Caminhos que ainda não se cruzaram

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Eu nunca gostei muito de sair do meu quarto.

Na verdade, “não gostar” é um jeito leve de dizer. Meu quarto é… seguro. É onde o mundo faz sentido — ou pelo menos, onde eu consigo ignorar quando ele não faz. Meu PC, meus jogos, meu fone de ouvido… ali, ninguém me olha estranho, ninguém espera que eu diga a coisa certa na hora certa.

Porque eu nunca sei.

Meu nome é Kyle. Tenho 16 anos. E, segundo minha mãe, eu “preciso aprender a viver no mundo real”.

Foi por isso que eu estava ali.

Sentado em uma cadeira desconfortável, olhando para o chão de uma sala que cheirava a desinfetante barato e café velho, tentando não parecer completamente fora do lugar — mesmo claramente estando.

— Você pode me dizer como se sente estando aqui hoje? — a terapeuta perguntou, com aquela voz calma demais.

Eu dei de ombros.

— Normal.

Mentira.

Minhas mãos estavam suando. Minha perna não parava de tremer. Eu sentia como se todo mundo estivesse me observando, mesmo sabendo que isso não fazia sentido.

— Kyle — ela insistiu, com um leve sorriso — “normal” pode significar muitas coisas.

Eu queria dizer: “eu me sinto um erro em forma de pessoa”.

Mas em vez disso, falei:

— Eu só não queria estar aqui.

Ela anotou alguma coisa. Claro que anotou.

Todo mundo anota quando você é estranho.

Minha mãe estava certa atrás de mim, em silêncio, como se aquilo fosse algum tipo de conserto. Como se eu fosse um problema a ser resolvido.

Talvez eu fosse mesmo.

Eu abaixei o olhar, encarando minhas próprias mãos. Pensei em como seria mais fácil estar em casa agora. Em como, no jogo que eu tinha deixado pausado, eu sabia exatamente o que fazer. Tinha objetivos claros. Missões.

Aqui… não.

Aqui eu só existia errado.

E então—

A porta abriu.

Ethan não queria estar ali.

Isso já era óbvio pelo jeito que ele entrou: sem bater, empurrando a porta como se ela tivesse feito algo pessoal contra ele. As mãos nos bolsos do moletom azul, expressão fechada, olhar de quem já estava irritado antes mesmo de qualquer coisa acontecer.

— Senta, Ethan — disse a mulher, sem perder a calma.

Ele revirou os olhos.

— Não tô com paciência pra isso hoje.

— Mesmo assim, você precisa estar aqui.

— Eu não preciso de nada.

Ele disse aquilo com uma certeza que parecia inabalável, mas o jeito como ele desviou o olhar por um segundo entregava outra coisa. Algo menos sólido. Algo… cansado.

Ethan bufou, passou a mão pelo cabelo azul bagunçado e finalmente se jogou na cadeira, como se estivesse fazendo um favor pra todo mundo ali.

— Tá. Pronto. Tô aqui. Feliz?

A terapeuta apenas fez uma anotação.

Ele odiava isso.

Odiava aquele ambiente, odiava a ideia de alguém tentando “entender” ele, odiava mais ainda o fato de que tinham obrigado ele a ir. Como se ele fosse algum tipo de caso perdido.

Talvez fosse.

Mas ele não ia facilitar.

E então, pela primeira vez, ele reparou que não estava sozinho.

Tinha um garoto ali.

Quieto. Encolhido. Como se quisesse desaparecer dentro da própria roupa. Olhando para o chão como se encarar qualquer outra coisa fosse perigoso demais.

Ethan inclinou levemente a cabeça, analisando.

“Que tipo de cara é esse?”

Eu senti.

Antes mesmo de olhar, eu senti.

Alguém me observando.

Meu coração acelerou de um jeito ridículo. Eu sabia que provavelmente era paranoia, mas… não parecia.

Devagar, quase contra a minha própria vontade, eu levantei o olhar.

E encontrei o dele.

Os olhos dele eram intensos. Não no sentido bonito de filme, mas… diretos. Firmes. Como se ele estivesse me desafiando sem dizer uma palavra.

Eu congelei.

Ele arqueou levemente a sobrancelha, com uma expressão clara demais:

"Perdeu alguma coisa?"

Meu rosto esquentou na hora.

Eu desviei o olhar rápido, como se tivesse encostado em algo quente demais. Minhas mãos começaram a suar mais ainda, e eu fiquei encarando o chão de novo, fingindo que nada tinha acontecido.

Mas tinha.

Porque agora eu sabia que ele estava ali.

E pior—

Eu sabia que ele tinha me visto.

Ethan soltou um pequeno suspiro pelo nariz, quase como um riso contido, e se recostou na cadeira.

Kyle, né?

Interessante.

A bend in the timelineWhere stories live. Discover now