sou uma pessoa desleixada, com uma aparência cansada e negligenciada, como alguém que já desistiu de tentar parecer apresentável. estava tão imerso nas provas que estava corrigindo que nem percebi o tempo passar. foi então que o meu telefone toca; era Ana me chamando para sair essa noite. eu reviro os olhos e digo que não estava com cabeça para aquilo. após desligar, decido pegar um café bem forte para acordar.
olho o relógio da parede do meu kitnet, no bairro da Cremação, que mais parecia uma casinha de cachorro do que um lar de verdade, um espaço apertado e abafado, onde o ar parecia pesado demais para respirar. as paredes, em um azul desbotado, junto com suas infiltrações, tinham manchas escuras de umidade que se espalhavam sem controle. o relógio marcava 01:30 da manhã. por sorte, eu não iria trabalhar amanhã, então poderia dormir até mais tarde, o que me deixava feliz pelo menos um pouco.
enquanto vou ao cômodo da cozinha (ou seja, apenas rodeio o balcão), não deixo de olhar aquele kitnet em que estava morando e sentir nojo daquele lugar que eu chamava de lar, com o chão encardido e um leve cheiro de mofo que nunca ia embora. “nossa, Lucas, que lugar horrível para viver”. dou um sorriso tímido, pensando nos meus sonhos de infância: sonhava em ser blogueiro ou youtuber gamer.
colocando a água no fogo para fazer o café, paro de pensar nessas bobagens de criança e decido tomar um banho. vou até o banheiro, um espaço pequeno, com azulejos rachados e um espelho manchado que mal refletia minha imagem. minha barba stubble pedia manutenção urgente, falhada e mal cuidada. meu rosto carregava olheiras profundas e uma expressão abatida, com a pele opaca de quem quase não dorme. meu corpo magro, de quem não se cuida desde os 15 anos, com os ombros levemente curvados e uma aparência frágil, deixava claro que eu nunca pisaria em uma academia.
entro debaixo do chuveiro, deixando a água gelada cair sobre mim, me forçando a acordar. o choque percorre meu corpo como se tentasse arrancar o cansaço na marra. depois de alguns minutos, volto para o quarto ainda com a pele arrepiada. pego apenas uma cueca para vestir, mas sem querer esbarro na cabeceira e deixo cair um porta-retrato. o som seco contra o chão ecoa no silêncio, e por um instante eu só fico olhando, como se já soubesse o que iria encontrar. me abaixo devagar e pego a fotografia.
um garotinho de olhos castanhos vivos e um sorriso leve, alegre demais para o que a vida viria a ser. diferente de mim, diferente do que eu me tornei. ao lado dele estava meu pai, Rodrigo salim, com seu macacão sujo de graxa, as mãos marcadas pelo trabalho e aquele sorriso torto que sempre aparecia quando me olhava. ele era o tipo de pessoa que não precisava dizer muita coisa, ele simplesmente estava lá. sempre esteve. era o único que realmente me entendia, meu alicerce. na foto, ele me segurava nos braços, me levantando como se eu fosse um avião, e eu ria, um riso solto, sem peso, sem preocupação, um riso que eu nem reconhecia mais como meu.
meus dedos apertam levemente a moldura. uma lágrima escapa antes que eu consiga impedir. eu a limpo rápido, com as costas da mão, como se isso fosse suficiente para apagar. coloco o porta-retrato de volta na cabeceira, com mais cuidado dessa vez, como se pudesse quebrar algo além do vidro. respiro fundo e sigo para a sala.
com o notebook sobre a mesa, termino de fazer o café e despejo na xícara do Paysandu. o cheiro forte sobe junto com o vapor, preenchendo o ambiente. me sento e encaro a tela.
é quando vejo uma notificação de um site antigo que eu usava, chamado “FlogFrame”. deixo escapar uma risada baixa, carregada de sarcasmo.
— sério isso?
clico. a página carrega devagar, como se estivesse sendo puxada de um tempo que não queria mais voltar. a interface era velha, parada no tempo, mas ainda funcionava. e então vem a onda, nostalgia pura, quase sufocante.
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além da alma
General FictionE se você tivesse a chance de voltar e refazer tudo aquilo que destruiu quem você se tornou? Pedro tem 35 anos e vive carregando o peso de escolhas que nunca conseguiu consertar. As lembranças não são apenas memórias, são feridas abertas: o bullying...
