Capítulo 1 - A frequência

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Em um dia em que o silêncio da cidade chegava a doer, o som metálico da caixa de correio ecoou baixo quando ela a abriu.
Não era comum receber cartas, principalmente em um mundo infiltrado de telas, em que as pessoas mal conversam umas com as outras, muito menos naquele tipo de envelope.
Amarelado, rígido, com o nome dela escrito de forma formal demais para qualquer coisa comum. O símbolo no canto deixava claro: aquilo não era propaganda, nem conta atrasada.
Era oficial.
Ela franziu a testa, puxando o papel com cuidado.
Leu uma vez.
Depois outra.
E uma terceira, mais devagar.
Era uma convocação.
Comparecimento obrigatório para a leitura de um testamento.
Ela ficou alguns segundos parada, olhando para aquelas palavras como se elas pudessem se reorganizar sozinhas e fazer mais sentido.
Testamento?
De quem?
A resposta veio quase imediata na parte inferior da folha.
Seus avós.
O estômago dela apertou acompanhado de um frio gélido se espalhando pelo corpo.
Não exatamente de tristeza... mas de estranheza.
Ela não era próxima deles. Não tinha convivência suficiente para justificar qualquer tipo de herança importante.
Então por que ela?
- Deve ser só burocracia... - murmurou, dobrando o papel.
Mas a sensação incômoda não foi embora.
Ela releu a carta mais uma vez antes de deixá-la sobre a mesa.
Ainda parecia estranho.
Testamento.
A palavra ficava ecoando na cabeça dela, como algo fora de lugar na própria vida.
Ela não lembrava da última vez que tinha falado com os avós. Talvez anos. Talvez mais do que isso. Não havia ligação, não havia proximidade... só um parentesco distante que, até então, não significava muita coisa.
E agora aquilo.
Um chamado formal, frio, direto.
Comparecimento obrigatório.
- Isso não faz sentido... - murmurou, passando a mão no rosto.
Nos dias seguintes, ela tentou ignorar.
Seguiu a rotina, evitou pensar demais, deixou a carta dobrada em algum canto como se isso fosse suficiente para adiar a realidade. Mas não adiantou.
A sensação continuava ali.
Incômoda.
Persistente.
Como se algo estivesse esperando.
Na noite anterior ao dia marcado, ela quase desistiu.
Pensou em não ir. Inventar alguma desculpa. Dizer que não podia, que não fazia diferença... porque, no fundo, era isso que parecia.
Mas não era.
Tinha alguma coisa errada naquela história.
E, por mais que não quisesse admitir, a curiosidade começou a pesar mais do que o desconforto.
No dia seguinte, ela foi.
O caminho pareceu mais longo do que deveria. Silencioso demais. Como se cada minuto estivesse esticando só para aumentar aquela sensação estranha no peito.
Quando finalmente chegou, tudo parecia... parado.
A rua.
As casas.
O portão.
Como se o tempo tivesse passado por todos os lugares - menos ali.
Ela ficou alguns segundos parada antes de descer.
Respirou fundo.
E então saiu do carro.
Sem saber que, naquele momento, alguma coisa já tinha começado... e não iria parar.
-
O cheiro de mofo foi a primeira coisa que ela sentiu ao abrir a porta.
Não era só um cheiro ruim.
Era antigo. Parado no tempo.
A casa dos avós parecia menor do que ela lembrava, como se tivesse encolhido com os anos ou simplesmente desistido de existir. A madeira rangia sob seus pés, cada passo ecoando de um jeito estranho, como se o lugar estivesse ouvindo.
Ela nunca foi muito próxima deles.
Na verdade, quase não tinha lembranças. Algumas visitas rápidas na infância, um doce aqui, um sorriso ali... nada que justificasse aquela sensação estranha no peito agora.
Mesmo assim, ali estava ela.
Sozinha.
Organizando coisas que não eram dela, em um lugar que nunca pareceu realmente familiar.
- Só termina logo com isso... - murmurou, mais pra si mesma do que pra qualquer outra coisa.
As caixas estavam empilhadas na sala. Fotografias antigas, roupas que cheiravam a passado, objetos sem valor... ou pelo menos era o que parecia.
Até ela encontrar o rádio.
Ele estava no canto, em cima de uma pequena mesa coberta por uma toalha amarelada. Era antigo, de um tipo que ela só tinha visto em filmes. Grande, pesado, com botões gastos e uma tela de vidro levemente embaçada.
Ela passou a mão por cima, tirando a poeira.
- Quem ainda guarda isso...
Por algum motivo, não jogou fora.
Colocou dentro de uma caixa separada, como se aquilo fosse diferente. Como se tivesse algum tipo de importância que ela não conseguia explicar.
Talvez fosse só curiosidade.
Talvez não.
-
Dias depois, o rádio estava no quarto dela.
Encostado na parede, perto da tomada, quase esquecido... até aquela noite.
O quarto estava silencioso. Silencioso demais.
Ela rolava na cama, sem conseguir dormir. O ventilador fazia um barulho leve, constante... mas ainda assim, algo parecia errado. Como se o silêncio tivesse peso.
Foi quando seus olhos pararam no rádio.
Ela ficou alguns segundos olhando.
Pensando.
- Ah, tanto faz...
Levantou.
Se aproximou devagar, como se o objeto pudesse reagir de alguma forma. Ridículo. Era só um rádio velho.
Ela conectou na tomada.
Nada.
Girou o botão.
Um chiado baixo.
Outro giro.
Mais chiado.
- Nem funciona direito...
Mas ela continuou girando.
Devagar.
Até que o som mudou.
No começo, ela não entendeu o que estava ouvindo.
Parecia... distorcido. Como vozes passando por água. Um sussurro arrastado, quase impossível de compreender.
Ela se inclinou um pouco mais, aproximando o ouvido.
E então ouviu.
Um grito.
Ela se afastou na hora.
- Que...?
Voltou o olhar pro rádio.
O chiado continuava... mas agora tinha algo no meio. Algo humano.
- Me ajuda...
A voz era fraca. Falhada.
- Por favor...
O coração dela começou a bater mais rápido.
- Isso não tem graça... - sussurrou, mesmo estando sozinha.
Girou o botão de novo, tentando sair daquela estação.
Mas as vozes aumentaram.
Mais de uma.
Várias.
Sobrepostas.
- SOCORRO
- ALGUÉM
- TIRA A GENTE DAQUI
- POR FAVOR
A luz piscou.
Uma vez.
Duas.
O quarto inteiro pareceu tremer por um segundo.
Ela congelou.
O rádio chiava mais alto agora, como se estivesse forçando algo... como se aquilo não fosse pra estar ali.
Então veio o som.
Passos.
Lentos.
Vindo do corredor.
Ela virou a cabeça na mesma hora.
A porta do quarto... estava fechada.
Ou pelo menos estava.
Um rangido baixo cortou o silêncio.
A maçaneta girou.
Sozinha.
- Não... não, não...
A porta se abriu devagar.
Os passos pararam.
Silêncio.
Ela não conseguia se mexer.
O rádio continuava.
- NÃO DESLIGA
- NÃO DESLIGA
- NÃO DESLIGA
Aquilo foi demais.
Ela correu até a tomada e puxou com força.
O rádio desligou.
Silêncio absoluto.
O quarto voltou ao normal.
A luz parou de piscar.
A porta... ainda estava aberta.
Nada no corredor.
Nada em lugar nenhum.
- Foi só... alguma interferência...
Ela tentou se convencer.
Tentou respirar fundo.
Tentou agir como se aquilo tivesse uma explicação.
Mas tinha algo errado.
Muito errado.
Porque mesmo com o rádio desligado...
Ela ainda conseguia ouvir.
Bem baixo.
Quase como um eco dentro da própria cabeça.
- ...me ajuda...
Naquela noite, ela não dormiu.
E quando finalmente fechou os olhos...
Ela viu.
Um lugar escuro.
Antigo.
E pessoas com olhos completamente negros, sem brilho algum.
Paradas.
Olhando diretamente pra ela.
Como se soubessem exatamente onde ela estava... e que ela não deveria ter encontrado aquele lugar.

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