoradinhas? Como vão os seus relacionamentos? Já arranjou alguém? Você está muito estressado, Rin, precisa de uma namorada'. Pelos deuses, são todos os dias com a mesma ladainha. E o pior de tudo é que ele parece sofrer de alguma amnésia conveniente, porque esquece que já fez a mesma pergunta pela manhã e repete a dose até quatro vezes antes de o dia acabar.

Eu sinceramente não sei em que momento da nossa existência o Sae decidiu que tinha o direito de se intrometer na minha vida e de tratar o meu status romântico como se fosse o evento mais crucial do universo. Estou completamente de saco cheio. Quando arrumei minhas malas e vim morar longe, tive a doce ilusão de que ele finalmente me deixaria em paz, que focaria na própria carreira e esqueceria que eu existo. Mas a realidade foi o oposto. Parece que o distanciamento só aguçou o sadismo dele.

Então, se existir alguma força maior neste universo — seja Jesus, Buda, Afrodite, Maria Padilha, Azazel, Vênus, Freya, Ísis ou Parvati, não me importa a mitologia —, se existir qualquer entidade divina escutando, por favor, faça um milagre e jogue um namorado ou uma namorada na vida dele. E se um único infeliz não for suficiente para contê-lo, que apareçam dois, três ou até dez de uma vez, contanto que o mantenha ocupado o bastante para esquecer o meu número de telefone e me dar um descanso.

Eu amo o meu irmão, no fundo, mas achei que com a nossa carga horária de estudos extenuante eu finalmente ganharia um pouco de privacidade. Grande engano.

Espero do fundo do meu coração que algum dia ele encontre uma sarna bem grande para se coçar e pare de me encher com essas perguntas idiotas. O Sae consegue ser mais insuportável e persistente do que um mosquito zumbindo no ouvido no meio da noite; se ele continuar me testando desse jeito, a próxima vez que o vir não vai ter diálogo, vou ser obrigado a resolver isso na porrada."

Rin fechou o caderno com um baque seco, jogando a caneta sobre a madeira escura da mesa. Ele soltou o ar pesadamente pelos lábios, recostando-se na cadeira enquanto massageava as têmporas pulsantes. A menção dramática a uma legião de deuses e demônios fora apenas um reflexo de seu desespero hiperbólico, um clamor por silêncio que ele julgava que jamais cruzaria as paredes daquele quarto.

Mal sabia que, nas alturas burocráticas do plano celeste, o eco de sua caligrafia furiosa acabara de disparar um alerta vermelho no painel de controle do destino, selando o início de uma missão que viraria a vida de seu irmão mais velho — e de um certo cupido estressado — completamente de cabeça para baixo.

Eros - KaiIsaSaeStories to obsess over. Discover now