Tem gente que lembra da infância por brinquedos.
Ela lembrava pelas orações.
Todas as noites, antes de dormir, ela ajoelhava ao lado da cama pequena de madeira que rangia quando ela se mexia. O quarto era simples: uma janela que deixava entrar a luz amarelada do poste da rua, uma cortina quase sempre torta e alguns bichinhos de pelúcia espalhados pelo chão.
Mas, pra ela, aquele quarto era quase um lugar sagrado.
Porque era ali que ela conversava com Deus.
Ela ainda era criança demais pra entender religião, doutrina ou qualquer coisa complicada. Só sabia que existia alguém no céu ouvindo tudo o que ela dizia baixinho antes de dormir.
E ela falava muito.
Falava sobre a prova de matemática.
Sobre o medo de trovão.
Sobre a briga dos pais na cozinha achando que ela não estava ouvindo.
Sobre a amiga da escola que parou de sentar ao lado dela.
E também falava sobre sonhos enormes que nem cabiam dentro dela ainda.
"Deus... quando eu crescer, eu quero ser feliz."
Era uma oração simples.
Mas verdadeira.
Às vezes ela dormia no meio da própria oração, com as mãos juntas e a cabeça encostada na cama. Como se estivesse segura só por acreditar que alguém estava ouvindo.
E talvez estivesse mesmo.
Naquela época, ela achava que fé funcionava como troca.
Se ela fosse boa:
Deus responderia.
Se ela orasse bastante:
as coisas dariam certo.
Se ela acreditasse de verdade:
ninguém iria embora.
Era assim que crianças pensam.
Elas transformam esperança em certeza.
E ela tinha esperança demais.
A mãe dizia que Deus escrevia histórias perfeitas.
Então ela passou anos acreditando que tudo que acontecia tinha explicação.
Cada atraso.
Cada perda.
Cada despedida.
Tudo fazia parte de algo maior.
Pelo menos era nisso que ela tentava acreditar.
Numa noite de chuva, quando tinha apenas nove anos, ela fez uma oração diferente.
Não pediu brinquedos.
Nem notas boas.
Nem que o pai chegasse mais cedo.
Ela perguntou:
"Deus... como a gente sabe quando algo é pra nossa vida?"
O quarto ficou em silêncio.
A chuva continuou batendo devagar na janela.
E, mesmo sem resposta, ela sorriu.
Porque naquela época...
o silêncio ainda não machucava.
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Deus, por que não eu?
Non-FictionEla cresceu acreditando que toda oração sincera chegava até Deus. Então pediu. Pediu amizades que durassem. Amores que ficassem. Sonhos que acontecessem. Caminhos que finalmente dessem certo. Mas algumas respostas nunca vieram. Entre silêncios, desp...
