Cinderela 1

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A pequena garota tinha cabelos dourados como fios de sol, olhos azuis tão claros quanto o céu de inverno e uma pele delicada que lhe dava uma aparência quase angelical. Filha de um visconde respeitado, vivia em uma vasta propriedade cercada por jardins floridos, árvores antigas e o perfume constante das ervas que cresciam na floresta ao redor.

Todos diziam que ela era um doce de criança.

E talvez fosse.

Ela amava preparar pequenos chás para a mãe — misturas de flores, folhas e ervas que recolhia sozinha pela mata. Sua mãe sempre sorria ao beber, mesmo quando o gosto amargo lhe queimava a garganta.

Mas, com o passar das semanas, a mulher começou a adoecer.

Primeiro vieram as tonturas.

Depois as náuseas.

Então a febre.

Aos poucos, sua pele perdeu a cor, os lábios ficaram secos e esbranquiçados, e seus olhos passaram a carregar um cansaço quase morto.

Nenhum médico conseguia compreender a doença que a consumia por dentro.

Desesperado, o visconde partiu em viagem em busca de um tratamento raro, deixando esposa e filha sozinhas na mansão silenciosa.

Naquela noite, o quarto da mulher estava mergulhado na penumbra. O som da chuva batia suavemente contra as janelas enquanto ela permanecia deitada, fraca demais até para erguer a cabeça.

A porta rangeu devagar.

— Mamãe… eu trouxe seu chá.

A menina entrou carregando uma pequena xícara fumegante entre as mãos delicadas. Seu sorriso era gentil. Quase doce demais.

A mãe tentou sorrir de volta, mesmo tremendo.

— Obrigada, querida…

Ela levou a xícara aos lábios e bebeu.
Por alguns segundos, nada aconteceu.

Então veio a tosse.

Violenta.

Desesperada.

Seu corpo se curvou sobre a cama enquanto manchas vermelhas tingiam os lençóis claros. O líquido escarlate escorreu por seus dedos trêmulos.

A mulher arregalou os olhos em horror.
E ouviu.

Uma risada.

Baixa.

Infantil.

A pequena garota observava tudo ao lado da cama, sorrindo com a cabeça levemente inclinada.

— Ah, mamãe… foi tão bom enquanto durou.

A mulher tentou falar, mas apenas sangue escapou de sua boca.

— Você já não era útil como antes… então eu precisei fazer alguma coisa.

A menina apoiou delicadamente a xícara vazia sobre a mesa de cabeceira.

— Todos os dias eu colocava pequenas quantidades de ervas venenosas no seu chá. Quantidades tão pequenas que ninguém perceberia… mas venenos também aprendem a crescer dentro das pessoas.

Ela se aproximou lentamente da cama.

— E essa foi a última dose.

Lágrimas escorriam pelo rosto da mulher enquanto ela encarava a própria filha sem conseguir reconhecer aquela criança diante dela.

Mas a menina apenas continuava sorrindo.

Um sorriso pequeno.

Calmo.

Quase carinhoso.

Até que, finalmente, o corpo da mulher parou de se mover.

O quarto ficou em silêncio.

A garota observou o cadáver por alguns segundos… e então seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente.

Ela correu pelos corredores da mansão gritando em desespero.

— SOCORRO! MAMÃE NÃO ACORDA!

Seu choro ecoava pela casa inteira.

E ninguém desconfiaria daquela doce garotinha de aparência angelical.


Afinal…


Monstros nem sempre parecem monstros.

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⏰ Last updated: May 27 ⏰

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