Nova York nunca dorme.
A câmera de Sarah estava sobre a mesa da cozinha, a lente estava coberta como uma pálpebra fechada. Ela invejava a quietude do objeto. Em sua cabeça, tudo era ruído. Aos vinte e três anos, Sarah carregava o peso de uma vida inteira nas costas. A maturidade que todos elogiavam não era um dom, era uma cicatriz. Tinha aprendido a ser o seu próprio porto seguro muito cedo, logo após o silêncio final de sua mãe, e agora, tentando fazer sua empresa de fotografia decolar no mercado predatório de Nova York, sentia que estava prestes a afundar.
O portfólio era único - ela não capturava apenas rostos, capturava a alma através de ângulos não convencionais e jogos de luz que mais pareciam pinturas. Mas o mundo corporativo não queria alma; queria prazos e obediência. As contas acumulavam na mesma proporção que as rejeições de grandes agências.
Naquela noite, o estúdio improvisado em seu apartamento parecia claustrofóbico. A luz vermelha da geladeira parecia piscar no ritmo de sua ansiedade. Sarah não pensou. Apenas pegou sua jaqueta de couro, calçou os coturnos e saiu.
Ela precisava não ser Sarah. Não a fotógrafa com fome de sucesso, não a órfã madura. Ela precisava ser apenas um corpo no espaço.
Caminhou sem rumo pelo Lower East Side, ignorando as luzes brilhantes dos pontos turísticos e buscando as ruas laterais. Seus olhos, sempre treinados para compor imagens, estavam desfocados. Ela parou diante de uma fachada discreta, quase decadente. Sem letreiros de neon espalhafatosos, apenas uma porta de metal preta e o som abafado de um grave profundo vibrando no concreto.
Um clube que a Nova York "descolada" ainda não tinha descoberto. Perfeito.
Sarah entrou. O ar era denso, impregnado de suor, fumaça e álcool barato. A escuridão era sua amiga. Ela foi direto ao bar, sem olhar para os lados.
- O mais forte que você tiver. Em um copo de shot - disse ao bartender, sua voz firme, apesar do caos interno.
Ele serviu um líquido transparente e pungente. Sarah não hesitou. Virou o copo de uma vez, sentindo o líquido queimar sua garganta e descer como fogo, anestesiando temporariamente a tensão em seus ombros.
O álcool foi o gatilho. Ela pegou a bolsa e caminhou para a pista de dança. Não para o centro, onde as pessoas buscavam validação e olhares, mas para um canto escuro, perto de uma das caixas de som.
Sarah fechou os olhos. A música - uma mistura de techno industrial e batidas tribais - não era algo que ela ouviria em casa, mas era exatamente o que precisava. Era agressiva, alta, física.
Ela começou a se mover. No início, timidamente, mas logo o ritmo assumiu o controle. Não era uma dança coreografada; era uma convulsão de libertação. Seus braços jogados para o ar, seu corpo arqueando. Ela dançava para sacudir a poeira das dívidas, o peso das expectativas, a solidão das noites em claro.
Em alguns momentos, seus cílios tremiam, e uma lágrima solitária escapava, misturando-se instantaneamente ao suor que escorria por seu rosto, mas o movimento não parava. Seus cabelos castanhos, cortados na altura do ombro, chicoteavam o ar a cada giro, revelando e escondendo alternadamente a pequena tatuagem de dois passarinhos em sua nuca - um segredo escondido sob os cabelos, voando para longe de um ninho que nunca mais existiria.
Ela estava ali, mas estava a quilômetros de distância. Totalmente livre. Totalmente vulnerável.
Enquanto isso, a poucos metros dali...
Kim Namjoon sentia que estava sufocando há meses. O peso da coroa de líder, a pressão de ser o exemplo global, a agenda que não deixava espaço para o homem por trás do ídolo. Ele amava a música, amava os fãs, mas às vezes, só queria desligar o interruptor de "RM".
Nova York era supostamente um refúgio, mas até ali os olhares o seguiam.
Naquela noite, ele burlou a segurança. Colocou um moletom preto folgado, um boné de beisebol enterrado até os olhos e óculos de grau simples. Deixou o hotel pela saída de serviço. Queria apenas andar, sentir o frio do outono no rosto sem que ninguém pedisse um autógrafo.
Queria simplicidade. Queria o anonimato que a fama lhe roubara.
Ele parou diante da mesma porta de metal preta. O som abafado parecia prometer um esconderijo. Ele entrou, ajustando o boné. O ambiente escuro e caótico foi um alívio imediato. Ali, ele não era o líder do maior grupo do mundo. Era apenas mais um cara alto de moletom.
Foi ao bar e pediu um uísque cowboy. Bebeu devagar, deixando o líquido quente descer, observando o ambiente ao seu redor com seu habitual olhar analítico. A multidão era um borrão de corpos se debatendo, uma massa indiferente.
Namjoon virou-se para a pista de dança, pretendendo ficar ali apenas alguns minutos antes de voltar para a reclusão do hotel. Ele não queria interação. Ele não queria sentir nada além da batida grave no peito.
Mas então, ele a viu.
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Fragmentos De Nós Dois (FANFIC)
FanfictionUma noite. Sem nomes, sem promessas, sem amanhã. Sarah só queria esquecer o mundo por algumas horas - e encontrou nele exatamente isso. Um estranho que a fez sentir mais do que deveria... e que desapareceu antes do amanhecer. Ela seguiu em frente. O...
