Uma missão quase impossível

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Octavian Correa

Ajeito o paletó ao me olhar no espelho, e depois o cabelo, antes de pegar a bíblia e franzir o cenho, numa sensação esquisita. O que é....? Olho ao redor, meio confuso. Tem algo... diferente. O que tô esquecendo? Deixo a bíblia na bancada, e mexo nos punhos da camisa social branca. Então noto, e reviro os olhos. Ah, claro. Pego as pílulas ali, foi por pouco.

— Vamos lá, Octavian. Você já fez isso um milhão de vezes.

Digo a mim mesmo, antes de tomar isso com água. Devo lembrar que é por Deus, por Ele, tudo vale a pena. Até falar em público diariamente para dezenas de pessoas, na vida que Ele me escolheu. Sorrio, e volto a pegar a bíblia, ao ouvir uma voz.

— Querido... não está esquecendo nada?

Quase arrepio. Mais coisa? Toco o paletó, então olho quem vem. Por um instante, me pergunto, quem... então vejo, sorridente, ao se aproximar de mim. A olho, de cima a baixo, na roupa recatada azul. Toda coberta, e com uma xícara de café na mão. Ah...?

— Não acredito que quase deixou esfriar. Está mesmo distraído hoje. — Aisha deixa a xícara em minha mão, sorridente. — Logo num dia tão importante. Você precisa mesmo, viu?

A encaro estático, por alguns segundos. Bem... claro. Aisha, minha esposa, como não? Suspiro, num sorriso fraco e olho outra vez. Tento dispersar, ela tem razão. O que houve comigo hoje? Sorrio mais, agarro a xícara mais firme, algo que definitivamente preciso hoje. Firmeza.

— Tem razão... querida. Parece que acordei meio... disperso. – Olho ao redor breve, mas volto a ela de novo. — Mas depois desse café maravilhoso... claro que vai ficar tudo bem. Com toda certeza.

Qual é, tinha aprendido a controlar meu pavor de público com meu pai, de qualquer forma. Aliás, será que ele vai hoje? Bom, ia descobrir. Sorrio ao tomar o café amargo, e volto a ela quando toca meus ombros, respirando fundo.

— Vai ser um dia incrível, se assim Ele quer. — Faço uma pausa, então sorrio mais. — E você, trate de apressar aquelas Irmãs, elas precisam trazer o coral na hora certa. Da última vez, você sabe, quando entraram cortando aquele pastor de Gavetown, o senhor quase me levou ali mesmo no altar. Tenho pesadelos com isso ainda.

Ela ri até demais, segurando a barra do meu paletó.

— Ah, não fale assim. Mas elas estão demais, pode deixar comigo. Hoje, tanto o senhor quanto meu querido sogro terão ainda mais orgulho do homem de Deus que está se tornando. Assim como eu tenho, todos os dias.

Aisha sorri, com a mão em meu peito, antes de me dar um beijo casto, que dura uns segundos. Retribuo, ao fechar os olhos, ela sorri e se afasta, soando divertida ao pegar sua bíblia.

— Não se preocupe, Ele quer que tudo funcione. A noite vai ser tão agradável que nem vai sentir passando.

Respiro, e uma sensação estranha me passa de novo, ao olhar em seus olhos. Mas sorrio outra vez, mais leve pelas palavras, contente e satisfeito. É, acho que sim. Honório realmente se orgulha por eu seguir seus passos, isso me deixa bem. Olho a mim quando ela se afasta para ir, um pouco melhor e menos confuso. É, não tem por que me apavorar. Me reunir com os fiéis é moleza, faço isso de olhos fechados.

Ajeito a roupa outra vez, olho a xícara em minha mão. Volto a ela quando sorri positiva na porta, devolvo, tomando o resto da bebida. Ela ri com aprovação, num olhar bobo.

— Vou esperá-lo lá fora, preciso falar com Jessica antes de irmos. Te amo, querido.

Ergo a xícara a ela, no meu melhor sorriso também.

— Também te amo, querida. Obrigado, isso é muito importante, mesmo.

Ela sai pela porta, me deixando sozinho. Então, meu sorriso some, e olho ao redor rápido, antes de ir para a cozinha e cuspir todo aquele café horroroso na pia, antes de o gosto impregnar na minha boca.

Caixa da Terapia - uma aventura de MFOStories to obsess over. Discover now