O lugar vazio

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Eu ainda quis sumir.
Não de um jeito dramático.
De um jeito silencioso.
Como se desaparecer fosse mais leve do que continuar existindo daquele jeito.
Eu estava distante de tudo.
Das pessoas.
Das conversas.
Da vida.
Mas não dele.
Dele eu não conseguia me afastar nem por um segundo.
Eu ainda cuidava do meu filho.
Cuidava direito.
Fazia tudo o que precisava ser feito.
Mas até isso doía.
Porque tudo me levava de volta pra ele.
Tudo.
A cadeira de balanço.
O quarto.
O silêncio da madrugada.
Eu sentava pra amamentar…
e ele vinha.
Sempre vinha.
Como lembrança.
Como presença.
Como se ainda estivesse ali.
Eu lembro de uma noite.
Eu estava cansada.
Muito cansada.
E ele levantou logo atrás de mim.
Enquanto eu dava de mamar pro nosso bebê…
ele se deitou no chão, do meu lado.
Simples.
Natural.
Como se aquele fosse exatamente o lugar dele.
E a gente conversava.
Baixo.
Sobre o futuro.
Sobre a casa.
Sobre o nosso filho crescendo.
Sobre o dia em que ele ia ser grande o suficiente pra gente levar ele na lagoa.
A gente sonhava alto.
Como se nada pudesse dar errado.
Como se aquilo fosse pra sempre.
E eu lembro de fechar os olhos às vezes…
e abrir…
e ele ainda estar ali.
Sempre ali.
Mas no dia em que ele foi embora…
eu tentei.
Eu sentei na mesma cadeira.
Com o nosso filho nos braços.
E enquanto eu amamentava…
eu fechei os olhos.
Torcendo.
Implorando em silêncio…
pra que quando eu abrisse…
ele estivesse lá.
Mas ele não estava.
E ele nunca mais esteve.
E foi ali que eu entendi.
Não com a cabeça.
Mas com o corpo.
Com o vazio.
Com o silêncio.
Que ele realmente tinha ido embora.
E eu quis morrer.
Eu quis sumir.
Os dias foram passando…
mas pra mim, eles não passavam.
Eles se esticavam.
Infinitos.
Todo mundo esperava que eu superasse.
Era quase automático.
“Vai passar.”
“Você é forte.”
“Ele já seguiu.”
E isso era o pior.
Porque ele já tinha seguido.
Ele já tinha fotos.
Já tinha outra vida.
Já dizia que amava.
E eu…
eu ainda estava ali.
Parada.
Esperando por alguém que não volta.
Nada apagava aquilo.
Nada.
Nem distração.
Nem fuga.
Nem nada que eu tentasse.
E eu nem sei se eu queria apagar.
Porque no fundo…
bem no fundo…
eu acho que eu ainda queria ele de volta.

A versão que eu acreditei Stories to obsess over. Discover now