Algumas cidades guardam segredos dentro das ruas.
Outras guardam pessoas.
Lívia sempre acreditou que a cidade onde cresceu fazia as duas coisas.
Depois de tantos anos longe, voltar parecia apenas uma obrigação rápida. Resolver documentos antigos da casa da avó, empacotar algumas caixas, vender o imóvel e ir embora antes que as lembranças resolvessem aparecer. Era esse o plano.
Simples. Frio. Seguro.
Mas a vida raramente respeita planos.
Naquela manhã, a chuva caía fina, constante, como se o céu estivesse preso em uma tristeza antiga. As calçadas brilhavam molhadas, os telhados escorriam água pelas laterais, e o vento carregava o cheiro de terra úmida misturado com café recém-passado das padarias abertas.
Lívia caminhava devagar pela avenida principal com um guarda-chuva preto em uma mão e o celular na outra. Usava um casaco bege fechado até o pescoço, botas escuras e o cabelo castanho preso de qualquer jeito, embora alguns fios insistissem em escapar e colar no rosto por causa da umidade.
Ela observava tudo como quem visita um lugar que já conheceu intimamente, mas agora estranha.
A banca de jornal ainda estava ali.
A farmácia da esquina também.
O banco onde costumava sentar depois da escola continuava no mesmo lugar, agora com a tinta descascando nas laterais.
Era estranho como o tempo mudava tudo... e ao mesmo tempo não mudava nada.
Seu celular vibrou.
Clara: Chegou bem?
Lívia respondeu andando.
Lívia: Cheguei. Tá chovendo muito.
Clara: Combina com seu drama.
Lívia soltou um sorriso pequeno.
Lívia: Engraçadinha.
Clara: Vai resolver tudo hoje?
Ela demorou alguns segundos para responder.
Lívia: Espero que sim.
Mas, no fundo, não sabia.
Guardou o celular na bolsa e ergueu o olhar.
Do outro lado da rua estava a cafeteria Aurora.
O mesmo letreiro branco.
As mesmas janelas grandes.
O mesmo toldo azul-marinho.
Seu peito apertou.
Foi ali que ela tomou o primeiro café da vida e odiou.
Foi ali que riu até faltar ar.
Foi ali que se apaixonou.
E foi ali que terminou tudo.
Lívia parou na calçada por alguns segundos, observando o movimento lá dentro. Pessoas sentadas, xícaras fumegando, barulho abafado de conversa. Um casal dividindo um pedaço de bolo. Um homem lendo jornal.
Vida comum.
Vida seguindo.
Respirou fundo.
- Ridículo - murmurou para si mesma.
Era só uma cafeteria.
Atravessou a rua.
O sino da porta tocou assim que entrou.
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Águas Passadas
RomanceDepois de anos sem se verem, Lívia e Noah se reencontram por acaso na cidade onde viveram o primeiro amor. O tempo passou, a vida mudou, mas algumas feridas nunca fecharam. Entre conversas interrompidas, memórias guardadas e sentimentos que insistem...
