Nunca parei para pensar no quanto essas árvores, os carros e o vento são tão barulhentos. Talvez isso não tivesse tanta importância há alguns anos atrás, porque eu estou reparando nisso agora? Talvez seja porque minha vida começou a ter essa sintonia.
— Ah, coisa insuportável.
— Querida, porque essa sala está tão bagunçada?
Minh mãe pergunta atravessando as montanhas de travesseiro na minha sala.
— Mãe? O que faz aqui? — falo indo em direção a ela.
— Por que a surpresa? Todo final de semana eu venho visitar você. — ela deixa sacolas de comida em cima da mesa e começa a organizar a minha sala. Bufo.
— Para. Não precisa arrumar a minha bagunça. Tiro as almofadas da mão dela e levo em direção ao quarto. Eu estava com uma calça moletom e uma blusa enorme que parecia um vestido em mim.
— Filha, você decidiu se vai continuar naquele emprego? — ela começa a mexer nas sacolas em cima da mesa.
— Eu não sei. Não me decide ainda. — me jogo no sofá.
— Eu trouxe comida para você. Não quero ver você só comendo besteiras, Dhaulia. Você precisa se alimentar bem, está muito magrinha. — Olho para ela.
— Obrigada. Mas não precisava. — minha mãe vem todo final de semana para ver como eu estou, porque de acordo com ela eu não como e se bater um vento me leva.
— Claro que precisava. Faz tempo que você não usa o seu fogão e as panelas. Você só vive comendo coisas prejudiciais para sua saúde. Eu não suporto ver. — ela coloca a comida em um prato e me entrega.
— Toma. Come tudo, viu? — bufo e pego o prato. Sento na mesa ao lado dela.
— Dhaulia, você já tem 36 anos. Eu não quero ver você pra sempre nesse estado em que está. Eu quero que você seja feliz, quero ver você viva, filha. — pego o copo de água que estava ao lado do meu prato e bebo.
— E eu não estou viva? — pergunto enquanto levo o garfo até a minha boca.
— Você sabe o que eu quis dizer. Amanhã faz 5 anos desde que ele partiu. Você vai encontrar com a família dele?
Parei de comer.
Meu apetite desapareceu na mesma hora.
— Não. Eles não querem me ver. Eu não tenho mais nada pra fazer lá.
— Filha...— interrompo ela e olho diretamente em seus olhos.
— Mãe. Não. Eu não consigo encará-los há 5 anos! O que eu vou fazer indo lá? Deixar eles mais tristes? — minha mãe segura a minha mão e aperta. Eu encaro nossas mãos.
— Você também fez parte dessa família. Você tem tanto direito quanto eles. Você foi casada com ele durante anos! Eles não podem tirar o direito de você visitar ele, Dhaulia! Você foi a esposa dele, vocês se amaram muito e construíram uma história linda juntos. Isso não passa rápido. — ela solta a minha mão e vai em direção a pia.
— Você tem o direito de fazer parte desse luto. — ela fala de costas para mim. As lágrimas já estavam rolando muito antes disso. Coloquei as mãos no rosto e baixei minha cabeça na mesa.
— Eu..eu.. eu não consigo, mãe. Co..como sigo em frente? Como faço para superar essa dor? Eu..eu sinto que vou morrer todos os dias. Eu sinto a falta dele todos os dias. Quando eu me levanto imagino que ele deve está esperando na cozinha, quando eu vou dormir espero que ele apareça na porta e me dê boa noite, quando chego de algum lugar, penso que talvez ele esteja me esperando para assistir tv juntos.. eu espero ele voltar todo dia. Penso que talvez tudo o que aconteceu foi apenas um pesadelo e que na verdade ele foi apenas viajar, e que ele vai voltar a qualquer momento. Mas as horas, os dias e os meses passam e ele nunca chega, daí a ficha cai que ele nunca vai voltar para mim. — ela me puxa para um abraço e eu choro de forma convulsiva.
— Filha..— ela nos separa e segura nos meus ombros. — Eu quero que você saiba que você não tem culpa de nada. Você também está sofrendo. Eu não vou dizer para você que a dor vai passar, porque eu não sei se vai. Mas eu tenho certeza que o Daniel jamais iria querer que você vivesse assim. Ele te amava muito e queria o seu bem. Viver da forma que você está vivendo não é viver bem. Eu tenho certeza que ele não te culpa pelo acontecido. Na verdade, nenhum dos dois tem culpa. Foi um acidente. Nada além disso, está me ouvindo? — eu que até então estava de cabeça baixa chorando, encaro ela.
— Mas eu insistir para ele ir naquela noite, se eu tivesse ouvido ele...se eu..— minha mãe me direciona até a cadeira e eu sento.
— Não faça isso com você, Dhaulia. Não se condene dessa forma. Você merece ser feliz. Aliás, sobreviver também é difícil e doloroso. Dói mais. Prometa para mim que vai sair disso, que vai se cuidar e buscar ajuda.
Minha mãe pega um copo de água para mim.
— Eu não preciso de ajuda. — falo e depois bebo a água.
— Eu preciso ir, mas não quero deixar você sozinha. Eu vou ligar para a Laura. Vou pedir para passar uma semana aqui com você, entendeu? — enxugo as lágrimas e olho para ela.
— Não. Eu não quero incomodar ninguém, mãe. Está tudo bem. Eu me viro sozinha. — me levanto e começo a organizar as coisas.
— Claro. Da última vez que estive aqui você me falou a mesma coisa. — relaxo os meus ombros.
— As pessoas têm seus compromissos. Ninguém deve parar o que está fazendo e vir correndo para cuidar de mim. Eu não sou uma criança.
— Eu sei que não é. Mas mesmo assim eu vou ligar. Só assim eu posso ir em paz.
Eu sabia que nada do que eu falaria ia mudar a decisão dela, então só me resta aceitar.
— Eu já estou indo, então cuide de melhorar, viu?
—Uhum. — concordo com a cabeça.
— Até mais. — ela vai em direção a porta e a abre, mas fica parada. E então ela olha para trás e diz:
— Lembre-se que você merece viver como qualquer outra pessoa, Dhaulia.
Ela fecha a porta e eu suspiro.
YOU ARE READING
O ar de Montana
RomanceDhaulia tinha uma vida inteira planejada até perder o marido em um acidente de carro, o mesmo acidente em que ela estava dirigindo. Desde então, os dias passaram a existir apenas por existir. A culpa a consumiu lentamente, levando embora sua rotina...
