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M
aya Clark tem dezesseis anos, zero paciência e um vocabulário que faria você repensar na idade dela.
Ela não é necessariamente má, apenas sincera, e a sinceridade costumava sair mais caro.
Ela sabia rir alto em lugares silenciosos, apontar o óbvio que ninguém tinha coragem de dizer, e chamar as coisas pelo nome, mesmo quando o nome era “que merda hein”.
As meninas da sala dela achavam ela intimidadora. Os meninos, na maioria, tinham medo.
As poucas que chegavam perto descobriam rapidamente que Maya era exatamente o que parecia: uma garota que ria das suas próprias piadas, que soltava um “vai tomar no cu” com um sorriso tão genuíno que você quase agradecia, e que flertava do pior jeito possível; rindo que nem uma idiota, gesticulando demais, e esquecendo completamente como funcionava piscar de olho de forma sexy.
Por dentro, Maya era uma garota chorona. Não daquelas que chora por qualquer coisa, ela odiava demonstrar fraqueza.
Mas quando o quarto escurecia e o silêncio apertava, ela sentia falta da mãe.
Não da Olivia real, a mulher irresponsável que trocou o pai dela por um cara qualquer e sumiu do mapa.
Maya sentia falta da ideia de uma mãe. Daquela versão inventada que existia só na cabeça dela, a que não traía, não abandonava, não fazia o pai chorar escondido no banheiro.
Daniel Clark foi o melhor amigo que o destino resolveu empacotar como pai.
Daniel era um homem grande que fazia panquecas no sábado de manhã e nunca, jamais, perguntava:
— “Você tem certeza que gosta de mulher?”
porque ele simplesmente sabia.
Desde os doze anos, quando Maya tinha soltado um:
— “pai, acho que eu sou lésbica”
Enquanto comiam pizza na sala, ele só tinha virado a cabeça, dado um gole na cerveja, e respondido:
— “Traz mais uma fatia pra mim então, princesa.”
Ela nunca esqueceu.
⤷ Tess DeNunzio
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Tess DeNunzio tem dezesseis anos, uma culpa do tamanho de uma irmã de três, e o hábito de prender a respiração sempre que alguém menciona o dia 11 de setembro.
Ela não era necessariamente ruim, era apenas uma garota cansada.
Na escola antiga, ninguém sabia o motivo da transferência.
Aqui, na nova, também não saberiam.
Tess não contava, não por maldade, só porque algumas histórias não cabiam em palavras.
E algumas palavras, se ditas em voz alta, viravam reais demais.
Ela sabia revirar os olhos antes que alguém terminasse uma frase, soltar um “foda-se” bem colocado quando a situação pedia, e rir de coisas que não tinham graça, só para não ter que explicar o que realmente estava acontecendo na sua cabeça
Na escola nova, ninguém sabia nada sobre ela. E Tess gostava assim, quanto menos as pessoas soubessem, menos teriam que sentir pena.
E ela odiava pena. Preferia o medo, preferia o julgamento, preferia qualquer coisa, menos aquele olhar molhado de “coitadinha”.
As meninas da sala cochichavam, os meninos, na maioria, não chegavam perto.
E Tess deixava que pensassem o que quisessem.
Ela ria quando dava vontade, xingava quando perdia a paciência e fingia que nada tinha acontecido tão bem que até ela mesma quase acreditava.
Nick, o pai biológico, era um sujeito estranho, criava pastores alemães, vendia maconha e tinha um senso de humor seco que Tess apreciava.
Desde os quinze anos, quando a vida resolveu mostrar que não tinha misericórdia, Tess aprendeu duas coisas: pessoas vão embora, e as que ficam geralmente querem alguma coisa em troca.