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O barulho das grades batendo já faz parte da minha rotina há tempo suficiente pra eu parar de me incomodar. O problema não é o som. Nunca é. O problema é a mente. Ela não desliga aqui dentro.

A cadeia ensina isso rápido.

Tu pode ser o homem mais frio da favela, o mais respeitado, o mais temido, o mais pica, chega aqui dentro e aprende que existe um silêncio pior que tiro: o silêncio da tua própria cabeça.

Tô sentado no canto da cela, apoiado na parede, observando o movimento enquanto os caras conversam alto perto das camas. Eu fico quieto. Sempre fico.

Cabeça: Sábado é visita íntima, pai... — ele comenta rindo. — Já tô até mais calmo.

Neguinho: Calmo nada, parceiro. Tá é ansioso pra descarregar logo.

Eles começam a rir.

Neguinho: E tu, Major? — ele pergunta, me olhando de canto. — Tua mulher vem?

Ergo os olhos devagar pra ele.

— Não tenho mulher.

Nenguinho: Ihhh... — ele zoa na hora. — O chefão tá abandonado.

Cabeça: Tu tá ferrado então. Sem visita íntima tu vai acabar surtando aqui dentro.

Dou uma risada curta.

— Tô tranquilo.

Cabeça: Tranquilo porra nenhuma — ele rebate, sério. — Homem preso sem mulher fica maluco. Ainda mais tu que vivia rodeado de mulher.

Neguinho: Verdade — ele fala. — As novinha da favela tudo pagava pau pro Major.

Ignoro. Os caras continuam rindo e falando besteira, mas eu paro de prestar atenção depois de um tempo. Fico olhando pro teto, ouvindo só pedaços da conversa enquanto minha cabeça vai longe.

A verdade? Talvez eles tenham razão. Não sobre mulher. Mulher nunca me faltou. O problema é outra coisa. É o toque.

É lembrar que aqui dentro tudo é controlado. Hora pra acordar. Hora pra comer. Hora pra tomar banho de sol. Hora pra dormir. Hora pra falar. Hora pra calar a boca.

Tu perde a liberdade em detalhes pequenos. E isso vai irritando. Consumindo.

Eu passo a mão pelo rosto devagar, respirando fundo. Faz meses que tô preso por causa daquela operação maldita do Bope. Os filhos da puta chegaram rasgando a Babilônia inteira antes do dia amanhecer. Helicóptero, caveirão, tiro vindo de tudo quanto é lado.

Eu consegui segurar o máximo que deu. Mas uma hora a casa cai. Sempre cai. A diferença é que uns sabem cair de pé. E eu sei.

Lá fora a favela continua funcionando porque eu deixei tudo organizado antes de rodar. Perigo segura meu lugar bem. Moleque é fechado comigo desde menor. Cresceu subindo aquelas vielas da Babilônia, dividindo fuga e tiro.

Ele jamais pisaria na bola comigo. Por isso minha mente continua tranquila. O movimento segue firme. O dinheiro entra. Minha mãe tá protegida. E meus homens sabem exatamente o que fazer. Mesmo assim... cadeia continua sendo cadeia.

No fim da noite, quando a cela começa a silenciar aos poucos, eu continuo acordado olhando pra escuridão. Os caras dormem rápido. Eu não. Minha mente trabalha demais.

Lembro da conversa mais cedo e dou uma risada fraca sozinho. "Tu vai ficar maluco sem transar."

Talvez não seja exagero. Não é nem questão de sexo. É descarregar a tensão. Porque aqui dentro ela acumula. No corpo. Na mente. No jeito que tu respira.

AMOR SOB CUSTÓDIAStories to obsess over. Discover now