O Lugar Onde Me Esqueceram. (Capítulo: 01)

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O sinal do intervalo ecoou pelos corredores do colégio, misturado com risadas, conversas altas e o barulho dos armários se fechando. Mas, no fundo da sala do 3°Ano B, Isabelle permaneceu sentada em silêncio.
Enquanto todos saíam em grupos, ela apenas fingia procurar algo dentro da mochila, esperando a sala esvaziar completamente.
A verdade era simples e dolorosa: Isabelle não tinha amigos.
Aos 18 anos, ela já tinha se acostumado a ser invisível.
Ninguém sentava ao lado dela. Ninguém mandava mensagens. Ninguém perguntava se ela estava bem.
E, com o tempo, ela começou a acreditar que talvez realmente não fosse importante.
Isabelle era o tipo de garota que observava tudo em silêncio. Tinha cabelos castanhos longos, olhos cansados e um jeito tímido que fazia as pessoas nem perceberem sua presença. Não porque ela quisesse ser ignorada... mas porque o medo de rejeição já tinha falado mais alto vezes demais.
Naquele dia, ela caminhava sozinha pelo corredor segurando os livros contra o peito quando ouviu algumas garotas cochichando perto dos armários.
- Ela sempre tá sozinha... - Já reparou que ninguém conversa com ela? - Estranha...
Isabelle abaixou o olhar imediatamente, acelerando os passos.
Ela fingia não ligar. Mas ligava.
Muito.
Ao chegar na biblioteca, seu único lugar seguro no colégio, sentou perto da janela e colocou os fones de ouvido. Nem música estava tocando. Ela só queria evitar que alguém falasse com ela... ou perceber que ninguém falaria.
Do lado de fora, grupos de amigos riam na quadra. Casais andavam de mãos dadas. Todos pareciam ter alguém.
Menos ela.
Então, pela primeira vez em semanas, Isabelle sentiu os olhos encherem de lágrimas.
Mas limpou rápido.
Ela já tinha aprendido que ninguém percebe quando a garota quieta começa a quebrar por dentro.A casa estava silenciosa quando Isabelle abriu a porta e entrou devagar, jogando a mochila perto do sofá.
Como sempre, sua mãe ainda não havia chegado do trabalho.
O relógio marcava quase seis da tarde, e o céu alaranjado entrando pela janela fazia a casa parecer ainda mais vazia.
- Mais um dia incrível... - ela murmurou com ironia, tirando os tênis.
Depois de pegar um pacote de salgadinhos na cozinha, Isabelle se jogou no sofá e pegou o controle da TV. Não precisou nem pensar muito antes de abrir sua série favorita:
Supernatural.
Ela sabia que praticamente ninguém da escola assistia. Toda vez que alguém perguntava qual série ela gostava e ela respondia "Supernatural", recebia olhares estranhos ou comentários tipo:
- "Essa série velha?" - "Nossa, ainda existe isso?"
Mas Isabelle amava aquilo.
Talvez porque, de certa forma, se sentisse parecida com os personagens: sozinha, deslocada... tentando sobreviver.
A abertura começou, e imediatamente ela puxou a manta para cima das pernas, mesmo sabendo que já tinha assistido aquele episódio dezenas de vezes.
Então ele apareceu na tela.
Dean Winchester.
Isabelle soltou um pequeno sorriso automático.
- Ah... lá vem meu problema emocional favorito.
Dean aparecia dirigindo o Impala preto no meio da noite, com aquela expressão confiante e o clássico jeito sarcástico que fazia Isabelle esquecer qualquer coisa ruim por alguns minutos.
Ela mordeu o lábio tentando não sorrir tanto sozinha.
- Como alguém pode ser tão bonito? - falou baixo, escondendo o rosto na almofada logo depois, morrendo de vergonha de si mesma.
Mesmo tendo medo de algumas criaturas da série, ela nunca conseguia parar de assistir. Os sustos valiam a pena quando Dean aparecia na tela.
Enquanto o episódio continuava, Isabelle finalmente começou a relaxar.
Ali, naquele sofá velho, com a luz apagada e a TV iluminando a sala, ela não era "a garota estranha da escola".
Ela era apenas Isabelle.
Uma garota apaixonada por histórias impossíveis... e por um caçador fictício de olhos verdes.O som da televisão parecia distante.
As vozes do episódio começaram a se misturar, ficando abafadas enquanto os olhos de Isabelle pesavam cada vez mais. A manta estava quente, o sofá confortável... e, sem perceber, ela acabou cochilando.
O episódio de Supernatural continuava rolando na TV enquanto a chuva começava a cair do lado de fora.
...
Oito minutos depois.
Isabelle abriu os olhos lentamente.
Mas... alguma coisa estava errada.
Muito errada.
Ela não estava mais na sala de casa.
O sofá havia desaparecido.
A televisão também.
No lugar disso, havia um quarto antigo e escuro, iluminado apenas por uma luminária fraca amarelada. As paredes tinham papel envelhecido, e o cheiro de madeira antiga preenchia o ar.
Ela se levantou assustada da cama onde estava deitada.
- O quê...?
Seu coração acelerou imediatamente.
O quarto parecia um motel de estrada.
Havia uma mala jogada perto da porta. Uma jaqueta de couro em cima de uma cadeira. E um rádio antigo tocando rock baixo ao fundo.
Isabelle começou a respirar mais rápido.
- Onde eu tô...?
Ela caminhou devagar até a janela e abriu um pouco a cortina.
Lá fora havia uma estrada vazia. Um letreiro neon piscando. E estacionado bem em frente ao quarto...
Um carro preto extremamente familiar.
O Impala.
Os olhos dela se arregalaram na mesma hora.
- Não... não pode ser...
Ela conhecia aquele carro melhor do que qualquer coisa.
O Chevrolet Impala 67 de Dean Winchester.
Isabelle deu dois passos para trás completamente em choque.
- Isso é impossível...
Então...
VOZES.
Vozes masculinas vindo do lado de fora do quarto.
- Dean, eu tô falando sério, isso não parece normal.
- Sammy, absolutamente NADA no nosso trabalho é normal.
Isabelle congelou.
Ela conhecia aquelas vozes.
Seu coração começou a bater tão forte que parecia impossível respirar.
A maçaneta da porta começou a girar lentamente.
E então a porta se abriu.

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